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Feliz paladar novo

Por: Startup Brewing

04/01/2021
Feliz paladar novo

Bordeaux, Frankreich, foto: Tim Hüfner via Unsplash

Por: Bia Amorim

As leis do estômago, em contato com o mundo exterior, fizeram novas descobertas. A cada ano nos tornamos mais exigentes com o que comemos e bebemos e muita gente pode achar que é chatice, mas nosso paladar evolui. As leis sólidas, líquidas, gasosas, cremosas e crocantes são colocadas à mesa e estão nos constituindo conforme nos alimentamos.

O que mudou no seu paladar, já refletiu sobre isso? Quais coisas são as memórias afetivas em seu perfil  sensorial gastronômico? E ainda, o que você gosta de comer e beber hoje, será o mesmo daqui a 10 anos?

O prazer da mesa é a sensação que advém de várias circunstâncias, fatos, lugares, coisas e pessoas que acompanham a refeição. É um prazer peculiar à espécie humana (...). O prazer da mesa pode, como diria Brillat-Savarin, prepara-nos para outros prazeres e também nos consolar ou compensar sua perda. ” Conta Ariovaldo Franco no livro De caçador a gourmet, uma história da gastronomia.

Então se em 2020 você ficou mais em casa, comeu e bebeu diferente do que tinha como rotina nos outros anos de vida, seu paladar mudou.

Se você cozinhou e aprendeu coisas novas com os vídeos da internet (eu amo ver confeitaria japonesa!) e até se aventurou em tentar entender como as coisas são complexas para ficarem gostosas, seu paladar não é mais o mesmo. Até se você seguiu à risca uma receita da Rita Lobo, seu palato não é mais igual.

Quer dizer, ele é, mas mudou de fase. Ficamos mais rigorosos. Em geral somos chamados de “pessoas frescas”. Vai dizer que não fez nenhum pão? E  nem ouviu o burburinho com aquele doce chique de banana, o Banoffe? Muita coisa aconteceu no último ano. E podemos olhar isso como uma transformação.

O gosto, que muitos acreditam ser próprio, é uma constelação de extrema complexidade na qual entram em jogo, além da identidade idiossincrática, fatores como: sexo, idade, nacionalidade, religião, grau de instrução, nível de renda, classe e origem sociais. ” Ariovaldo Franco

Faz alguns anos mudei minha cultura e ritual com café. Estudo, leio, ouço podcast, assino clubes, leio os rótulos, brinco com os métodos, escaldo o filtro, meço as temperaturas, escolho a granulometria da moagem. Tudo isso para “apenas” tomar um bom café. Eu gosto da cerimônia de fazer o café. E isso, me fez parar de tomar muitos cafés. Os outros cafés. Claro que não nego um café com abraço, com açúcar, com torra escuraaaaaaa, se vier no aconchego das mãos de alguém com largo sorriso no rosto. Assim é também com a cerveja. Mas café é lazer para mim.

Faz uma década que transformei meu paladar com a cerveja. Estudo, trabalho, leio, leio, ouço, ouço, falo, falo. Estudo mais. Descubro coisas novas e empolgantes. Provo cervejas espetaculares, provo cervejas medíocres, bebo boas cervejas, bebo cervejas ruins. E vou ao longo do tempo talhando os sentidos do prazer de beber. Gosto sim de coisas simples. O simples é complexo.

Passamos neste momento pela Covid-19 e um dos sintomas é chamado de anosmia, que é a perda do olfato e paladar. Perder esses sentidos é assustador pois balizam e contribuem com muitos fatores em nossas vidas. Imagina transformar os sabores que você sente prazer? O que era antes um bife suculento e saboroso, pode mudar para um sabor de gasolina.

No ano passado degustei muitas e muitas novas cervejas, só de IPA foram pelo menos 33 diferentes rótulos da Startup Brewing. Interessante como aprendi a observar o destaque do lúpulo, permitindo meu paladar sair do papinho “é tudo igual.” De fato é tudo igual em algumas camadas do que o produto é. Uma cerveja. Uma ale. Uma categoria de IPA. Tudo igual. Mas escavar os sabores, com tempo, degustando e apreciando a vista na descida entre as texturas, encontros, blends e afins, é interessante demais. E por isso não poderia concordar mais com Savarin, aprendemos novos prazeres, e estes estão além de algumas etiquetas que colocamos nas coisas.

“O gosto é, portanto, moldado culturalmente e socialmente controlado. ” Ariovaldo Franco

Meu paladar é também político pois tenho cada vez mais tentado entender que meu consumo são escolhas que estão ligadas a #deliciosidade das coisas, mas também o conceito/cultura por trás daquela construção de sabores, de texturas, de imagens e o que comunica. Fazer um bom produto (falei sobre o conceito de “bom” aqui) pode ser simples, mas fazer com verdade é bastante complicado.

Feliz paladar novo e boas cervejas em 2021 com brindes e saúde!



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