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A primeira mulher cervejeira e feminista

Por: Bia Amorim

07/03/2021
A primeira mulher cervejeira e feminista

Nunca saberemos quem foi a primeira mulher cervejeira, pois, como a cerveja não foi inventada, foi descoberta, não há registros. Além do mais, estamos falando de uma bebida que nos acompanha como sociedade muito antes de existir refrigeração, energia elétrica, vidro, moeda, roda, escrita, religião e até talvez preconceitos. Não importa saber quem foi a primeira mulher, agora, depois de 10.000 anos. Importa honrar que as mulheres foram as responsáveis por colher os grãos e os levarem a cozinha. Respeita as mina.

Foram muitas as deusas femininas da antiguidade relacionadas a agricultura, fertilidade, colheita e cerveja. Em geral citamos Ninkasi, deusa suméria, mas também poderíamos falar sobre Mayahuel, deusa asteca e Mbaba Mwana Waresa, deusa africana. Foram muitas as bruxas medievais, queimadas em suas fogueiras com caldeirões de bebidas e poções. Foram muitas as mulheres deixadas de lado pela Industrialização e com leis que restringiam a fabricação da cerveja em casa, na cozinha, lugar onde nos deixaram.

A natureza tornou possível uma mistura simples: um mingau (misturando grãos diversos com água), com um “punhado” de microrganismos do ar, no seu tempo, e . Isso alimentaria a família, por meio das mãos femininas e assim, naturalmente, fermentava e até embriagava o mundo todo.

As primeiras mulheres cervejeiras talvez não precisassem ser feministas pois a cerveja não era uma disputa, a vida não era desiquilibrada e o desejo de poder e dinheiro ainda não tinham nos envenenado. Não tem como saber. O mundo passa por ciclos e vamos sempre batalhando contra as maldades que nós mesmos criamos e alimentamos.

Neste ano de 2021, tudo que posso fazer é olhar ao meu redor e falar sobre o meu recorte de tempo. E com essa liberdade conquistada, olho e me orgulho, transbordo felicidade. E como continuo estudando e lendo e aprendendo sobre o que já foi feito para que eu pudesse me sentir assim, continuo desperta sem sonhar muito longe.

Eu tenho expectativas profissionais, além dos trabalhos da casa e da maternidade. Talvez pela minha criação, entre mulheres fortes e feministas eu nunca tenha tido medo do trabalho, até trabalhar. Não entendia que os degraus para quem “usa saia”, seriam mais altos. No século XX “a mulher de renome era sempre aristocrata”, já as que não tinham nomes e se deixaram xingar, conquistaram tanto, rasgaram tantos paradigmas que viramos o século vitoriosas. Mas é preciso lembrar que o século XXI é traiçoeiro, pois faz parecer que as mulheres já “chegaram lá”. Não chegamos nesse tal de lá, por que ainda não demos o passo fundamental, de não termos mais mulheres em situações de risco. Como ainda existem, somos prisioneiras do gênero.

Penso que é necessário entender que as mulheres ~ apesar de grandes e magníficos exemplos de conquistas nos sejam dados ~ não podem relaxar no sentido de pensar que todo mundo tem escolhas e pode faze-las. As leituras provocantes, de mulheres fortes e olhos bem abertos, abrem cada dia mais essa linha de pensamento. Brindamos o sucesso de algumas e devemos brindar cada conquista de liberdade, o mais difícil é manter dentro da gente a chama acessa para entender que o coletivo precisa de nós.

Quando estava lendo, esses dias, um pequeno livreto: “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”, um compilado com ensaios de Virginia Woolf, fiquei pensando sobre o mercado cervejeiro e as profissões do nicho e a forma como as mulheres tem navegado nesses mares. Como eu disse, só posso olhar do meu recorte. Uma mulher feminista no mercado cervejeiro para mim, são todas as mulheres que estão apenas reivindicando um lugar que sempre foi seu, o respeito e o direito de fazer cerveja, falar de cerveja, vender cerveja sem parecer que estamos fazendo política ou pedindo permissão. Apenas um ofício que tem um propósito e nos deixa feliz.

Engraçado que sempre que digo que trabalho com cerveja as pessoas acham que eu sou uma mestre cervejeira. Me sinto lisonjeada, fazer cerveja é muito mais difícil do que o meu trabalho. Fazer cerveja é pesado, é matemática, é química e no fundo é gastronomia também. Nos últimos anos a cultura cervejeira, vem sendo falada e divulgada, tentamos agregar valor em um produto artesanal, com qualidade superior em técnica, insumo, criatividade e experiência sensorial. Falo com todo tipo de gente e passei por muitas cidades no Brasil a trabalho. Quase sempre em círculos mais amplos, os homens acham “interessante uma mulher falando sobre cerveja”, como se fosse exótico o fato de não estarmos apenas estampando um pôster na parede, em uma foto com decote e um copo de cerveja light lager gelada. É olhar o passado no presente. Pra mim, exótico é ver como os pensamentos estão atrasados. Mas é triste, seria cômico, mas é triste.

Quando eu comecei no mercado cervejeiro, logo conheci mulheres muito incríveis. Tinham as cervejeiras que eram nossas professoras, tinham as biólogas que já estudavam leveduras, tinham as sommelières que já serviam em taças altas de cristal e falavam com o povo. Eu já tive os exemplos necessários que precisava para me sentir em um lugar acolhedor, no sentido de mercado. Eu trabalhava no setor de vinhos, um mercado mais taxado de masculino que a cerveja. Me senti em casa quando cheguei, tirei o salto, ajustei meu All Star. Depois, ao longo dessa jornada, conheci ainda mais mulheres, mais feministas, mais meninas, mais profissionais. Todas pessoas que tem suas próprias batalhas pessoais e ainda essa com a cerveja no âmbito profissional.

Venho escrevendo sobre cervejas artesanais e creio que atualmente é impossível fazer uma lista de mulheres espetaculares que estão dando os primeiros passos na carreira ou já estão na luta, enfrentando dragões e barbões para mostrar que tem potência, competência e eficiência! Existem as mulheres que tem seus pequenos negócios, mulheres que tem grandes negócios, estamos cada uma de nós em algum momento da história. Não existe então apenas uma mulher cervejeira que possa nos representar, pois como dizem “toda unanimidade é burra” e o que este século está colocando na mesa, como evolução, inclusive dentro das potências femininas, na minha leitura, é: a diversidade nos liberta.

Por isso não tem uma “cerveja de mulher” que nos sirva, pois meu paladar não pertence a um patriarcado velho e caduco. A primeira mulher cervejeira e feminista é sempre aquela que abre uma cerveja e bebe o que quer, onde quer e com quem quiser. Sejamos conscientes, sejamos cada vez mais interessadas em nos aprofundar nos discursos necessários. Vamos trazer o debate para perto, entender que podemos como mulheres, ajudar outras mulheres, no simples fato de beber melhor, beber menos, beber com respeito e beber com sabedoria. Existe uma batalha importante para libertar outras mulheres, onde o álcool é também um vilão. Tem muito que mudar, ainda que as coisas estejam melhorando. Mais sabor, menos dor. Aí brindaremos todas juntas.

Saúde!

Outros artigos que falo sobre o tema:

Matérias que já trouxemos aqui:

*Dedico esse texto hoje para uma nova mulher que chegou em nossas vidas, a Nina <3, seja bem vinda meu amor, estamos aqui lutando! heart



Bia Amorim
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