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A história da capa

Por: Bia Amorim

12/12/2019
A história da capa

Apesar de adorar as duas primeiras capas da Farofa, eu nunca quis escrever um texto sobre elas. Mas nesta terceira temporada tanta coisa aconteceu, que o texto foi surgindo dentro de mim com vontade própria. Escrever era uma necessidade muito maior do que explicar o contexto em si. Algumas histórias pedem para serem contadas e essa é uma delas.

Primeira edição

A Fran chegou contando para mim e para a Lilly que tinha achado uma “personagem”, que é como os jornalistas chamam as pessoas que participam das matérias. Dona Áurea é uma senhora de vida simples, com uma família de ouro. O cozido dela é famoso e vem de outras gerações a fama. Aprendeu a fazer e compartilha com a família os sabores de uma linhagem de receitas, coisa que quase não se vê mais hoje em dia. Como todo prato caprichado, que tem uma construção dos sabores, as coisas começam a ser preparadas no dia anterior. Pica, corta, separa, tempera. Isso é sábado, feira e organização. O almoço é o tradicional em família.

Dona Áurea, técnica e tradição no Cozido. Foto: Rafael Almeida

No domingo conforme combinado estávamos à porta da casa da Dona Àurea, ali na Av. Antônio e Helena Zerrener na cidade de Ribeirão Preto, estado de São Paulo. Um bairro onde um monte de casinhas estão lado a lado. Cheiro de cebola e alho trocando apenas de endereço. O Rafa de cara viu que a blusa daquela senhora tão simpática não ia ficar tão legal na foto. Ela rapidinho trocou por uma mais simples, que tinha à mão, vermelha. Junto da sua colher de pau, ela ia mexendo e olhando e destampando panelas enquanto o Rafa arrumava o ISO, diafragma e velocidade, a receita de uma boa foto.

Família da Áurea. Felizes, juntos, alimentados e amados. Foto: Rafael Almeida

Inacreditável era como as panelas eram bem limpas. Tudo lavadinho, tão organizado! Dona Àurea tinha tudo sob controle, uma pessoa que alimenta sua família, que cozinha todos os dias, que sabe de cor e salteado o que cada um gosta ou desgosta. O ponto do bife, o caldo do feijão, o arroz por cima ou por baixo. “Dona Áurea, arruma o pano de prato no ombro.”, pediu o Rafa. Ela aproveita para provar o caldo. Está quase na hora das visitas chegarem. “Dona Áurea, sorri. Um pouco menos. Aproveita que provou e traz a colher mais para perto. Isso. Agora Dona Áurea, a senhora dá aquelaaaa piscadinha”.

O Rafa é dessas pessoas pura simpatia. Não tem agenda para tanta gente que gosta dele e do trabalho que ele faz. Mas ele é teimoso. Chato com o seu resultado. E percebi que a foto de capa da primeira edição da Farofa mexeu comigo. Aquela senhora piscou para mim e milhares de pessoas. Mostrando que a cozinha afetiva é especial, cria laços. O texto da Fran contou bem essas histórias.

Segunda edição

O tema era uma homenagem ao meu filho, que foi uma criança com gosto difícil. Capricorniano que não arredava o pé, independente da abordagem. No fim, ele cedeu a cozinha afetiva, vejam só vocês. Mas ainda assim, o fato dele ter uma rusga com a gastronomia me entristeceu durante muito tempo. Escolhemos trabalhar esse tema por que muitas mães passam por isso todos os dias. As caras feias são uma caricatura de quem come algo que não gosta: azedo, amargo demais ou apenas diferente do que se espera.

A mãe (Gislene), o prato, a espera de um milagre. Foto: Rafael Almeida

Arroz, feijão, carninha, cenoura e beterraba faziam parte do colorido prato que esperava pelo Caio em cima da mesa posta no sábado quase meio-dia. Desta vez a Fran tinha compromisso e não foi junto. Seguimos eu e o Rafa para algum bairro da cidade onde o menino personagem da matéria esperava por nós junto com sua mãe. A primeira dificuldade foi tirar ele da cama e do pijama. Acho que aquele menino muito esperto pressentiu algo. Ele com seus 5 anos de idade já tinha percebido que algo estava diferente.

Passado o drama que todos os pais de crianças pequenas sabem que existe, lá estava Caio sentado feliz e brincando com o garfo, sorridente, esperando seu prato único e predileto. Enquanto isso, Rafa ajustava sua receita medindo a luz, prevendo os movimentos e pensando no enquadramento. Eu só conversava com a mãe dizendo que sabia que era difícil, pois em outros tempos havia passado por isso também. “Isso passa, mas não desista. ” Eu disse enquanto olhava a cena. A janela, a coifa, o talher. Aquele meme da Nazaré passando na cabeça de quem ia registrar as próximas cenas.

“Pode trazer o pratinho dele mãe.”

Tentativa falha de risada. Caio e eu. Foto: Rafael Almeida 

Terror, gritaria, chorôrô. São as cenas que acontecem quando uma criança vê comida saudável no prato. Tira, coloca. Respira. A gente tava mesmo no clima de almoço, tentando não estar ali. “Caio, experimenta, é gostoso, bla bla bla, comer comer, comer comer, é o melhor para poder crescer” (repete, refrão).

Meu coração apertou e estava na verdade mais preocupada com a moça, tão aflita quanto eu, cada uma com seu filho, o meu na memória. Ok, Ok, OK, temos a foto. Essas coisas têm que ser mais rápidas e não tem aquela de “agora dá uma piscadinha”, não funciona assim. É documental, o momento estava ali e era real. Todo mundo feliz. Fomos embora e deixamos o Caio e a família almoçarem no ritmo deles. O menino como disse, é sagaz, danado de paladar.

Sorriso com sucesso. O simpático e alegre Caio. Foto: Rafael Almeida

Terceira Edição

A cor da revista sempre muda. Essa questão já veio no pacote da designer Thais Navarro, mãe dos formatos que a revista tem. A terceira ia ser laranja, daí repensamos e ficou verde. Funciona um pouco livre, um pouco solto, mas sempre tentando trazer harmonia. O difícil desta edição seria conseguir agenda com o Rafa, nosso fotógrafo. Ele nos abandonou. Foi fotografar em outros cliques, bem longe no Canadá. Mas vindo ao Brasil pelo menos 1 vez ao ano, quem sabe tudo daria jeito?

A ideia de falar sobre o fotografar surgiu de uma conversa sobre coisas Instagramáveis. O tema fotografia + comida + likes + comentários + saliva na tela + estética + relacionamento ++++ muito assunto pode ser tirado desta mistura. Surgiu o tema, começamos a pensar nas coisas. É como fazer pão. Sova, sova, espera, fermenta, dobra, dobra, espera, fermenta. A coisa ganha vida e começa a acontecer. O Rafa então sugeriu para a Fran “E se a gente fizesse uma releitura do quadro do Rembrandt?”.

A Lição de Anatomia do Dr. Tulp. Rembrandt 1632. Holanda.

É um momento para se guardar. Depois de uma senhoura e um rapazito, fazer um quadro escuro do Rembrandt, com 8 homens e um cadáver na mesa era algo meio impactante. Massss, como não amar a ideia, o quadro, o que ele diz, os tons, a mensagem? Topamos na hora. Como a gente ia fazer? Sabe trocar o pneu enquanto o carro anda? Virou isso. Apaixonados pela imaginação, seguimos a espera de uma conexão Brasil/Canadá. Quando aconteceu, tudo deu errado e não tinha dia ou encontro possível entre todos nós.

Luto. Tínhamos morrido com a ideia quentinha, acontece. Mas pensamos em outra saída, falamos com outras pessoas. Mandamos mensagem para o Rafa para saber o que ele achava, seguimos com a benção do nosso padrinho fotógrafo. Parecia que tudo ia dar certo. Dia marcado, produção quase pensada, equipamento todo acertado. Quase no dia, desmarcamos. Não ia dar tempo, o cenário precisava ser de outro jeito. Não sentimos que ia funcionar. Desgosto.

Um certo dia a Fran me liga. “Ows, vamos falar com o pessoal do Grupo Luz?” As vezes sonhar alto não é demais e lá fomos nós, com a cara e a coragem. A empatia foi tanta que saímos da reunião com data marcada. Pouco depois recebemos um e-mail, mais organizado impossível. Cada item detalhado. Cada rosto, cada detalhe. Fomos ticando item por item: bíblia grande, ok. Macarrão, ok. Mesa madeira, ok. Roupas pretas, ok. 8 modelOs. Não okey, tá olkey?

Equipe Grupo Luz, ajeitando, a Luz =)

No quadro que foi pintado em 1632, por um cara, onde a lição de anatomia é ensinada por outro cara, para outros 7....acertou, homens, acertou, brancos, acertou elite, encomendados, sim, também por homens. Não, não e não tá ok. Uma revista que tem em seu quadro societário 3 mulheres e tantas muitas outras pessoas participando, não poderíamos na terceira edição ter uma capa dessa. Somos tão diferentes do século XVII, com orgulho evoluímos, avançamos. A ideia quase foi por água abaixo de novo, só que não.

Ligamos para amigos, diferentes, maravilhosos, tão nós, tão eles, tão 2020. Diversidade importa sim. 

A matéria que a Fran escreveu em cima do tema “instagramáveis” não tinha nada a ver com estética, nem com luta de gênero, raça, classe ou religião. Mas a mensagem pode ser passada com arte? Pode. Podemos imprimir um conceito novo e fazer uma releitura com muito mais empatia. Todo o mundo come. Todo mundo bebe.  Nossa sina para sobreviver. Todo mundo tem a mesma questão para viver.

Em uma terça-feira pós almoço estávamos todos lá no estúdio da família Luz. Inclusive o Luís, que é um maquiador que conheço faz algum tempo, mas não sabia que era tão entendido de arte. No dia que perguntei por perguntar, como “funcionaria” para ele fazer uma foto de capa, com um tema meio complicado, luz e tals. Ele me deu uma aula sobre o Barroco.

Somente o necessário em cena

Tinha chegado cedo para organizar a parte de produção.

* A Cris me disse que precisava do prato de macarrão (a representação dos tendões do cadáver) e a Fran já tinha encomendado com o Gabriel, nosso amigo e cliente do O Pastifício, bom demais para apenas uma foto;

* Uma garrafa de vinho (sangue);

* Tinha levado de casa uma garrafa de hidromel que ganhei dos amigos de Porto Alegre, na Seasons (primeira bebida alcóolica do mundo);

* Fui até o verdureiro e comecei a pensar, o que mais poderia produzir um cenário, onde originalmente era um corpo? Quais as mensagens que a gente passa, de forma mais estética e até subliminar?

* A alface veio porque a gente com essa história de likes é meio cabeçuda demais;

* Cebola e alho porque são a base de uma boa comida, reconhecemos o cheiro de longe, significa algo meio caseiro. A cebola, aquele monte de camadas. O alho, aqueles montes de dentes;

* Olhei a melancia e só pensava em como a gente quer chamar a atenção nas mídias sociais (me incluo);

* A maçã veio por ser a referência de primeiro alimento na Bíblia;

* A rosa branca é a beleza e a pureza, a estética hoje tão coloca na comida.

Mesa posta. Cadê os personagens? Foto: Bia Amorim

Mas e os tomatinhos, me perguntaram. Poxa, acho lindo quando eles vêm no cachinho, não teve motivo nenhum ;)

(Felipe, Leonardo e Fred. Todos instagramando?). Foto: Bia Amorim

O quadro é um convite para uma aula de dissecação. A revista também, um convite para conhecer mais sobre a gastronomia, seus segredos, seus sabores, seus saberes e suas pessoas. Tudo escuro. Ninguém se mexe. "Lucas, ajeita a luz". Foram horas produzindo e clicando. O Leo, fotógrafo do estúdio Luz, ama o quadro do Rembrandt. Estudou os movimentos, os olhares, as perspectivas. Espelhou a imagem e nos dirigiu a cena. Foi uma baita aula.

O Hugo Battaglion em primeiro no plano, também é fotógrafo. Sabe brincar de estátua. Quem se destacou no olhar hipnotizado foi o Fred Banionis, um homebrew que fez papel de chef, ao invés de Dr. Tulp. Ele simplesmente não se movia, como a pintura. Os dedos tatuados, algo impossível de um cirurgião ter naquela época e quem sabe até hoje. Talvez a pinça seja a única conexão verdadeira com os itens de mesa nas duas obras. A Marisa Watanabe é publicitária, não poderia perder a foto do que está rolando. O registro é esse momento.

Sim, estamos todos com o celular na mão, observando o observável. Encaixada na parte de cima estou eu, por pura falta de opção de figurante. Daí ao meu lado o Leonardo Salvador, como o nome já diz, um ícone. Logo embaixo a Thais Navarro, que citei acima no texto, mãe do nosso design, de óculos e com os cabelos curtíssimos e poucos, por conta de um tratamento feito (com sucesso!!). Na selfie inusitada, nossa editora Fran, contradizendo seu Instagram. Ao lado, o rapaz que segura a folha com métricas de social media, é o Felipe Micheli. Não podemos assegurar que ele não seja o mesmo rapaz da pintura. Ficamos meio perplexos, como você quando for checar.

Equipe de amigos fazendo pose para serem fotografados e arrasar na capa da terceira edição. Foto: Grupo Luz

E assim se fez a capa da Farofa Magazine #3.

Com uma história que vou contar para sempre, com orgulho, com amor e com boas risadas e lembranças, sem esquecer que nem tudo acontece em um piscar de olhos, estralar de dedos. Acontece com boa vontade, muitas e muitas pessoas e dedicação. No papel a foto ficou linda. Um quadro que vamos pendurar e que as pessoas chegam a confundir a arte com a foto e a foto sendo arte.

Óleo sobre tela de Rembrandt, “Lição de Anatomia do Dr. Tulp” (1632) é considerada uma verdadeira obra-prima. Mas a Farofa Magazine tem sua própria releitura para a gastronomia dos tempos atuais. 

Capa terceira edição. Diagramação: Frederico Petean (Mandarina) 

Todas as revistas estão disponíveis gratuitamente em PDF aqui no site da Farofa: 

https://www.farofamagazine.com.br/edicoes-anteriores



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