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A arte de comer

Por: Bia Amorim

01/05/2019
A arte de comer

Avocado. Foto Glen Carrie via Unsplash

Acordei deixando o corpo escolher o horário. Feriados são bons dias para essa liberdade. Como já passava do horário que tradicionalmente eu acordo, o corpo estava com fome. A força que me move precisava de combustível, mas eu sabia exatamente o que queria. Tinha fome de abacate, limão e açúcar.

Comer é uma arte. Um quadro prazeroso que nos leva a viver. Pode ser bonito, ter texturas incríveis, aromas deliciosos e gostos instigantes. Tudo isso em apenas uma garfada. Já escrevi sobre o meu estômago mandar em mim (aqui). Mas tem dias que vai além. Como pela arte. Pelo prazer que a técnica, o estudo, o tempo, as experiências me deram.

O abacate não é apenas uma fruta pesada de uma árvore frondosa e grande. Ele é belíssimo. Tons de verde e até um degrade para o amarelo fazem parte da observação. As diferentes texturas da casca nem sempre lisinha, dependem do ponto de colheita e quanto tempo ficou esperando sua vontade. Muito verde, muita vontade de comer; muito puxando para crostinhas marrons, esqueceu na fruteira ou amadureceu rápido demais enrolado no jornal.

Abacate. Foto: @hermez777_rivera via Unsplash

A casca fininhaaaaaa, que dá para tirar como se fossem pelinhas do canto do dedo. Não dói. Ou então o truque da colher, que precisa ter uma boa borda para não estragar o formato. Eu vou abrindo o abacate como se fosse um Sonho de Valsa, aquele bombom antigo que a gente ou come por camadas ou destrói em um minuto. Amasso aquele verde todo, não para virar um purê, mas só para conseguir um pouco de cremosidade.

O limão colhi do pé que tem aqui em casa. Esta época do ano produz muito mais do que a gente consegue consumir. Mais caprichado que árvore de Natal, as bolinhas verdes e amarelas, todas cheias de melasma, que nem eu. Limão cravo né, não adianta achar que vai pro baile com o vestido mais bonito. Não é como o Taiti ou o Siciliano. O mais brasileiro de todos, o Cravo, anda como quer. Nem muito redondo na verdade, ele é todo desengonçado.

Mas de novo, a essência não é aquilo que a gente consegue ver de primeira. Então, ao cortar o limão ao meio, um amarelo alaranjado surge. O aroma? Ah, nossa, um incrível cítrico toma conta. Cheio, mas cheio mesmo de semente. Sem dó de querer se tornar popular. Tem semente de limão para dar limonada para todos. Eu vou colocar esse caldo ácido no abacate. Mas sempre acabo pensando o quanto gosto dele com torresmo. Meu cérebro acelera e na quarta marcha já pensa no almoço. Enquanto espreme o suco pela peneira, até o cheiro da panchetta eu consigo sentir. Corta para a realidade.

Terceiro e último ingrediente do prato. Açúcar. Batalhamos tanto por esta iguaria. Energia pura e simples e doce e que parece neve polvilhando o prato, Dinamarca em plena Ribeirão Preto. Olho para fora e o calor só aumenta com o sol quente. No prato, uma mistura de cores simples. Verde, branco e alguma coisa de amarelo brilhante e límpido nas bordas. Não misturo o açúcar para não perder o visual. Observo. Me alegro. Agradeço.

Neve. Foto Jessica Fadel via Unsplash

Vamos ao que interessa, usar o sentido do Paladar. Visão e Olfato já estão conectados e mandando informação para o cérebro, o Tato e a Audição desde o começo estavam trabalhando, mas as vezes a gente nem percebe. Ao colocar a colher na boca, Paladar nos carrega para dentro. E lá, neste lugar nenhum entre fechar os olhos enquanto mastiga e abrir e fazer hummmmm, é que mora a arte. Manifestamos o prazer entre todos os sentidos. Nos conectamos a natureza das coisas. Na função da química, no entendimento, sem consciência. Ou conscientes, realizamos mais uma emoção. Somos humanos enquanto comemos. Saboreamos uma batalha que está conectada a tudo o que somos.

Mesmo em um simples abacate amassado é possível se emocionar. Comer é uma arte.



Bia Amorim
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