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A comida além da mercadoria: um ode à natureza e à consciência

Por: Camilla Cristini

01/04/2020
A comida além da mercadoria: um ode à natureza e à consciência

Há alguns anos senti um incômodo muito grande ao comprar folhas de couve. Elas vinham embaladas num plástico, haviam recebido um rótulo de mercadoria e perdiam sua virtude mais genuína: a de ser uma simples verdura. Aquela sensação me fez compreender que a valiosa relação com a natureza que nos alimenta estava se apagando.

Durante a maior parte de nosso passado fomos caçadores-coletores. Foi só há cerca de 10 mil anos que alguns grupos humanos começaram a produzir alimentos ao invés de coletá-los, passando a domesticar e controlar os ciclos das plantas e dos animais selvagens.

O sociólogo Ariovaldo Franco propõe que foi neste período que a humanidade deixou de ser um elemento mais ou menos inofensivo da cadeia ecológica, na medida em que evoluía do ritmo meramente biológico para o ritmo econômico.

Essa transição envolveu mudanças significativas na estrutura e na organização das nossas sociedades, bem como na forma de lidar com o ambiente. A partir do cultivo da terra, do recém-adquirido fácil acesso ao alimento e da invenção de novas tecnologias como o forno e utensílios de cerâmica, surgiu a necessidade de se estabelecer um núcleo habitacional fixo e, disso, nasceram as aldeias e as cidades. Instaladas geralmente em áreas férteis e perto de rios, elas logo se tornaram centros administrativos de excedentes – essencialmente alimentares –, substituindo os escambos por relações comerciais mais complexas.

Mais recentemente, essa indústria tornou possível reinventar a cadeia alimentar humana e minimizar de um modo tão espetacular alguns problemas extremos como a fome. Mas isso veio acompanhado de efeitos colaterais sem precedentes. Primeiro foram as consequências ambientais, que, além de outras, incluem o desperdício, o empobrecimento do solo e a poluição da água e do ar. Depois vêm as consequências sociais, como o êxodo rural, a extinção de técnicas tradicionais e a obesidade; e, por fim, as consequências econômicas, com direito à crescente vulnerabilidade do pequeno produtor e uma concorrência tão intensa, que favorece a produtividade da máquina em detrimento da mão-de-obra do trabalhador rural. Uma outra problemática que não se encaixa em nenhuma das categorias anteriores, mas de alguma forma está contida em todas elas, é que nós raramente refletimos sobre as consequências de nossas escolhas.

Não podemos nos esquecer que, da propagação de sementes sintéticas até a geração de uma embalagem plástica própria para levar ao micro-ondas, todas as criações e processos dessa cadeia constituem o nosso compromisso com o mundo natural, assim como o seu futuro. Conforme nos ensina a ecologia, tudo está vinculado. Michael Pollan, jornalista e autor de O Dilema do Onívoro (Ed. Intrínseca), reforça a ideia dizendo que “diariamente, ao comermos, fazemos a natureza virar cultura, transformando o corpo do mundo nos nossos próprios corpos e mentes.”

Dou um passo atrás para dizer que toda essa evolução nos levou a olhar para o mundo como uma máquina. Tiramos a Terra do seu lugar como uma totalidade viva e fluida da qual participamos e a colocamos como algo a ser operado. Nos tornamos dominadores ao invés de assumirmos nosso lugar na engrenagem que faz tudo funcionar.

No contraponto, o filósofo Rosseau já elevava a natureza como figura fértil e maternal que sempre garantiu aos animais, incluindo o bicho homem, fartura e saciedade. Para ele, “quanto mais distantes da natureza, mais fracos e corrompidos nos tornamos”. Não faz sentido?

Por isso digo que, ao olhar para dentro e nos compreendermos como parte intrínseca da natureza, ganhamos consciência do todo. O mesmo vale para as nossas decisões alimentares – deixamos de ser turistas em um mundo cujos recursos utilizamos a bel prazer. Nos reconectarmos com a nossa essência humana e nos sentirmos parte dessa comunidade viva nos exclui do papel de meros consumidores diante de uma prateleira de mercado para nos transformar em protagonistas das nossas escolhas. Tem a ver com respeito e compreensão, ao invés de soberania e distância.

Aquela couve eu nunca mais comprei. Agora compro a do Joviano, um senhor simpático e generoso que transformou toda a sua produção do interior de São Paulo em orgânica. Visitei suas terras, colhi ao seu lado, entrei em sua casa, almocei junto de sua esposa Ana. Tudo isso me fez olhar para os meus atos, honrar a natureza e reatar a relação comigo mesma. Como diz o agricultor e escritor americano Wendell Berry, “uma parte significativa do prazer de comer está em ter uma consciência precisa das vidas e do mundo de onde provém a comida.”



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