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O Brasil me obriga a ser sommelier

Por: Bia Amorim

15/03/2019
O Brasil me obriga a ser sommelier

A frase “o Brasil me obriga a beber” é repetida diariamente nas mídias sociais a fora. Não é fácil ostentar o título de brasileiro com tanta notícia ruim e dificuldades que temos na rotina de vivenciar um país ainda evoluindo a passos pequenos. É fácil comemorar as pequenas vitórias, um nascimento, um reconhecimento, uma amizade e um amor.

A bebida, o álcool, é o alento do trabalhador. Relaxa após um dia difícil, nos libera de alguns sentimentos, transcende as observações da vida real, desnude a arte. Isso acontece a milênios, é um troféu, um objeto de prazer, um presente, um convite, uma muleta, uma âncora ou um veneno.

O Brasil me obrigada a ser sommelier. Vivo pensando qual é o meu propósito como profissional do setor líquido. Tom Standage é um escritor inglês e tem o livro “História do mundo em 6 copos”, logo no capítulo 1 tem uma frase que eu sempre trago à tona. Penso que nossos corpos buscam quase que sozinhos algumas formas de sobrevivência, ainda que de maneira arcaica. Tom diz:

“A sede é mais mortal que a fome”.

A cerveja, que hoje é o meu “ganha pão” (olha que espirituoso isso) é também um meio das pessoas sobreviverem as suas rotinas de alegrias e tristezas. Matar a sede que as mata. Então, para ganhar propósito próprio, preciso fazer de uma maneira que isso não seja nosso veneno.

Sou sommelier. Sigo filosofias que acredito, penso em medidas que podem não servir a todos. Aguardo chegar das panelas, receitas que embalem meu discurso. Da mão das pessoas cervejeiras, da vida das leveduras, dos resultados das misturas dos ingredientes. Não bastava matar a sede. Os humanos procuram prazer e alegria nas combinações e consequências. E ao longo dos milênios nos tornamos cientistas da sede.

Ao ensinar as pessoas sobre cerveja, falar sobre sabores, texturas, sensações e experiências, espero fazer do momento que ela bebe, mais do que só sobrevivência. Evolução e consciência andam juntas, até mesmo nas goladas de um dia difícil, onde o jornal e as conversas são mais pesadas que comida ruim para o estômago.

Não beba demais eu te digo, amanheça com prazer a mais um dia. Não tome coisas ruins eu indico, aproveite cada momento. Tem muita escolha, eu te conto, não viva a mercê de muros invisíveis.  Azede a vida, eu ofereço, confie que alguma acidez traz equilíbrio. Amargue a boca, se depare com desafios simples e sensoriais, é meu conselho.

Sou sommelier. O desafio é hoje fazer da bebida e do alento, experiências transformadoras para o bem, social e pessoal. Servir bem para servir sempre. Saúde.



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