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Meu estômago manda em mim

Por: Bia Amorim

30/03/2019
Meu estômago manda em mim

Olhando lá dentro. Foto: Nik MacMillan via Unsplash

Descobri não faz muito tempo. Eu acordo e durmo, levanto e deito. Inspira, expira. Abre e fecha o olho. Em um piscar de olhos está a energia que nos move o tempo inteiro. Este corpo cheio de massa (raviólis e afins) é movido a um combustível chamado comida (ou alimento?). Sou serva do comer. Sou escrava do sustento.

Quando criança nascemos em um colo que produz nossa bebida mais exclusiva. Leite materno em um lote só para você. Na infância as descobertas nos levam de caretas a sorrisos enormes. Mais para frente eu iria descobrir que o feminino precisa de uma energia extra para determinados períodos. O açúcar berra clamando por colheradas.

Na adolescência quase adulta, principalmente aos finais de semana, vinha de dentro um grito de “cachaça”. Comemorando o aniversário das amigas ouvia um “tequilaaaaaaaaa” e os dias seguintes eram difíceis. Na época que já pagava boletos, o vinho, com mais intensidade o tinto, mas o branco e espumante também eram requisitados. Profissionalmente cheguei a cerveja. Mas tem dias que do nada “me vem” uma vontade de tomar uma catharina sour.

As estações do ano estão sempre querendo se meter na forma como eu me alimento. No inverno o corpo inteiro clama por uma sopa quentinha e se possível acompanhada de um pãozinho para dar sustância. No verão, qualquer coisa crua e com uma pitada de cítrico traz conforto. Primavera eu me deslumbro facilmente com notas coloridas e coisas fermentadas.

Quando é que eu vou tomar conta dessas decisões? Nunca, não quero deixar que meu ego tome as deliberações por aqui. Depois da gastrite em 2016 eu resolvi que ia largar a mão de querer isso ou aquilo. Ia mesmo passar o bastão e resolvi ouvir de forma mais quieta aquele órgão que fica entre a cabeça e o pé. Meu ânimo agora ia ser outro.

Com o estômago mandando em mim, tive que fazer uma reforma. O refrigerante precisaria protocolar um pedido de degustação com pelo menos 2 semanas de antecedência. Os sucos industrializados iriam precisar de autorização com ao menos 12 horas. Laticínios precisariam retomar a confiança perdida e os probióticos do bem teriam Green Card para sempre. Frutas da estação devem vir com o selo de autenticidade e não apenas perfil de aroma e cor semelhante. Por lei, uma cerveja não deveria mais ter diacetil e outros off-flavors que um dia tinham sido permitidos. Cafés com aromas medicinais não passariam da primeira catraca. E assim, uma a uma as regulamentações foram sendo colocadas em ordem.

Aquele fast-food nunca mais foi permitido em dias normais. Mas também percebi que quando foi preciso, por uma urgência ou saudade absurda do que aquele sabor remete na memória, eu podia dar um afago e abraçar a comida de maneira mais afetiva leve do que aquele apego pesado do passado.

 Com a retomada do poder eu e as reações físicas e químicas que acontecem no meu corpo, junto a um bilhão de tomadas de decisões, fizemos as pazes e caminhamos trocando ideias do que seria bacana nesta semana que tem uma reunião importante ou aniversário de uma amiga (tequilaaaaaaaaa) ou um happy hour de leve ou um café com os amigos ou a rotina do dia a dia em paz com os sabores.

Amarga são as notícias e não a minha relação interior com os acontecimentos que eu ingiro.



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