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O que E.L.A. mudou no mercado cervejeiro?

Por: Bia Amorim

17/05/2019
O que E.L.A. mudou no mercado cervejeiro?

Quando eu entrei para o mercado cervejeiro em 2010 a cerveja artesanal já batia asas para voar alto. Ainda tinha muito “mato” como a gente brinca na linguagem popular, mas muita gente já estava trabalhando para que a evolução ocorresse no Brasil. Acontece que a cerveja existe há milênios e na verdade muitas coisas aconteceram desde que deixamos de ser nômades e começamos a plantar cevada para abastecer a “geladeira”. Muita água já passou por esses caminhos e algumas coisas são simplesmente cíclicas até a gente quebrar os paradigmas.

Nos meus primeiros anos trabalhando para o setor cervejeiro, muita gente se espantava e dizia, “mas mulher e cerveja? Como é isso? ”. Então eu respondia com tom de didática, que mulher e cerveja sempre estiveram conectadas e soltava aquele aulão básico sobre história + machismo + momento atual. O que não existia no Brasil, logo que eu comecei, era na verdade uma conexão entre as mulheres que atuavam como profissionais. Sempre fomos muitas, mas cada uma na sua rotina. Desconectadas, a gente não parecia que estava ali.

Com a mídia mais interessada no universo feminino e com um certo holofote no momento atual do feminismo, 2016 foi um ano importante para o mercado cervejeiro.  Diversas profissionais sentiram a necessidade de se unir a um projeto, um propósito que fosse além da bebida. Depois de muitos episódios com o machismo querendo despontar em fama na cerveja, a necessidade de se pedir respeito apareceu de forma mais organizada. Com uma cerveja, ela mesma, viva e em líquido, em garrafa, com rótulo, com conversa, com construção de uma história, para mais uma vez quebrar conceitos errados e desiguais.

O que foi o projeto?

“Chamamos a E.L.A. de cerveja-voz porque foi assim que a ideia surgiu. Da experiência de cada uma de nós, de todas as barreiras e paradigmas que quebramos por sermos mulheres trabalhando num mercado em que a construção cultural sobre ele foi moldada sobre machismos latentes. Foi um grito por todas que têm contribuído com a cerveja artesanal no Brasil com conhecimento, com suor, com cerveja boa! E apesar de tantas mulheres, com histórias e profissões diferentes, de diversos lugares, havia algo dolorido que nos unia. E sentir que não estávamos sozinhas nos fez mais fortes. ” Conta Aline Tiene, que é antropóloga, sommelière e especializada em marketing cervejeiro.

Uma pessoa chama a outra que convida a outra e assim de boca em boca de whats em whats, ligações, encontros e mensagens surgiu o grupo que faria a cerveja E.L.A. Um coletivo que optou por uma cerveja com o poder de bater de frente com muita parede por aí (entenda machistas, se quiser). Mas o que pode fazer uma produção, pontual e específica de 1 rótulo, estilo forte e não exatamente um produto barato? Acho que pessoalmente eu só posso dizer agora, 3 anos depois, qual o retorno disso.

“O E.L.A. foi o primeiro projeto ligado à participação das mulheres no mercado cervejeiro que a Dádiva apoiou. Muitas mulheres que trabalhavam na Dádiva na época foram fundadoras do coletivo e muito ativas em fazê-lo acontecer. O dia da produção é um dia lembrado por muitos funcionários até hoje. ” Lembra Luiza Tolosa, proprietária da Dádiva e peça importante no coletivo.

A cerveja em si

Para quebrar o estereótipo de cerveja de “mulherzinha”, o estilo escolhido foi uma Barley Wine, estilo potente em sabor, álcool e caráter.

“Quando decidimos questionar, resolvemos começar com uma American Barley Wine, que não é nem de perto o que a galera considera uma cerveja de mulherzinha”, explica Larissa Paschoal, uma das organizadoras do movimento e quem desenhou a marca (AQUI).

A american barley wine é uma cerveja complexa e tem um corpo médio para alto, com notas intensas de malte, carbonatação média e cor âmbar. A espuma tem baixa formação e o líquido conta com 10,5% teor alcoólico, que traz um agradável aquecimento. Tem dry hopping de lúpulo Ella, chips de carvalho e rum na maturação. Esta cerveja possui um amargor mais acentuado que a sua versão inglesa.

“As mulheres do E.L.A. fizeram tudo. Da moagem à brassagem, tocamos as panelas até o final da produção.” Luiza Tolosa.

A embalagem

“O rótulo e o logo que sintetizaram tudo que queríamos dizer e para completar a ação, um saquinho de papel que envolvia cada garrafa, onde escrevemos com nossas letras algo que vivemos e que precisava literalmente ser rasgado para começarmos a escrever uma nova história no mercado cervejeiro. “Aline Tiene.

Embalagem que conta histórias. Foto: All Beers.

Mais mulheres unidas

Olhando por agora, vejo que o estereótipo que quebramos foi inclusive o de que “muita mulher junta não vai funcionar”. Mas também vejo que o estilo escolhido mostra que é preciso ser forte para durar, posso abrir uma das garrafas que guardei até hoje, para ainda acompanhar pensamentos rasos e com pré-conceitos enraizados. Tudo bem, ainda tenho cerveja para os próximos anos.

Algumas das muitas mulheres juntas e que deram certo. Apenas uma parcela das mulheres que participaram do projeto. Imagem: Divulgação

“E uma cerveja virou uma enormidade de conteúdo, diálogo, abraços, lágrimas, coragens, e dinheiro revertido para ajuda de outras mulheres que vivem em situação de violência. ” Aline Tiene.

Mais que garrafas vazias, o que restou do projeto foi uma união que antes não existia. Um grupo de whatsapp que vez ou outra se movimenta, conversa, compartilha, dá parabéns no aniversário, comentamos alguns episódios e nos entristecemos juntas ainda com alguns comportamentos. O coletivo feminino formado ao redor de uma receita, se tornou mais que apenas a projeto. É uma rede que nos mostra que não precisamos estar em evidência para estarmos ativas.  Outros diversos projetos aconteceram desde então. Não só do E.L.A., mas de grupos organizados em todo o país.

Quer saber mais sobre outros projetos? Conhece a Cerveja Batom Vermelho (AQUI), o Beba como uma garota (AQUI), o Ceva das Minas (AQUI), o Gose Island SisterHood (AQUI), o Coletivo Minore (AQUI). Já fizemos na Farofa antes um conjunto de projetos bacanas que aconteceram em 2018, encabeçados por mulheres (AQUI). A Eisenbahn fez um Talk Cervejeiro este ano e convidou mulheres para falar sobre isso para a mídia, aumentando ainda mais o espaço que já alcançamos (AQUI),.

“Quando penso no ELA é sobre sororidade e orgulho, por cada uma das mulheres incríveis que este mercado trouxe para construirmos algo novo juntas. ” Finalizou Aline.

O trabalho voluntário é muitas vezes uma forma de prece pessoal, cada uma fez e acreditou como pode. E a fé é um apoio importante em tempos como o que ainda vivemos. Estar imersas em algo tão cheio de boas conexões é um alento.

 “ O E.L.A. me trouxe muito mais consciência feminista. Tem muito assunto que eu pensava, que muitas vezes me incomodava, que soava estranho, mas que ficava guardado comigo. O E.L.A. trouxe uma empatia tão grande entre as mulheres que faziam parte do grupo, que além de ser muito confortante expor estas situações incômodas, ainda me sentia muito mais consciente sobre como esta luta era, e continua sendo, necessária. Foi o primeiro projeto feminista ao qual a Dádiva e a Luiza encabeçaram, e, felizmente, depois dele vieram muitos outros. Projetos como este nos fazem mais fortes e unidas, sentimentos fundamentais para não desistirmos de lutar por uma sociedade mais igualitária. ” Concluiu Luiza Tolosa.

Resultado

A cerveja foi lançada no segundo semestre de 2016 em eventos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.

O valor total arrecadado foi de R$ 9.381,53. A renda foi toda revertida na doação para a ONG Artemis (que faz um importante trabalho contra a violência doméstica e obstétrica). Mais do que ajudar financeiramente, o projeto abriu as portas para que a gente olhasse de perto a realidade que está acontecendo bem perto de nós.

A mídia acompanhou de perto e rendeu muito material, mostrando que tem bastante gente preocupada em mudar os valores que ainda temos hoje.

Tem registros na mídia:

(AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI) (AQUI(AQUI(AQUI)

A doação oficial aconteceu no dia 6 de março, as 16h, no Eataly em São Paulo e ocorreu junto com o lançamento de uma nova cerveja, uma american wheat produzida pela Cervejaria Paulistânia com o coletivo do E.L.A., e foi feito em homenagem ao Dia da Mulher.

“O E.L.A. foi um dos primeiros movimentos de mulheres cervejeiras da América Latina, concentrado em um país onde o machismo é estrutural e onde mulheres são tratadas de forma diferente em todos os meios, inclusive na cerveja. Com o E.L.A. conseguimos mostrar que temos voz, que queremos e podemos ser ouvidas. Foi um grupo que deu origem a outros grupos locais e regionais que seguem lutando contra a opressão no meio. Foi nele também que conheci mulheres incríveis e inspiradoras, criei laços fortes de amizade e vi que não estava sozinha na luta.” comentou Daiane Colla, jornalista, sommelière, jurada de concursos e professora.

Se você ainda não é uma pessoa convencida de que existe machismo no meio cervejeiro, a turma ainda organizou um Tumblr com várias imagens para você avaliar com critério ;) dá um clique (AQUI) 

#ELAporelas e #35diassemmachismonacerveja



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