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Flor indesejada pode virar comida

Por: Gabriel Castaldini

21/02/2020
Flor indesejada pode virar comida

Recebeu flores indesejadas, ficou p... da vida e não tem a menor ideia do que fazer com elas? Calma. Não as jogue no lixo. Vamos transformá-las em comida! 


Imagina colocar um ponto final naquela relação tóxica e receber um bouquet de rosas no dia seguinte. Não dá, né? Ou ainda que esteja tudo indo às mil maravilhas e você simplesmente não curte ganhar flores e só não quer parecer deselegante. Pior ainda: chegou visita inesperada e você não preparou absolutamente nada e quer surpreender na cozinha, fazendo algo que garantiria a você o tão disputado avental do MasterChef? Pra tudo tem solução. Você pode juntar as flores que ganhou com as que enfeitam a sua casa e cozinhar pratos surpreendentes, receitas que vão conquistar tanto pelo visual quanto pelo sabor ímpar e bastante incomum. Lógico que as pessoas à sua volta vão achar que você não está fazendo bom uso das suas faculdades mentais, mas isso faz parte do pacote e tão somente contribui para a perturbação gustativa espanto — no bom sentido — já na primeira colherada. 

As pétalas das dálias são lindas e de sabor bastante sutil | Foto: Gabriel Castaldini
 

Eu aposto o meu braço direito que em algum canto da sua casa tem — ou já teve — um vasinho de amor-perfeito, dália ou de kalanchoe. E por que eu aposto? Porque essas são cafonas e baratinhas, do jeito que a gente gosta. Pode ser que por nome você não saiba, mas certamente ao ver as fotos, vai me dar razão. Quanto à dália e a kalanchoe, se você já ganhou  de aniversário uma cesta de café da manhã, então você sabe do que eu estou falando, porque essas duas Plantas Alimentícias Não Convencionais parecem ter nascido para enfeitar esse tipo de presente. Sobre o amor-perfeito, bem, é a queridinha do dia dos namorados. 

Uma dica é misturar amoras frescas com pétalas de dália e açúcar, o que rende uma geléia
espetacular e totalmente fora do comum | Foto: Gabriel Castaldini

 

Versátil e originária do México, a PANC Dahlia pinnata, popularmente chamada de Dália, Dália-de-jardim e adália, é uma herbácea perene, ereta, de raízes tuberosas e rizomas curtos que pode ser encontrada facilmente em qualquer floricultura e em alguns supermercados. Mundialmente cultivada a pleno sol para fins ornamentais por conta de sua beleza multicolorida, suas flores e raízes são ocasionalmente empregadas para consumo, preparadas de diversas maneiras, mas sobretudo como hortaliça. As pétalas de todas as cores podem ser comidas em forma de saladas e como sua criatividade permitir, rendendo geleias, coberturas para sorvete, recheios etc. Suas raízes, que lembram batatas, podem ser cozidas e fritas. Saca só essa receita com Dália.

Geléia de pétalas de dália | Foto: Gabriel Castaldini

GELEIA DE DALIA


Em uma panela, coloque o tanto de pétalas de Dália que conseguir. Quanto mais, melhor. Sem miséria. Adicione meia xícara de água e açúcar cristal (metade em relação à quantidade de flor). Cozinhe em fogo baixo até atingir o ponto de geleia. Se preferir, no lugar de água pode-s usar duas xícaras de amoras frescas e mel e, vez de açúcar. A textura dessa geleia fica incrível, é uma boa pedida é usá-la para rechear pão-de-ló. 

As flores do tal do amor-perfeito (Viola X wittrockiana Gams) são ideais para  saladas, em preparos de sobremesas, sucos, chás e drinks, em refogados — mas ficam feias! — ou simplesmente na decoração de um prato. As folhas também são PANC, e podem ir parar na salada nossa de cada dia ou como ervas que temperaram nossa comida. Além de dar beleza a qualquer prato, a Viola tem ação antioxidante. Já a kalanchoe grandiflora Wight & Arn (saião, saião-azul) é tradicionalmente utilizada na medicina popular da região serrana do Rio, ou seja, naquela região específica, ela não é PANC. Rica em cálcio, esta planta  costuma ser cultivada em hortas domésticas e vendidas em feiras nas redondezas de Nova Friburgo como verdura e ingrediente de emplastro para pessoas que sofreram fraturas. Com as folhas desta kalanchoe rola fazer suco verde, saladas frescas e refogados. 

Extremamente comum, as rosas, de qualquer cor, são PANC. O aroma é tão intenso no sabor
que a sensação, ao comê-la, é de defumar a alma. Arlei Kayser / Flickr

 

As rosas dispensam apresentações! Até o mais obtuso e beócio dos seres sabe o que é uma rosa. Contudo, o que quase ninguém sabe é que esta flor tão popular no mundo inteiro é uma PANC. Desde que comecei a caminhar rumo à cozinha, a chef Dona Licéia sempre foi uma grande inspiração. Tema de artigo no jornal The New York Times e sempre indicado pelos melhores guias nacionais de gastronomia, o restaurante desta senhorinha super simpática, em Arapeí, no Vale do Paraíba, ganhou notoriedade por estar localizado longe de qualquer vestígio urbano, em uma casa simples de um sítio, e por produzir, de forma orgânica, TUDO que é oferecido no cardápio, dos vegetais aos animais. A procura pela culinária tropeira da dona Licéia é tamanha que ela acabou montando um heliponto no próprio quintal. Empresários, políticos e turistas de Minas, São Paulo e Rio, que visitam o Restaurante da Dona Licéia, se surpreendem, também, com as sobremesas, e uma em especial, o pudim de claras com pétalas de rosas. Tal sobremesa, cujo sabor há de ser o mesmo de Deus, me incentivou a criar minha própria versão. Mas óbvio que a da dona Licéia é anos-luz melhor que a minha, mas mesmo assim compartilho com vocês, para que vocês possam dar fim nas rosas que estão de bobeira aí na sua casa. 



Pudim de rosas a água de flor de laranjeira 


Misture 60 gramas de farinha de arroz e 130 gramas de açúcar branco em em um litro de leite e leve ao fogo até atingir o ponto de mingau, quando o creme cobrir as costas da colher. Aí então apague o fogo e acrescente uma colher de sopa de água de flor de laranjeira, que você encontra em empórios, e as pétalas de uma rosa, de preferência vermelha. Misture e distribua a mistura e, taças. Leve pra gelar por umas seis horas ou de um dia para o outro.sobre o pudim frio, coloque um pouco mel, castanhas que você goste e algumas pétalas frescas de rosas. Reforçando que qualquer flor, quando consumidores, deve ser orgânica. 

E aí, você sabia que essas flores tão comuns eram PANC? Já provou alguma? Vai provar? Não deixe de nos contar o que achou. 



Gabriel Castaldini
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