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Filosofia de rodízio

Por: Fran Micheli

22/11/2019
Filosofia de rodízio

Sei que existe uma hierarquia dentro de uma churrascaria do tipo rodízio. Dizem que pra passar a picanha é preciso muito arroz com feijão. E que é importante começar pelo simples, pelo brejeiro pão de alho. Quiçá pela muçarela. Trainee de rodízio tem que ralar muito na meritocracia.

Em meio ao ecossistema peculiar da churrascaria, tento falar com meu namorado sobre as amenidades do dia. Aquelas que ou mantém dois indivíduos interessados um no outro, ou que jogam uma pá de cal diária no sentimento.

- Mas você não acha que o Bolsonaro
- Javali, senhor?
- Que o Bolsonaro é um demôn
- Contrafilé argentino, moça?
- Ah eu quero sim.
- Amor, e lá na empresa, como andam as coi
- Salmão grelhado, casal?
- Não, não, obrigada
- Tá tudo tranquilo amor, ontem deu um proble
- Picanha?
- Putz manda essa parte com mais sangue aqui
- Pra mim a parte que muge menos *risos*
- Que horas será que vai passar a banana?
- Amor, você vem na churrascaria só por causa de banana empanada?
- Óbvio que s
- Linguicinha e coração?
- Não, grata
- Toda vez ce põe camisa branca pra ir em rodízio? Haja Omo Multia
- Banana empanada, moço?
- Não, é pra mim, põe aqui umas duzentas e vinte e cin
- Amor, manera
- Me deixa caramba, é sábado
- Bebida senhora?
- Coca light com gelo

O balé sensorial continua em ritmo crescente, como uma sinfonia no inferno. Talheres que tilintam cada vez mais alto, o Jornal Nacional nas alturas na televisãozinha dependurada sobre a pista de frios, o sangue que furtivamente insiste em lamber meu cabelo toda hora que o garçom se mete entre nós dois como um problema conjugal. 

- Picanha com alho, senhora.

Fecho o olho, respiro curto e espero a maldição ir embora. Eu tenho pavor de alho. De coisas com alho. Impregnou minha alma de conde drácula esse cheiro. Ossos do ofício. “Vai um pãozin de alho aí amor?” risos. 

Porque um casal que entra junto numa churrascaria nunca vai ser um simples casal. Tornam-se cúmplices de um crime. Testemunhas oculares do que há de mais controverso na alimentação humana. 

Penso toda vez: como é que eles lidam com o desperdício desse tanto de comida? Será que o passador das carnes tem tendinite? Imagina limpar esse chão depois. Porque eu critico tanto e tô aqui sempre?

Questões. 

Passa, enfim o abacaxi com canela. Peço uma fatia. Não, duas. Deixa três, por favor, moço. É pra ajudar a digestão. 

Levanto pesada. 

- Obrigada patroa, vai com Deus, disse o moço de gel no cabelo e camisa encharcada que trouxe a maquininha.

Ele liga o carro, uma música toca e não consigo escutar direito se é Rage Against the Machine ou Marília Mendonça. Meu ouvido tá entupido de comida. Estico as pernas, abro o zíper da calça. Meu deus, nunca mais faço isso, perdão senhor. Tô passando mal. Abro a janela pra respirar o ar fresco do fim de uma vida.

Nenhuma palavra até chegarmos na esquina de casa.

- Amor, será que o passador de picanha pega ônibus pra ir pra casa uma hora dessa?

Vamos dormir. 

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O livro da Fran, “Impróprio para Consumo: crônicas sensoriais da cabeça à boca do estômago”, está à venda na Amazon AQUI . :D



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