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A sommelière que habita em mim

Por: Bia Amorim

20/07/2020
A sommelière que habita em mim

Antigo Estúdio Kaiser. Foto: Rafael Almeida 

Talvez seja destino.

A cada nova cerveja que eu bebo, neste estreito recorte cervejeiro que eu vivo, eu me felicito em estar sommelier.

Mas não é sobre o beber em si. Não é sobre o que o álcool também causa em mim. Abandonei a ideia de que era pelo prazer apenas de me sentir livre e solta. Me apeguei ao fato de que existe contexto. Que existe história. Que existe mudança. Que evoluiu de um ponto inicial ao ponto que estou agora. Que é possível descobrir coisas novas todos os dias, sem nem sequer beber uma gota. Posso não descobrir nada de novo com um litro inteiro, ou descobrir tudo em 473 ml.

A sommelière que habita em mim está em constante curiosidade pelo prazer das diversas estruturas criadas ao longo dos séculos, forjadas em fermentação, suor e impostos.  Aromas mais voláteis que minha vontade de lavar louça. Compostos mais organizados que minhas festas. Mais receptores que minha faculdade de hotelaria. Cadeias de carbono mais conectadas que eu ao meu instagram gourmet.

A experiência tridimensional as vezes parece pouco e quero buscar mais do que apenas sabor ou essas sensações. Dentro de mim, mais do que beber a cerveja, eu procuro entende-la. Essa é a minha diferença perante a antiga sommelier que me habitava. Estamos nos formatando etapa a etapa, camada a camada. Mais complexa que uma molécula verdadeira no meio de tantas fakenews possíveis.

Quero respeitar todo o DNA que corre a milênios em mim, mas dizer aos códigos antigos que o azedo de agora é dócil. Que o amargor de hoje em dia é controlado. Que o açúcar não é a única opção e que delicadeza é uma riqueza sem tamanho e difícil de compreender.

Estou mais maturada que uma cerveja no século passado. Com pensamentos mais frescos que uma american qualquer coisa ipa. Olhando para a jornada das pessoas que construíram esse lugar onde apoiamos nossos copos limpos. E lançando o olhar crítico que ganhamos com o caminho que elas percorreram.

A sommelière que habita em mim saúda a pessoa que aprecia cerveja que habita em você.

Brindemos à vida e ao respeito que os rituais têm para cada cultura.

Ouvindo:Low Mist Var. 2 - Day 6 - Ludovico Einaudi

Bebendo: Sassafrás e Café - Coffee Baltic Porter (com chips de sassafrás) 7,5% Cervejaria Zalaz 



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