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O detalhe gastronômico

Por: Bia Amorim

07/07/2019
O detalhe gastronômico

 Jay Wennington via Unsplash

No universo cervejeiro falamos de maneira criptografada com nomenclaturas, códigos, abreviações e as gírias que todo nicho tem. Para aqueles que simplesmente tomam cerveja, sem se interessar com detalhes físico-químicos do que estão bebendo, pode ser muito chato ter que saber outra língua e pronunciar corretamente em alemão, quando tudo o que a gente quer é pedir uma cerveja. É como quando alguém começa a falar sobre dados econômicos e mercados futuros, juros e contas matemáticas que eu não sou capaz de acompanhar. Um minuto depois eu me canso e desisto de investir na bolsa de valores (rs). Em geral, usamos o “falando grego” para rir da situação.

Existe um desafio que pode ser levado para o lado bom. Aprender o nome dos estilos, sua pronúncia e o que isso significa é ganhar tempo e dinheiro. Quando você já sabe que sua cerveja favorita é uma Amber Ale, uma Stout, Altbier ou até uma Catharina Sour, não vai tomar algo que não gosta. Não vai pedir jiló sem saber. Eu não gostaria de receber um Ratatouille, já que não sou das mais chegadas em berinjela. Assim, a cerveja também presta seu papel de classificar para ajudar.

Nos queijos é necessária classificação. A diferença entre um Gorgonzola, um Cheddar, um Parmesão e um Brie é gritante. E, com o tempo, aprendemos de qual gostamos mais e qual vamos pedir para tirar quando a pizza for “4 queijos”, né? Isso para só citar os que a gente mais conhece.

Filip Sablatura via Unsplash

Nesta nova onda do café, já existem mais de 20 tipos de extrações diferentes para “apenas” tomar um café preto. Ou melhor, com diferentes tonalidades de marrons do mais claro ao mais escuro até sim chegar ao preto, e podemos ainda mais detalhar o seu nível de torra. Era só café, diziam.

No vinho também é assim. Não dá para classificar somente entre tinto, rosé, branco e espumante. O terroir é quântico e complexo. As diferentes taças, ocasiões, barricas, tipos de uvas, blends, maturações. Uma vida buscando o equilíbrio com os taninos. Não é fácil apreciar coisas tão mutáveis.

Se é para ser simples, então água. Com gás ou sem gás? Gelo e limão acompanham? Fatiado ou espremido? O detalhe não larga do meu pé. O valor agregado. O copo de plástico ou de vidro. De formatos e pesos diferentes. Por isso, é caro se hidratar? Na verdade, é apenas necessário. Apenas?

Somos obrigados a beber líquidos para o corpo funcionar. Basta água? Basta qualquer coisa? O gosto precisa ser bom? A textura precisa ser agradável? O que é adequado para você? Quanto pode pagar? Quanto estamos dispostos?

Katrien Sterckx via Unsplash

“A mesa é o único lugar onde não nos entediamos durante a primeira hora” disse um personagem de Brillat-Savarin em A Fisiologia do gosto (1824). Carlos Alberto Dória cita essa passagem do livro deste brilhante autor para dizer que “o discurso gastronômico como uma necessidade tipicamente burguesa contra o tédio. ” E discute sobre o falar e o comer em sua apresentação do livro de Josep Muñoz Redón, em A cozinha do pensamento.

Na chamada cerveja artesanal, diversidade e criatividade são “mato” e, todos os dias, sabores e texturas e ingredientes são colocados à prova por profissionais e suas leveduras, os equipamentos e toda tralha humana que conseguimos aperfeiçoar nos últimos 10.000 anos. É muito tempo colhendo grãos e misturando a outros elementos.

Depois de tanto tempo buscando aprimorar a cerveja, os líquidos e a sobrevivência, é preciso respeitar a trajetória que criamos e saudar os brindes. Vamos ser detalhistas porque isso nos foi construído. Muitas pessoas participam da evolução constante para sempre o prazer ser melhor, mais qualitativo do que volume. Mais gente podendo usufruir algo que antes era apenas da monarquia e dos mais fortes.

Uma conversa sem copos e pratos pode ser muito enfadonha. Com o tempo e o desenvolvimento das cidades e famílias, a busca pelo sabor acabou tornando a refeição o momento mais importante de relacionamento entre os humanos. E o que fizemos com isso é incrível. É fácil ficar horas falando sobre queijos, desde o seu feitio até a casquinha crocante que alguns tipos podem proporcionar depois de uma rápida temporada em um forno com grill. A gente gosta de falar sobre o comer, principalmente se estiver comendo. Mas a cultura gastronômica com detalhes ainda é burguesa, um linguajar elitizado. Demanda educação culinária, de cozinha, de família, de cultura e disponibilidade de recursos.

Não vamos transformar cada refeição em uma ópera sem fim. Não quer dizer que o detalhe precisa ser a cada prato e copo enunciado. O garçom não precisa passar metade do jantar dando aulas sobre os ingredientes. O chef não precisa sair da cozinha, mesa a mesa instruir os comensais. Deixe a qualidade falar por si. O assunto pode ser outro, a comida e a boa bebida as vezes, só pela boa escolha, já pode surpreender sem precisar declarar um poema.

No fim, você vai perceber que essa busca pela perfeição do sabor é igual música. É preciso separar algumas melodias das outras para ouvir apenas aquilo que nos faz bem. Peça como quiser sua bebida, mas lembre-se que chegamos até aqui para que fosse desfrutado em minúcia esse deleite.



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