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Garçom, desce uma Coronavac trincando pra saidera!

Por: Bia Amorim

12/03/2021
Garçom, desce uma Coronavac trincando pra saidera!

Hakan Nural via Unsplash

O sonho da vacina própria e liberdade me toma mais do que eu tomo cerveja. Tudo o que eu quero é voltar para uma vida não normal, cheia de encontros e desencontros. Eu acordo e esse dia nunca chega. No sonho sempre me pego gritando:

- Garçommmm desce uma Coronavac Ale gelada!

O preço do óleo subiu tanto que quando a gente puder voltar para o bar não vai ter fritura na travessinha de inox. Não há croquete, coxinha e bolinho de arroz que pague um litro de óleo. Não vejo futuro, só olho o passado. A memória sensorial é algo poderoso. Quando vou refogar cebola e alho chamo meu filho como quem não quer nada e puxo conversa sobre qualquer coisa, só para que ele tenha esse afeto quando for mais velho, lembrar de algo bom em dias tão ruins. Saudades de andar no centro da cidade, andar na praça, tomar sorvete, passear na feira só para comer pastel, sentir o cheiro da rua. Durmo de novo.

- Garçommm desce uma Pfizer Lager trincando!

Entre fases coloridas da pandemia, as lembranças ficam no preto e branco das memórias dessaturadas. Abre e fecha, pode não pode. A única certeza é máscara, distância e o álcool, mas em gel. Mais um dia menos um dia, eu penso vestindo o pijama e deitando a cabeça no travesseiro encharcado de fantasias.

- Garçomm chama aquela Pale Oxford no ponto!

foto: AMIN_MOSHREFI_UNSPLASH

A gasolina tá mais cara que a cerveja. Mesmo não indo de carro para o bar, o Uber também precisa de combustível para e levar. Quando é mesmo que vamos esse preço pagar? Um ano atrás a gente falou em quarentena. Durante 40 dias sofremos como inocentes e desavisados de uma doença que não estava na internet. Fizemos live e botecos virtuais. Dormia achando que ia acordar e tudo teria passado. 365 dias depois, estamos aqui, driblando as notícias políticas e recebendo avisos de velórios que não podemos ir, ombros que não podemos chorar. Um dia a mais, nem sei quantos dias a menos. Durmo de novo.

- Garçom traz logo aquela Sputinik Kveik refrescante, pra saidera!

O sonho é um eterno passar de bandejas, copos gelados, muvuca, música e multidão, tudo apenas ilusão. Acordo e tomo meu café, com fé. Quem sabe um dia eu acordo e tomo a tão esperada vacina?



Bia Amorim
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