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No meu leite de morte

Por: Bia Amorim

14/04/2019
No meu leite de morte

hussainibrahim_hi via unsplash

Eu nasci em 1982. O fato é que logo que nasci já me deram uma bebida exclusiva. Não tinha como não prestar atenção dali pra frente. Depois que eu respirei, chorei, abri os olhos, foi o que eu fiz. Já bebi um drink elaborado por uma superespecialista, minha mãe. Coloquei realmente esse motor para funcionar e vi que o combustível para a vida era algo que um dia eu ia balbuciar “comida”. Dá, dá.

O primeiro fato a nos atentarmos é que depois do leite, vamos passar para as frutas amassadas. Toda mãe sabe o quanto isso muda os aromas e percepções sensoriais do cocô de uma pessoinha. É admirável o quanto as pessoas se amam e trocam as fraldas sorrindo. A partir dali você que é mãe/pai, vira sommelier de fralda. A gente sabe até quando eles comeram mamão!

É possível que depois dos primeiros alimentos, o nosso corpo entendeu que temos gostos básicos. Texturas e outras sensações ajudam a formar o sabor. Imagina nosso cérebro aprendendo sobre tudo, sentindo que tudo aquilo ainda era o que nos deixava mais fortes, mais atentos, mais despertos. E ainda conseguindo negar certas comidas. O verde nunca faz sucesso entre as maiorias. Sabemos, de alguma forma, que os amargos podem ser ruins para nós. Os azedos não são sinais confiáveis. Na infância é assim.

“A gastronomia é um saber gratuito. ” Disse Manuel Vásquez Montalbán

Comeu um chocolate, abriu uma porta. Mordeu um queijo, uma janela para o mundo. Cada época que vivemos vamos nos aventurando no universo do se alimentar por sobrevivência e comer por prazer, ou é ao contrário? Somos os únicos animais que cozinham, temperam, cortam, arrumam em um prato bonito, tiram uma foto e postam no Instagram.

picoftasty maemu via unsplash

No meu velório quero que tenha ao invés de coroas de flores, uma mesa com minhas comidas preferidas. Uma geladeira com minhas bebidas favoritas. As pessoas vão dividir dos meus prazeres sensoriais, deixados para trás apenas como uma herança de emoções possíveis de se compartilhar. O simples pão com manteiga na chapa, mas feito do meu jeito. Sempre com o café coado. Recolham as lágrimas e façam uma “Gose colab”.

Ora, talvez neste ponto da vida a gente perceba que não há mal nenhum em um chuchu, no jiló, na dobradinha, na berinjela. Algumas comidas não me apetecem. Literalmente não me dão apetite. Mas a gula também não é meu pecado. Prefiro olhar atentamente e naquele limiar entre o amor e a admiração aos alimentos e agradecer por estar viva graças a eles.

No meu leite de morte, café coado por obséquio.



Bia Amorim
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