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A cerveja que tinha

Por: Bia Amorim

28/10/2019
A cerveja que tinha

Cena 1

Saímos de férias em família. Aquela tradicional montagem de amigos, agregados, tudo junto, uma casa só. Mal cabem no carro as malas. Ficou para trás a caixa com 12 garrafas de 500 ml de cervejas selecionadas para cada dia de sol, refrescância, acidez, frutas amarelas, altas carbonatações para acompanhar o pescado, o bolinho, o petisco. DRAMA! Era a caixa ou o travesseiro que você confia. Era isso ou a toalha de banho, as roupas de cama, o pacote de café, os 37 carregadores de todos os tipos de maquinário que carregamos junto. O laptop para trabalhar um tiquinho no meio da semana não perde espaço. Você tá aí pensando que deixaria tudo para trás né. Pois é. Agora eu também.

A realidade foi outra ao procurar pelas ditas “artesanais” nos mercadinhos da prainha hypster. A cerveja que tinha não era nem mesmo das famosas, das grandonas. Sonhei com uma main stream geladinha, quase congeladinha, sem sentir nadinha. Não sei dar nome ao que vi. Uma cena trágica ou cômica de empresa que se basta apenas de letras jogadas em um papel colado em vidro. Puro malte agora virou gourmet. Concorda que saber as diferenças, de cada detalhe de um rótulo é imprescindível para dizer que entende da bebida? Marketing tá “comendo pelas beiradas” ao vender gato por lebre. Mas isso a gente já sabe.

Cena 2

Estava no empório todo especializado, o gentil sommelier e eu trocávamos aquele papo geek sobre o crescimento visível que a sour teve nesse último ano. Chegou o rapaz engravatado e disse “Oi cara, tudo bem? Prazer, Fulano. Queria sua ajuda para escolher uma cerveja, por gentileza. ” Todo educado e eu só olhando a cultura cervejeira ganhar espaço, pessoas não ligadas a este universo passando pelo buraco negro da ignorância sensorial. Uma busca, encontrar seu mais intenso prazer gastronômico em uma experiência incrível, inesquecível, inacreditável, quase cósmica. “Quero a mais TOP e mais BARATA”. Ele disse em alto e bom som.

Minha dúvida é se ele realmente quer que o atendente trace um perfil, entenda suas papilas, tudo isso em 30 segundos e barato é relativo para ele OU ele quer a mais ordinária e solta essa de “top” só para não ficar com qualquer tranqueira. Vou pela segunda impressão. A palavra TOP aliada a uma bebida artesanal, não poderia de maneira nenhuma pelas leis da gramática e da gastronomia, estarem na mesma frase. Mas tudo bem, porque isso faz parte dos processos. Se é gourmet, é topzera.

O final da cena é ele pegando uma lata, toda linda, baitaaaa rótulo caprichado, com descrição organizada, registro no MAPA direitinho. Os mais chegados do mercado sabem de longe de quem é aquela identidade. Uma fábrica de respeito. Já na estrada faz algum tempo. Consumidores felizes da marca, gente bebendo a cerveja e sabendo seu valor. Acontece que ele, o topezera, se decepcionou. Como eu na cena 1, só que ao contrário. Ele esperava pagar uma pechincha por uma bebida que não vai decepciona-lo. O amor custa caro.

Top e Barato se encontram em outra prateleira. Bom e Justo em outra. Mas tinha cerveja.

Cena 3

Tenho as vezes uma má impressão de determinadas “cervejas da casa”. Como acompanho de perto o mercado, sei que existem marcas que tem o mesmo respeito, tanto pela comida, quanto pela bebida. E isso facilita muito, a visão holística é necessária dentro de um bar ou um restaurante. Mas também percebo e muito que tem aproveitadores de onda. Surfistas sem pranchas.

Você chega no local, todo descolado. Olha o cardápio, seção bebidas..... cerveja. Estão lá as famosas, que você espera que estejam mesmo e a “cerveja Fulana” marca da casa, com sua IPA. Me lembra a época do “vinho da casa”, que vinham em jarras e eram servidos no pé da cozinha com aqueles garrafões enormeees de 5 litros, pesados pra dedéu. O preço de venda é uma média, nem lá e nem cá. Mas em geral é mais cá, de caro. Como vem em chope não vem com o rótulo mentiroso. Mas também não tem informação nenhuma em lugar nenhum. Negócio da China.

Toda IPA salva os paladares daqueles que não sentem um diacetil, off flavor que traz um sabor de pipoca de cinema. A maldição de quem bebe no trabalho é ser escravo de um DMS, de uma oxidação ou até mesmo nunca sentir um metálico bem óbvio. Que seja assim se o remédio amargo for esse.

A cerveja que tinha era isso, então me vê uma água com gás, gelo e limão fatiado por gentileza.

The end



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