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Quando floriu o cafezal

Por: Bia Amorim

07/10/2019
Quando floriu o cafezal

Já faz algum tempo que espero pela oportunidade de conseguir visitar uma fazenda de café durante a florada. Durante os últimos anos, quando descobria que havia florido não dava mais tempo, não tinha como ir, não podia parar o que estava fazendo e dirigir até um cafezal. Hoje não, hoje deu tudo certo.

Foi as 7h25 da manhã quando o celular vibrou, tinha mensagem. Era Marcio Resende, da Fazenda Limeira em Altinópolis, região conhecida por fazer parte do "terroir" da Alta Mogiana, produtora de excelentes cafés. No final de semana que passou choveu para alegrar e verdejar (ou esbranquiçar) os cafezais por aqui. Já falamos sobre uma visita que fizemos para conhecer o café 6 de janeiro (AQUI), mas era época de colheita.

Em geral é durante a primavera que acontece a florada. Pode acontecer mais de uma vez ao ano, tudo depende de como o clima está se comportando. Mas temos dito épocas bem irregulares e por isso já tivemos mais de uma florada em 2019.

São 23 cidades que estão na região da Alta Mogiana, sendo que 15 cidades são no estado de São Paulo e 8 no estado de Minas Gerais. Daqui de Ribeirão Preto, até a fazenda Limeira, são 70 km em uma estrada de pista simples, mas bem pavimentada, passando por Serrana ou por Batataes.

Primeiro a gente tem que passar por todas as plantações de cana que não são poucas, mas de repente, a paisagem que antes tinha um tom de verde, com folhas cumpridas e sem graça começa a dar lugar para árvores mais baixas, com tons mais escuros de verde. Tem uma parte do caminho que um lado é café e do outro é garapa. Depois que estamos em uma estrada com mais subidas, com mais morros, é ali que o café estará também.

Vire à direita, indicou a voz suave do GPS. Entrei na estrada de terra e só via pequenos arbustos, com pés de café recém-plantados. Depois, mais um pouco à frente da poeira, avistei do meu lado esquerdo, perplexa, um pequeno cafezal, repleto de flores. Parei o carro. Ainda faltavam alguns quilômetros até a sede da fazenda, mas ali eu já estava em contato com a florada, com as pequenas e delicadas florzinhas em formato de estrela.

Desci do carro, fotografei, emocionei e depois continuei mais alguns kms à frente. Morrinho, morrão, morrinho e assim por diante, descendo devagar pelo morro até chegar na Fazenda Limeira. Estacionei e desci, sem precisar andar muito para ser impactada pelo aroma delicioso que vinha da plantação. Não é o cheiro delicioso do café coado que me abalou, desta vez o café me trouxe um outro aroma.

Um privilégio poder estar no meio de tantos aromas, tantas cores, tanta vida em movimento. Pequenas e lindas flores, tão rápidas, tão ligeiras. Um dia nascem e alguns poucos dias depois já estão ao chão, tendo cumprido seu papel no ciclo da planta e da vida.

No calor da emoção e depois de fazer as fotos que eu tanto queria, fui tomar um café na sede da fazenda, já que não dá para negar estar ao mesmo tempo na florada e no coado, pronto e delicioso.

Voltei para Ribeirão com a sensação de ter realizado um sonho sensorial. Ver, sentir e experenciar o café de uma maneira diferente. Sentir o elegante aroma, ver a delicadeza da flor, entender os ciclos necessários de cada acontecimento na natureza.

O ser humano é mesmo sábio, consegue transformar as belezes e os presentes que o mundo nos dá. Espero que daqui muitos e muitos séculos a gente ainda consiga observar o mundo desta forma, ainda tão poética e linda.

Marcio Resende, do Café Seis de Janeiro. Foi meu anfitrião e me ensinou sobre esse período da planta.

Cada detalhe conta. As flores são observadas para entender como será a safra.

O pé pequeno, ainda baixinho, já dá flor.

A sommelière, barista de si mesma, eu, na felicidade de estar no meio desse buquê.



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