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A Alfabetização Científica e a arte da Gastronomia, existe algum paralelo possível?

Por: Vera Cristina

06/05/2019
A Alfabetização Científica e a arte da Gastronomia, existe algum paralelo possível?

Imagem Dose Juice, via Unsplash

Nos últimos dias, tenho me interessado pelo tema da Alfabetização Científica, assim mesmo, escrita com iniciais em letras maiúsculas dada a importância e relevância do tema. Eu explico: sou bióloga de formação, professora universitária aposentada, que se dedicou ao ensino de Ciências e da Biodiversidade durante 28 anos. Atualmente, sou voluntária em uma escola filantrópica, auxiliando a professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental em questões relacionadas ao ensino de Ciências e Biologia. Nos últimos minutos, estava tão empolgada pelo assunto, que o convite da Bia Amorim, minha filha e editora da Farofa, para escrever algo relacionado às minhas experiências no universo gastronômico soou tão forte em minha mente, que meu coração resolveu ajudar para não deixar que o viés cientificista atravessasse este samba. Então, como uma sambista de uma nota só, pensei que uma analogia entre os dois temas, Alfabetização Científica e Gastronomia, não era apenas possível, mas muito pertinente.

Atualmente, a compreensão do que seria um indivíduo alfabetizado cientificamente envolve sua capacitação em três eixos: compreensão dos conceitos e termos utilizados dentro das ciências da natureza, percebendo-os dentro de situações cotidianas; compreensão das normas e métodos utilizados para a construção do conhecimento científico, assim como das questões éticas e políticas que influenciam esta área; e, no terceiro eixo, deve haver entendimento do impacto da ciência e da tecnologia sobre a sociedade e o meio-ambiente.

Samuel Zeller, via Unsplash

Passando para o desenvolvimento de nosso conhecimento gastronômico, penso que trilhamos os mesmos caminhos. Como crianças, vamos aprendendo os nomes dos alimentos – coma essa florzinha, diz a mãe ao se referir à uma simples couve-flor, ou uma arvorezinha, tentando tornar simpático um florete de brócolis! Relacionamos nomes à sabores, texturas, cheiros e, também, sentimentos e emoções. As comidas “de domingo”: a macarronada com muitas almôndegas gordinhas, a lasanha escorrendo seu molho com queijo, o pudim sem furinhos, o sorvete com cobertura, ou os pratos “novos”, as aventuras culinárias de alguém da família. As comidas do dia-a-dia, arroz/feijão/alface, tomate, pepino/bife (fígado, mãe?), que nos confortavam porque em geral não traziam desafios e eram certezas, como um farol nas margens rochosas.

Nosso segundo eixo de “Alfabetização Gastronômica” também envolve a compreensão do modo como ocorre a construção desse conhecimento. Ficamos na cozinha, à beira do fogão, olhos atentos na mágica desenvolvida por nossas mães, avós, tios, pai ou outra pessoa que tenha essa função na casa. Queremos saber como fazer o arroz soltinho, ou com o fundo pregadinho na panela, o ovo com a gema ainda molinha para que possa ser saboreada escorrendo pelo pedaço de pão, o bolo de cenoura com calda de chocolate, o sagu, ou outra delícia que povoou nossa infância. Uma de minhas melhores memórias como cientista gastronômica era ver minha mãe ajudar minha avó materna a preparar bala de coco, e assistir à transformação de estado daquela mistura quente e translúcida se tornar um fio perolado branco, que ia sendo depositado na mesa, cortado em pequenos pedaços; eu, como uma auxiliar no controle de qualidade, ia atrás de minha mãe, retirando pedacinhos ao acaso para prová-los, de preferência sem que elas duas se dessem conta do “teste”. Assim, aprendemos quem cozinha nas casas, quem detém o controle dos cardápios (mamãe por que você não faz berinjela? seu pai não gosta), as razões por que temos ou não alguns pratos (vamos levar iogurte? é muito caro, filho!) e ingredientes em nossas mesas (o quê é isso, vó? alcachofra!, é bom? sei não, vovó nunca comeu isso, nem sei como faz!).

Kambani Ramano, Unsplash

De repente, viramos adolescentes, jovens adultos, vamos para outras cidades, república, outras casas, outras experiências gastronômicas e outros conhecimentos – aquecimento global, sofrimento dos animais e tantas outras coisas – e nosso paladar muda, sem perceber, ou percebendo mesmo. Desse modo, adentramos no terceiro eixo do nosso Letramento (outro termo usado também em Ciências) Gastronômico: observando, questionando, SABENDO. Sabendo de onde vem meu alimento, qual impacto sua produção causa no ambiente, nas relações trabalhistas, no mercado. Por que tem tanto açúcar no refrigerante? Por que tantos alimentos ultra-processados (sim! já sabemos o que isso significa!)? Por que tantos agrotóxicos na produção do que vai para a nossa mesa e que atrapalham nossa saúde?

E, assim, de garfada em garfada, com pedaços nem sempre macios, suculentos e saborosos, construímos uma autonomia gastronômica que se reflete no que colocamos em nosso carrinho de compras (ou sacola de feira?), no modo como preparamos nossas refeições (sobrou? vira marmita!), e em quem apoiamos na política (aquele candidato defende a agricultura familiar, horta urbana!). Se isso não for Alfabetização Gastronômica não sei o que poderia ser! E, sim, assim como temos analfabetos funcionais na questão da autonomia na compreensão da nossa língua, temos analfabetos gastronômicos, também chamados de pessoas com paladar “infantil”, justamente porque só sabem fazer “garranchos” nos seus pratos, infelizmente. Cabe a nós, educadores, ajudá-los nessa caminhada para uma autonomia nessa área.

Ainda nos vemos por aqui, espero.

* para saber mais sobre a carreira da Vera, clica AQUI (artigo Vida de Zoólogo)



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