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Não adianta chorar o deleite derramado

Por: Bia Amorim

28/08/2020
Não adianta chorar o deleite derramado

Kirby Fortenberry via unsplash

Desde meu primeiro dia trabalhando com cervejas artesanais sou apaixonada pelo que faço, pelo meu ofício. Foi quando eu provei pela primeira vez uma cerveja do tanque, que senti o deleite de quem bebe algo que impacta o paladar e que marca o cérebro, a memória. Fresca, macia, com uma carbonatação que não sei explicar até hoje, pequenas bolhas, leves, divertidas e um toque de malte, um de trigo, um sabor de fermentação. Aquilo mexeu com minhas papilas.

O clima cervejeiro anda pesado. Diria que o extrato original, perto de 30 anos atrás, deu origem ao que chamamos atualmente de mercado de cervejas artesanais no Brasil. Os açucares deste mosto são a paixão que temos pelo tema, pela cultura cervejeira, pela criatividade, pelos sabores, pelas pessoas, por tudo que este símbolo, a cerveja, nos representa. Vivemos um momento de fermentação. Isso é bom sinal, não é mesmo? Quem achou que estava em terras flats, se enganou. O extrato final deste momento é a pergunta que fica. Quanto de paixão nos sobrou?

E se eu escrevo fazendo mini piadas com os temas e com o glossário é porque muito disso nos pertence como grupo e como grupo apenas. Esse nicho cervejeiro que precisa se mostrar atento, tem pessoas dispostas a manter a conversa e a paixão cervejeira para o alto. Estamos por demais saturados de lutas e batalhas e neste momento, de maturação, podemos saborear melhor aquela golada gelada, refrescante ou maltada, ácida ou lupulada. É por esses momentos de evolução que brindamos. E é por essa diversidade, dentro e fora do copo que estamos aqui.

O trabalho do sommelier sempre pediu ética. Assim como qualquer outra profissão. A verdade é que existem realidades onde essa natureza se perdeu em algum lugar. A sociedade que parou no tempo e não conseguiu entender as mudanças generosas que temos, essa minoria sofre pelo ego que é grande demais e pela baixa estatura moral.

Estamos no meio de uma pandemia, não vamos nos esquecer disso, que não é detalhe. Perdemos muitas pessoas nos últimos meses, é preciso respeitar o luto. Fechamos muitas empresas neste tempo, é preciso respeitar as perdas. É necessário digerir e metabolizar todas essas coisas. Mas é preciso estar na realidade da hora. Não podemos perder a razão. Não podemos chorar pelo deleite derramado, pois estava a transbordar alguns tipos de regalos que hoje não serão mais aceitos, e com razão .

O mercado precisa mostrar para as pessoas onde estão os bons lugares, os sabores deliciosos, o prazer do bem sem culpa, a física da alma de quem sabe exatamente seu ponto inebriante, aquele ponto único e que não fere a ninguém, o ponto de equilíbrio. Como mudamos essa chave? Não é como, é quando. Essa mudança vem ocorrendo a tempos, talvez despercebida. Talvez no fundo, a gente nem compreendeu que o movimento sempre foi constante, de um lado e de outro. Mas a corda precisava de estrutura e força para puxar o movimento a diante. Mudanças sempre são necessárias em sociedades como ainda vivemos, mas a nova sociedade exige um propósito verdadeiro.

Quando foi mesmo que as mulheres deixaram o universo da cerveja e se tornaram apenas parte da publicidade? Quando foi mesmo que os caldeirões deixaram de ferver mosto e começaram a fazer feitiçarias e fomos queimadas por isso? Quando foi mesmo que colhemos os grãos para fazer pão e nos esquecemos do mingau que azedou? Quando foi mesmo que nos tornamos apenas prints? Quando foi mesmo que o mundo deixou de fermentar aquilo que tinha, para servir apenas a um tipo de copo?  Quando foi mesmo que paramos de nos importar com a diversidade? Ou nunca nos importamos? O discurso não pode arrefecer, as políticas de diversidade e equidade são urgentes. A cerveja não é boa ou ruim, é o que fazemos com a história dela e a partir do que ela simboliza para nós. Como disse o Eduardo Sena em seu artigo, é "preciso construir".

A paixão pela cerveja não pode esfriar, apenas a cerveja deve nos refrescar. O debate é parte da cultura, é parte do boteco. Está no copo, está em quem serve o copo, está em quem fabrica o que tem no copo, em quem plantou, em quem colheu. Talvez quem bebe a cerveja, sem conexão nenhuma com o que está submerso, não queria saber deste “novo normal” politizado. Pode ser apenas um mimimi. Ou um mimimilho? A coerência precisa ser trazida à tona. De quem é essa responsabilidade? Do grupo! Das empresas, das associações, dos profissionais individualmente.

Em um país onde o número de cervejarias artesanais saltou de cerca de 50 fábricas para 1000 fábricas em 10 anos, vemos pessoas apaixonadas e criativas. Temos sede por beber melhor e com mais sabedoria. Isso inclui produto com qualidade, inclui profissionais com seriedade e ainda mais, uma cultura onde a democracia que pregamos, esteja impregnada também naquilo que fazemos.

Por que você se apaixonou pela cerveja? Se lembra do seu primeiro copo mais marcante? Esta semana esse tema foi bastante falado em um grupo de whatsapp. Precisamos voltar as nossas origens para aquecer e trazer fé novamente para o mercado cervejeiro. Vamos nos lembrar o porquê de nos emocionarmos, decepcionarmos e chorarmos as dores que o momento tem nos trazido. É por que a cerveja pertence a todos, como disse o jornalista Marcio Beck.

Saúde, Pão e Cerveja a todos.



Bia Amorim
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