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Que me desculpe o Americano, o Geleia e o Stanley. Aqui em casa no happy hour cervejeiro é o Requeijão

Por: Bia Amorim

06/11/2021
Que me desculpe o Americano, o Geleia e o Stanley. Aqui em casa no happy hour cervejeiro é o Requeijão

O copo Requeijão comporta tranquilamente uma Juicy IPA deliciosa. Tem umas bolinhas ali no copo, você reparou? Mas tá limpinho, juro. Foto: O Enigma da Cidade Submersa HopMundi & Captain Brew, Bia Amorim, 2021

Primeiro de tudo é preciso normalizar que as pessoas bebem cerveja no copo que elas quiserem. Eu estou aqui apenas para registrar que o meu copo oficial® é o Requeijão, assim com letra maiúscula mesmo. Este copo deveria ter um selo de Denominação de Origem Geográfica Nacional Queijeira. Apesar de gostar de geleias (e estar na época de jaboticaba e tantas frutas deliciosas em calda com açúcar) tenho mais daquele copo de vidro que originalmente vem o queijo cremoso, requeijão. Ainda assim no dia a dia é da manteiga que eu gosto mais. O copo Lagoinha, que é o Americano, tem cadeira cativa e vip também, gosto para as cervejas mais intensas, são perfeitos. Mas na sede, preciso de mais espaço.

O mais importante pra mim é que sempre, qualquer seja o copo, que esteja limpo. Pode ser acrílico, vidro, cristal, metal, madeira. O primeiro passo para o sucesso glassware somelele é a higiene. Depois disso podemos partir para questões mais práticas, ir para os paradigmas cervejeiros, atravessar o pântano das opiniões no social medias e seguir adiante até pensar em questões realmente importantes como quem vai lavar essa louça, no final.

O copo Americano é também uma sumidade para se beber cervejas. Foto: Wake Cup Ux Brew, Bia Amorim, 2021

No trabalho que faço em eventos, degustações, produção de conteúdo, palestras e concursos, a conversa pode e deve ser outra, mais técnica e profissional. Nas viagens cervejeiras, especialmente para a Bélgica (ô saudade, ô vontade), eu mergulho de boca aberta na cultura belíssima desse olhar para o copo como ferramenta e um instrumento de evolução na experiência sensorial cervejeira. Falei difícil? Mas quem foi que disse que buscar a quintessência de algo, o cume da montanha do sabor e aroma é para ser simples feito beber cerveja no famoso Requeijão? No trabalho é essa busca constante por encontrar o esplendor, mas em casa é a busca constante por paz. Sem julgamento algum.

Quando o sol amansa e se esconde no muro, lá vou eu para o armário da cozinha. Não temos tempo a perder, é no crepúsculo que eu mais gosto de beber cerveja. O espetáculo do pôr do sol, o brinde a mais um dia, um dia no Brasil, na reflexão dos acontecimentos. Abro a geladeira, olho as garrafas. Tem pelo menos uns 7 estilos diferentes, em grupinhos nas prateleiras se misturam entre as latas, long necks, de cores diferentes de verdes, âmbares, transparentes. Tostadas, maltadas, sofisticadas, leves, amargas, azedas, frutadas, amadeiradas.

Penso “hoje não tô com estômago para uma ácida e complexa, tá quente demais para essa escura e alcoólica RIS, essa Italian Grape Lager é o tipo de novidade que quero beber no sábado, degustando com calma. Vamos mesmo nessa Pale Ale honesta e em seguida uma Juicy IPA mais cítrica”. Lá se foram alguns minutos preciosos com a brisa da geladeira aberta. O céu já deixou de ser laranja. Abre logo essa latinha.

Qual é o seu momento de respirar fundo, dar aquela soltada do corpo na cadeira? O meu é não pensar se a borda do copo é larga demais ou cortada “a frio” no cristal. Se o bocal é largo o suficiente para expandir os aromas tão voláteis, os compostos fantásticos da fermentação, a potência de um dry hopping bem fresco. Não quero que me tirem a paciência com papinho sobre o milho e mimimi.

O copo aqui é o meio de transporte da cerveja. Pode ser divertido, cheio de curvas e um design todo especial. Adoro degustar uma cerveja onde o olhar paira nos detalhes, não descartar nenhuma evidência substancial, analisar com cuidado, resolver questões e solucionar problemas.

“Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras, quando comecei a concebê-las, tornaram-se falsas, quando quis colocá-las sobre o papel.” René Descartes

Tá rolando toda uma tretanomyces sobre o tal copo da Stanley. Não me interesso em criar mais off flavors sobre isso. Se as pessoas curtem o copo e o que ele proporciona, além de pagarem o boleto da compra, sozinhas, eu acho é ótimo. Tenho uma garrafinha de água que o propósito é o mesmo e não vi nenhum sommelier de água falando mal disso. A gente sabe que no fundo, no fundo tá todo mundo com saudade de se encontrar, falar sobre os dramas, abraçar os amigos, falar do copo, falar do estilo, falar do que não foi no passado e o que esperamos do futuro. Se é bolacha, se é biscoito, o que queremos é brindar.

Saúde! E aproveita, pega um outro copo e bebe água também! 

Cogito, ergo sum sommelier. Discurso sobre o copo.



Bia Amorim
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