Para o topo
Farofa Magazine
Farofa Magazine

Qualidade é afeto

Por: Carlos Alberto Dória

10/06/2017

Podemos dizer que afeto é aquele apego entre pessoas que se dão reciprocamente de modo recorrente, altruísta; e o altruísmo é esse se dar ao outro sem contar com nada em troca. A cozinha é um fundamento forte dos afetos entre pessoas próximas. Só minha mãe sabe, por exemplo, o ponto exato do ovo frito do qual gosto; sabe que detesto fígado de boi e jamais o fará para o meu almoço aquilo que, para ela, seria o bom e agradável, e assim por diante.

Cozinhar é uma das tantas atividades materiais que cria vínculos, esteja imersa numa relação amorosa ou numa relação meramente comercial. Se fazemos alguma coisa é porque essa coisa é útil para alguém. Diz-se, um “valor de uso”. Se esse valor de uso é feito numa sociedade mercantil, quem o faz vende no mercado e recebe uma quantidade de dinheiro que lhe permitirá adquirir outra coisa útil para si e, assim, o que foi produzido para o mercado será um “valor de troca” em confronto com outros que produzem a mesma coisa. Em família, essa igualdade é absolutamente dispensável porque não existem, internamente, relações mercantís.

As razões que nos movem em direção àqueles que fazem parte de um núcleo familiar não visam a troca ampla, onde sequer precisamos conhecer aquele que adquire uma mercadoria. Ao contrário, é a pessoalidade que determina a produção familiar. Há, ai, a partilha de uma mesma história, o conhecimento das idiossincrasias pessoais, o desejo de bem nutrir e de agradar, mostrando, em cada ato, em cada gesto, que compreendo perfeitamente o outro e suas preferências.  Quem sabe que você gosta, por exemplo, de comer pizza fria com café com leite no café da manhã, não é mesmo? Só os seus. A sociedade atual tende a apagar as fronteiras entre o que é público e o que é privado, mas  enquanto houver esse domínio do qual só as pessoas próximas participam, a separação estará garantida e essa experiência tão imediatamente gratificante que se dá em família continuará recriando um determinado sentido da vida.

Gostos, preferencias e, por que não, uma política de alianças com determinados produtores e não outros podem orientar todos os gestos culinários. Por exemplo, a família pode decidir que na casa não entram alimentos impregnados de agrotóxicos ou hormônios. Evidentemente pode implicar em mais trabalho ir atrás do que se quer. Mas não é essa busca já um trabalho feito por motivação afetiva?



Carlos Alberto Dória
Carlos Alberto Dória
Mais artigos deste autor

Comente aqui:
Voltar para a página anterior
download edição atual
FAROFA #3

saiba antes, saiba mais:

artigos

Sabrina Cyrillo Medella

Sabrina Cyrillo Medella

Tudo que não te contaram sobre os Base-Planta!

Marcia Daskal

Marcia Daskal

Comer melhor em 2020

Bia Amorim

Bia Amorim

Quando meu marido me pede uma cerveja

Bia Amorim

Bia Amorim

Uma cerveja para cada momento

Gabriel Castaldini

Gabriel Castaldini

Chega de alface!

Marcia Daskal

Marcia Daskal

Antecipe seu jantar