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Quando meu marido me pede uma cerveja

Por: Bia Amorim

06/01/2020
Quando meu marido me pede uma cerveja

( A imagem é meramente ilustrativa. Queria uma foto bonita de cerveja e peguei essa nesse SITE. Mas poderia ter pegado da @Pricolares_ )  [Photographs: Mike Reis]

- Amorrrr, pega uma cerveja na geladeira para mim?

Essa é uma frase recorrente entre os apaixonados, companheiros, amigos chegados, os mais íntimos, o cônjuge ou então o garçom e mais atualmente, o sommelier. Troque o “Amor” por “Amigo”, “Querido”, “Chefia” e assim por diante. Quem pede uma cerveja, há de pedir com carinho. Por favor acompanha? Gelo e limão a gente troca por apenas “gelada!”.

Na minha casa, eu que sou sommelier trabalho ainda mais um tanto. Quando meu marido me pede uma cerveja, não é simplesmente a gelada. As vezes uma pilsen visita o eletrodoméstico branco e refrigerado, mas é raro.

- Amorrrrrrrrrr – eu digo de volta. Qual você quer?

- Escolhe pra mim, por favor. (Ele com aquela voz macia) heart

- Você acha que eu trabalhando umas horas dessas? (Eu em uma voz áspera) angry

Aí vem a pior parte. Quando a pessoa resolve que não vai escolher, é então que as energias de Ninkasi derramam sua paciência sobre mim. Ele responde:

- Qualquer uma!

Não existe qualquer “uma” cerveja quando se tem opção. E por isso o complexo mundo dos sabores para quem olha em detalhes é muito cabeludo. Meu marido é careca, ele não perde os cabelos escolhendo cerveja. Eu sim.

- Refrescante, maltada, amarga, azeda ou escura?

É assim que eu começo aqui em casa. Cada dedinho da mão tem uma opção e é como se estivesse fazendo uma contagem. Mas lá fora está quase 35ºC e já são oito da noite. Quem é que não quer se refrescar? Que seja com um copo de água bem gelado ou algo leve e cítrico? O corpo humano já hidratado quer sabor, quer textura, quer aroma, quer um pouco de tudo. E que ainda dê uma leveza na alma.

- Refrescanteeeeee.

- Tá bom – eu prossigo. Cítrica, herbal ou frutada?

- Cítricaaaaaaa.

- Com toque de acidezzzzz?

Já que estou na chuva, agora vou daqui até o fim.

- Sim, você sabe do que eu gosto =)

- Eu bem sei, mas não tem! Tomamos no Ano Novo (risos). Escolhe outra.

- Tá bom, pode ser a amarga então.

Depois que aprendemos a dar valor na eficiência de uma acidez, a gente saliva só de lembrar de algo tão delicioso quanto equilibrado. Um líquido pode ser bem mais do que hidratação e refrescância. Ao longo dos anos, junto do meu marido, da paixão e nossas viagens por aí, treinamos o paladar com muita coisa que algum dia pareceu ousado demais. Cervejas que contavam histórias na Bélgica. Mosteiros cheios de narrativas na Holanda. Brewpubs cheios de arrojamento nos Estados Unidos. Cervejas locais cheias de técnica na Alemanha. Ele é quase tão sommelier quanto eu. Só está com preguiça.

- Vou pegar aquela Session Ipa levinha, pra começar devagar. Achei ela bem boa da última vez que compramos e esses dias estava em uma promoção lá no empório.

Conversa caseira, aquela fofoca sobre compras que a gente faz, falando sobre a economia, alta do dólar, impacto naquele nosso rótulo favorito importado e que só vamos tomar de novo na fonte se viajarmos a R$4,20. Ô saudades de beber direto da nascente. Aquele “terroir” que as cervejas têm, mais no sentido ambientação e técnica do que os ingredientes em si. O terroir que a gente coloca os pés.

Com a cerveja em mãos, uso o abridor que não amassa tampinhas, o mais simples da coleção: prego e madeira. Do armário de copos tiro o americano, que tem escrito “meu outro copo é um Teku”, enquanto o Teku “em pessoa” na prateleira de cima e já conformado, observa mais uma ida do humilde e limpo Americano, tão brasileiro. Estamos em nosso próprio terroir. Beber em casa é levar cerveja para o marido em um dia pós trabalho. É beber junto e rir de uma bolhinhas no fundo do copo, dar uma batidinha e fim.

- Saúde.

Eu ganho um beijinho, o garçom, não.



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