Para o topo
Farofa Magazine
Farofa Magazine

Meu copo sujo

Por: Bia Amorim

22/06/2019
Meu copo sujo

foto: guilherme-stecanella via unsplash

Cheguei em casa depois de um longo dia no trabalho.

Eu trabalho com cervejas, mas não quer dizer que eu beba sempre no trabalho ou à trabalho. No dia todo o assunto é algo relacionado à esfera da cerveja. O papo é sempre líquido, mas algumas vezes é preciso chegar em casa e não trabalhar, mas trabalhando.

Na sala, tem a cristaleira que comprei usada da minha mãe. É perfeita, tem cara de que foi escolhida por alguém adulta e paguei bem mais barato do que se fosse uma nova! O tamanho era até bom na época, mas eu sempre volto com um souvenir para casa. É uma mania que os humanos têm. Dentro das taças, alguns outros cacarecos. Pulseirinhas, bolachas, bonequinhos de lúpulo, chaveiro, abridor, bandeirinhas, pôsteres; as referências são muitas. Colecionismo de memória, além de uma carência belga, dita pela quantidade de copos que fazem pares perfeitos para suas cervejas.

A grande questão é uma. Usamos? Nós, catadores de lembranças, jurados do ISO copo e metodologia, críticos vorazes do Instagram alheio. Usamos nossos próprios itens? Muitas são as dúvidas na hora de escolher entre a harmonia perfeita do seu copo de cristal (até um ou outro Blumenau, cada vez mais uma raridade), corte a frio, leve, fino, um trabalho de arte, junto da sua Doppelbock querida. Vale o esforço? Vale o risco de quebrar? Vale a preguiça depois de um dia cheio?

As dúvidas são muitas e confesso que me revira o estômago pensar que posso, ao lavar deixar algum lugar sem esfregar. Só photoshop salva. Achei que era só minha digital, confessando que sim, eu bebi. Mas, estava em casa e o trajeto mais perigoso era pulando a poça do banheiro que sempre alaga por conta da borracha que ressecou.

Pior de tudo, sou eu a maior crítica. Ai de mim para mim mesma se eu ver uma bolinha a mais com cara de “refri”, pelas paredes do copo. As paredes de casa continuam com as mãozinhas sujas das crianças que insistem em se divertir pelo jardim. Me chateio menos do que um pint com sujidade do tempo.

Aquele copo de barley wine se não for lavado vai indicar a culpa de quem bebe pouco o estilo, já que na cidade a média de temperatura é tão Strong que dá para tomar Golden Ale com Lúcifer. A verdade é que as stouts e porters são tomadas no copo de requeijão ou no caldereta com a marca de alguma cervejaria que eu já trabalhei, visitei, ganhei kit, não me contive e saquei o cartão, ganhei em concursos, os amigos presentearam. São lembranças frágeis. Melhores que as fotos escondidas no rolo de câmera soterradas de novidades diárias.

Mas não me venha com a história de vidro engordurado. Ensebado. Cheio de detergente. Isso é desleixo, assim como achar que fast-food é refeição afetiva. Meus sentimentos. Neste momento, ao tirar um copo assim da prateleira retrocedo ele à pia. Todo mundo as vezes precisa voltar uma casa.

Meus copos, mesmo que empoeirados fazem parte da minha vida sommelier. Um pequeno lapso nem sempre estraga a experiência. O dia longo de trabalho quase sempre me cega as beiradas carbonatadas e livres.

Meu copo sujo, minha vida.



Bia Amorim
Bia Amorim
Mais artigos deste autor

Comente aqui:
Voltar para a página anterior
download edição atual
FAROFA #02

saiba antes, saiba mais:

artigos

Bia Amorim

Bia Amorim

Toma a cerveja mais fresca

Bia Amorim

Bia Amorim

Tomando partido na cerveja

Bia Amorim

Bia Amorim

A cerveja que tinha

Luiz Horta

Luiz Horta

O testamento de um enochato