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A frenesi do desencanto cervejeiro

Por: Bia Amorim

03/06/2018
A frenesi do desencanto cervejeiro

Foto Chuttersnap on Unsplash

Colecionar coisas tem sua magia. Parece que é natural do ser humano. Mesmo se você não quiser colecionar nada material, você coleciona histórias, pessoas, doenças, lugares que passou. Eu gosto de colecionar sabores, texturas, sensações que em um fugaz momento da mordida ou do gole, entremeiam minha mente e geram ali uma memória. Talvez por isso eu me encante tanto com novidades no mercado cervejeiro.

Aquela Russian Imperial Stout lançamento tem baunilha, cumaru e amburana tudo junto no barril de madeira de Bourbon americano por 6 meses. Parece um pleonasmo dentro de um lopping sem fim de sabores parecidos. Quero. Trend no Sul do país: Catharina Sour, base de Berliner Weisse, com frutas nativas brasileiras e um gole a mais de álcool. Lata, garrafa, growler ou o que conseguir. Quero. Uma Pilsner perfeita, com lagering levado a sério, leveduras importadas diretamente de terras geladas europeias. Quero. Amadas IPA´s que ganharam roupagem moderna. Técnicas de lupulagem diretamente da Califórnia e apelidos americanos que nos fazem salivar. Quero.

Mas, qual o preço do frenesi? Não importa se é no mundo da moda. Se é um carro moderno ou um celular que fala com você. Novidade custa. Marcas famosas são caras. Design vende. Publicidade chama atenção. Tecnologia é onerosa. Matéria prima de qualidade precisa de bufunfa. Subimos montanhas para provar um sabor novo. Ficamos na fila para comprar uma garrafa novidade. Fazemos buscas na deepweb por um mito cervejeiro. Trazemos na mala famosidades impossíveis de importação. Viajamos para beber na fonte frescores alegóricos. E eu pergunto aqui: sempre vale a pena?

Todo gole vale a pena, se a oxidação é pequena.

Você pagou aquela “bica” pela lata que está em todos os Instagrans Influencers Beer Snobes do planeta. Com o que gastou poderia tomar 4 Dogmas. Prepara o ritual. Confere a temperatura na geladeira. Lava cuidadosamente com água quente a taça que tirou da cristaleira, aquela coleção cara que comprou via whatsapp. Nem passa perfume para não atrapalhar os aromas de Cascade. Chama só aquela amizade que valoriza seu investimento. Prepara a câmera. Desfoca o fundo. Tudo pronto. Aquele barulhinho que até uma Brahma faz. Aquele barulhinho maravilhoso de que você venceu na vida. Saliva. Sobe o cheiro. Uma gota de suor quase cai na taça e transforma tudo em Gose. A taça, sem nenhuma bolinha “tipo refri” turva. Juicy. Refreshing. Expensive. Mother Fucker IPA. Que alegria. Você naquele momento acredita que fez um investimento importante. Vai ter uma história de pescador para contar aos amigos quando estiver bebendo um chope no bar. Cada gole fresco vai ser um pedaço da história junto com aquela tenção do suspense. Vai descrever sensorialmente para os amigos cada nota do Centennial, Super Galena. Surpreendidos pelo Denali, você diria que nunca nada foi tão aromático como aquela experiência que viveu, bem ali sentado no sofá da sua própria sala.

Na vida real, abriu a latinha, gushing. Tortura. Pensou que poderia ter chacoalhado ela da geladeira até o sofá. Vou ter que limpar essa bagunça depois, pensa. Coloca no copo. Turva esquisito. Uma gota de suor cai no copo engordurado. O aroma de isovalérico empesteia o ambiente. O DMS contamina suas papilas. Sua cerveja high mega blaster estava em péssimas condições. Que decepção. Na hora o pensamento de quantos chopes você abriu mão naquele mês por apenas 1 lata. Olha para o lado e tem vergonha da pessoa que mesmo não sabendo nada de cerveja viu que algo de errado estava acontecendo. O que fazer neste momento?

O desencanto do frenesi cervejeiro não tem limites. Ele acontece muito mais do que imaginamos. Ele acontece o tempo inteiro. Da cerveja mais barata que bebemos, as cervejas mais caras. Da cerveja caseira do homebrew estudioso até as mais tecnológicas cervejarias. Um produto vivo ou pasteurizado, as cervejas são parte de um mundo que se transforma conforme escolhas ou acontecimentos. Contaminações de uma fábrica ou uma chopeira mal higienizada. Um container preso em Santos ou uma mala cheia de pontes aéreas. Matéria prima importada e velha ou apenas leveduras cansadas ou apenas uma receita ruim mesmo.

Estamos à mercê de histórias e experiências com goles longos ou curtos. Deliciosos e péssimos. A verdade é que tudo vira história de bar. A melhor cerveja nem sempre é aquela que você está bebendo no momento, as vezes ela é somente uma lembrança de um dia interessante e cheio de vivencias. Coleciono até gostos ruins.



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