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O testamento de um enochato

Por: Luiz Horta

09/10/2019
O testamento de um enochato

Luiz Horta, releitura do ilustrador Daniel Kondo do Tintim

Minha relação com o vinho de forma organizada fez bodas de pérola (30 anos), comecei em 1987, num curso de degustação. Antes o vinho estava na mesa da família, mas se bebia e pronto, era bom ou não, nunca era analisado. Nestas três décadas mantive um respeito que nem ele, nem eu merecíamos. Muito lentamente comecei a entendê-lo, descobrir outros sabores, experimentar sensações e ousar combinações com comida. Mas, ainda era uma coisa a ser tratada com o pronome formal, sem tapinha nas costas e eu sempre engravatado quando me dirigia a ele. Visitei propriedades de Bordeaux, Borgonha, fiz degustações de Portos históricos, centenas, talvez um milhar, de garrafas, viagens o ano inteiro, e tudo isso só aumentava minha reverência por ele, que o afastava mais de mim, numa espécie de religião nerd.

A mudança veio numa viagem a Paris, em que, tenso, fui jantar com o crítico do Financial Times, Nick Lander. Além de ser grande conhecedor de restaurantes é marido de Jancis Robinson, a grande dama e autoridade britânica de vinhos, editora dos livros de consulta que todos temos na mesa de trabalho (Oxford Companion to Wine, How to Taste, The World Atlas of Wines, só para citar os mais comuns).

Passei um dia pensando como tocar no assunto, ele escolheria o vinho, ou eu?

No restaurante marcado, um bistrô simpático em Montmartre, o garçom veio e lascou a pergunta temida: “o que vão beber? Tem bordeaux, borgonha, rhône e loire”. Falou de um jeito tão banal que soava assim mesmo, tudo com letras minúsculas. Era a oferta por taças, sem nome de produtor, safra, nada.

Lander perguntou: “tem algo de beaujolais? Vamos querer uma garrafa”. O moço foi lá dentro e trouxe as duas que tinha, escolhemos unanimemente o Morgon de Marcel Lapierre. Ufa, eu estava em terreno seguro. Não falamos nem uma frase sobre vinho nem comida, conversamos apenas e enxugamos a garrafa. 

Percebi ali, naquela noite fria parisiense, com uma das melhores companhias para jantar, que somos nós que colocamos gravata no vinho, é só uma bebida, que acompanha a comida e dá alegria. Se a escolha não for a melhor, amanhã tem outra refeição, outras garrafas.

Foi minha libertação. Vou muito a Paris, mais que sonhei e mereço e menos que gostaria. E lá eu relaxo. Aqui no Brasil ainda estamos na infância da apreciação, passamos mais tempo tendo DR com o vinho que aproveitando seu prazer. É um tal de verificar se a taça é certa, se vai combinar com o prato, se alcachofra não vai atrapalhar. Falamos tanto de alcachofra que até parece é nossa comida do dia a dia. Montamos o jantar em torno da garrafa e não o contrário, que me parece mais certo, decidir comer algo (ou cozinhar) e então escolher o que beber. E nem precisa ser vinho, pode ser cerveja, saquê, até chá, ou uísque, bebidas variadas que vão com a refeição. 

Depois de tanto tempo de relação chegou a hora, descobri que estava abordando o vinho de maneira errada, perdendo a melhor parte, a diversão. Começo meus próximos 30 anos com esta abordagem, acho que melhorei com o tempo.



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