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O prêmio de pior cerveja

Por: Bia Amorim

18/02/2020
O prêmio de pior cerveja

Fotos por Bruno Dupon Medeiros

O prêmio de pior cerveja vai para aquela que eu derrubei em cima do meu laptop enquanto julgava o concurso da Copa de POA. Durante esses eventos, os jurados sentam em mesas com pães e água, um papel rascunho, um computador. Com três ou quatro pessoas na mesa, uma sempre é a responsável do grupo. As regras do concurso são lidas, todos a postos.

Cada amostra de cerveja chega em um copo transparente, apenas com um número colado. É sempre “às cegas” e não tem informação de qual é a cerveja, apenas em qual estilo ela está competindo. Nos tempos atuais, trabalhamos direto de um software onde as avaliações são organizadas e as melhores cervejas vão se destacando, ponto a ponto, equilíbrio e técnica.

Já estávamos quase no fim da lista da tarde. O steward, é o nome gringo para a função de auxiliar, como um garçom, mas que faz especificamente o serviço do evento. As bandejinhas vão e vem rapidamente. Chegou em nossa mesa um flight (nome dado as sequências por estilo) de cerveja Pilsen. É difícil, mesmo que pareça fácil. Ô cervejinha leve.

Muita coisa oxida. Muita coisa com diacetil mais que pipoca de cinema. Muita coisa com notas que parecem não criar harmonia com o todo. Água, pão, cerveja, água, pão, cerveja, água, pão, cerveja.
Coisa pouca, a atenção é tanta que o álcool nem afeta. Pequenos goles dizem grandes verdades. Uma cafungada mais longa, uma mais curta. Quase um chamego. Quando a cerveja é boa e as notas crescem, as vezes antes do copo ir embora para sempre no segredo de seu nome, damos mais uma puxada forte do ar. Quem sabe um dia nos encontraremos em algum bar pelo mundo.


Todo esse romantismo, mas a cadeira é dura, as costas arqueiam, o sono bate, a vontade de fazer xixi frequentemente é grande. Cansa beber cerveja.


Sentei, chegou a linhagem de líquidos claros, brilhantes, com espuma de média formação e aromas com sinais de off flavors. Fiz um movimento abobado com o braço e sem perceber derrubei o copo cheio de cerveja neste que vos escreve, o laptop. Bap, bap, bap.

Tentando sem sucesso um golpe rápido e ninja, o líquido se esparramou sobre o teclado. Virei de ponta cabeça o computador, desliguei e fiquei olhando a cena patética. Busquei pano, chegou ajuda. Tínhamos uma cerveja vencedora, de pior, a mais malvada de todas. O steward foi buscar outro copo, não vamos julgar essa amostra pelo erro dos outros. Uma sommelière estabanada.

Alguns minutos depois, com o teclado um pouco melado, mas com suas molas e conexões ativas, voltei a digitar. “Oxidação presente, rever processos blablablabla”. Alguns meses depois o laptop dá sinais de fraqueza. Como uma dor no fígado. Que raiva. Falece por algum tempo, ligou. Procuro ajuda e descubro que ele está em processo de oxidação.

Por causa da pior cerveja do mundo, aquela derramada.



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