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Educando e transformando as relações alimentares

30/08/2017

por: Fran Micheli
Educando e transformando as relações alimentares
Fotos: Fran Micheli

Ao chegar ao bairro Ribeirão Verde, a típica cena de uma periferia pulsante. Dezenas de pequenos comércios, umas ruas esburacadas, outras não e uma simpática gente conversadeira. Com mais alguns minutos de carro, entramos numa área de preservação ambiental e, mata a dentro, o barulho vai ficando pra trás. Uma construção de madeira desponta no fim do caminho de terra. Som de criança brincando inunda o espaço.

Nosso destino é a Escola Sathya Sai, uma escola filantrópica mantida com doações e convênios, além do trabalho árduo dos que colocam em prática os ensinamentos de Śri Sathya Sai Baba, filósofo e educador indiano que defendia a ideia da religião do amor.

A ideia era conhecer de perto o modo com que a Escola ensina as crianças a lidarem com a alimentação, com a comida. Mas a manhã foi de muito mais aprendizado.

Escola Sathya Sai Ribeirão Preto. Unidades presentes também no Rio de Janeiro (RJ) e Aparecida de Goiânia 

Água da chuva, horta e coletividade

Chegando, a diretora Marta Lúcia Pereira Vieira nos levou para conhecer o espaço, grande parte construída em madeira, fresco e aconchegante, não lembrando em quase nada a formatação das escolas tradicionais (a não ser pelo barulho das crianças na hora do intervalo). No pátio, um vão livre embaixo da estrutura da escola, as crianças terminavam o lanche da manhã e as funcionárias lavavam os pratos e copos em pias adaptadas com água captada da chuva e reutilizada. Posteriormente, a água também seria usada para limpar o chão do espaço.

Ao fundo, uma horta dá conta de uma parte das necessidades da Escola. Os alunos plantam, aprendem a lidar com a terra e colhem. Pais de alunos, incluindo alguns agricultores que moram em um assentamento dos sem-terra próximo, também contribuem com legumes e verduras das suas hortas.

Lavatórios adaptados para reaproveitar a água da chuva 

Uma horta de permacultura está sendo planejada para o início de 2018. Então, quase que toda a alimentação das crianças sairá da própria escola.

“Nosso propósito sempre foi trazer os pais de alunos e a comunidade para dentro da escola. Antes de o aluno ser matriculado, fazemos reuniões com os pais para explicar à coletividade que, acima de tudo, o nosso foco é nos valores humanos", explica a diretora Marta.

Os alunos do segundo ano se acomodaram na sala de aula para escutar o que a nutricionista, a Tia Suzy, tinha para ensinar no dia. A aula era sobre alimentos construtores, reguladores e energéticos. Uma garotinha levanta a mão e diz que a mãe dela faz queijos, um alimento construtor.

Tia Suzy falando sobre grupos de alimentos e sua importância

A grande maioria dos alunos vem de famílias de baixa renda. Todos os alunos devem residir no Ribeirão Verde ou em bairros adjascentes. Atualmente, são 180 crianças na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, 127 deles em período integral. Além do conteúdo didático tradicional, as crianças têm aulas de xadrez, yoga, agricultura, coral, musicalização e formação de valores humanos. De acordo com a Diretora, o custo da escola com cada aluno fica em R$620,00. Em algumas redes municipais, esse número é de cerca de R$1.000,00. Na Sathya Sai, ninguém paga mensalidade, o ensino é gratuito.

Xô, desperdício!

A coordenadora pedagógica Michele Mara Tofanello me conta sobre um painel que foi instituído na Escola contra o desperdício. Depois de estimular os professores a falarem nas aulas sobre miséria e escassez alimentar pelo mundo a fora, o resultado foi certeiro.

Merenda vegetariana do dia: arroz colorido, legumes e omelete

“Muitas vezes, as funcionárias colocavam no prato da criança mais do que ela aguentava comer, ou a criança pegava coisas e não comia. Passamos a pesar tudo o que era jogado fora diariamente e fizemos um ranking. Todo mundo se empenhou em baixar esse peso e, em apenas um mês, chegamos ao desperdício zero”.

Hoje, cada criança serve seu próprio prato com consciência do que pode comer. “Se sobra alguma coisa no prato de alguém logo vem um amiguinho disposto a dividir para não jogar fora”, conta Michele.

A rainha da cozinha

A cozinheira Marta Adriana Rodrigues de Souza senta à mesa para contar a sua história, enquanto seu “arroz colorido” fica pronto na panelona para o almoço. Funcionária e colaboradora da escola desde 2002, sua história por lá começou nos serviços gerais. Assim que surgiu uma oportunidade na cozinha, lá correu ela para lutar pela vaga. Conseguiu e de lá não saiu mais. Segundo ela, aprendeu a cozinhar espiando a antiga cozinheira pela janela.

“Eu gastava todo o meu salário em mototaxi. Ia em todos os cursos gratuitos de cozinha, aprendi panificação, salgados, cozinha italiana, comida vegetariana, conservas. Hoje faço de tudo, amo demais o que faço aqui”, conta, mostrando as conservas que tinha acabado de fazer.

Adriana com as conservas feitas com doações de pais de alunos. Lucro das vendas é revertido para a esola.

“Às vezes a gente recebe doação aqui de caixas e caixas de batata, pepino, cebola. Aí tenho que inventar e criar algo diferente pra aproveitar tudo. Faço as conservas e a escola vende”. Cada vidro sai por R$10. Nada se perde.

Na cozinha da Escola Sathya Sai não entra carne, todo o cardápio é vegetariano. Há somente pouco tempo é que o ovo ganhou espaço nas panelas. Disseram que a primeira vez que os professores sentiram cheiro de ovo vindo da cozinha, se aglomeraram na porta e começaram a aplaudir.

No cardápio do dia, arroz colorido, legumes refogados e omelete. O cheiro passeava pela Escola chamando todo mundo para a merenda da tia Adriana.


SATHYA SAI - RIBEIRÃO PRETO

Av. Julieta Engrácia García, 2050 - RIbeirão Verde CEP:14079-312 | Telefone: (16) 3996-6013

www.escolasairp.org.br

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