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Sommelier de vacina

Por: Bia Amorim

05/06/2021
Sommelier de vacina

Foto: Diana Polekhina via Unsplash

Nos últimos 10 anos o Brasil viu uma explosão de sommeliers surgindo em cursos e no Instagram. Estou sendo irônica, se o BRA-SIL-SIL-SIL tivesse visto alguma coisa, talvez os números fossem fatos mais concretos, mas sabemos que ainda não saímos dos dois porcento de mercado que realmente podem comprar uma cerveja artesanal ou que querem beber algo amargo, azedo, frutado ou com textura de veludo em dia de frio (como se apenas houvessem cervejas hype e não clássicos bem feitos, mas a conversa nem é essa aqui). O que o país tem visto, falado e usado é o esvaziamento do significado da profissão, com o péssimo uso da frase “sommelier de....” complete com o substantivo que quiser.

Não que eu esteja criticando, tenho até amigos que são.

No meio da catastrófica pandemia que vivemos, ser brasileiro é comorbidade e ser sommelier é não poder exercer o verdadeiro serviço do servir, por que para isso eu preciso estar entre pessoas sem máscaras. Convenhamos que não há forma segura de consumir uma cerveja com o acessório que nos cobre a entrada principal do produto que vendemos, cerveja. Vamos nos tornando virtuais, falando sobre os sentidos, usando os conhecimentos da comunicação e brindando via Zoom, uma cerveja que não tem aroma na tela.

Em todo canto das mídias sociais a palavra sommelier é adicionada para cutucar, criticar, condenar, malhar, satirizar e desaprovar, além de todos os outros sinônimos que você consiga lembrar. É sobre as pessoas que se dizem expert em alguma coisa, mas claramente não são.

A frase “o Brasil me obrigada a beber” é um alento no coração daqueles que já estão de saco cheio do século XXI e dos problemas que nós mesmos humanos criamos ao longo da história. Mas olha o dilema que eu, como sommelier, tenho em minhas reflexões: ser sommelier é falar sobre a cultura da bebida, convencer na lábia um paladar a beber com mais qualidade, com mais consciência e com temperança. Se a gente tem a comorbidade na genética nacional e se apoia no fato de que beber nos tira essa verdade, a coisa complica.

Foto: Daniel Schludi via Unsplash

Para piorar o cenário e acabar com a reputação de quem realmente exerce o cargo, surgiram os Sommeliers de Vacinas que agora querem escolher qual vacina “tomar”, sendo que a grande verdade é que nem tem vacina para todo mundo. Ainda temos para completar o time pandêmico dos que em nada ajudam, os Fiscais de Comorbidade que estão vendo os mais jovens se vacinarem e serem felizes, mas precisam dos dados técnicos de qual doença esconderam a vida toda, como se a gente precisasse dessas listas.

Claro que surgem as fakes profissões por todo tipo de motivo, tem sim quem fura fila, tem sim a política mostrando quão mórbida é, e ainda mais importante, mostra que a ciência precisa urgentemente ser mais compartilhada e educação tá em falta, mais do que vacina no braço. Todos são motivos para beber, sem brindar. No fundo, somos um fundo do poço e sempre cavando.

Eu vou ao Twitter para dar um pouco daquela risada nervosa que as vezes se perde entre lágrimas por que a verdade dói. Lá é um enorme espaço onde a crítica e o debate estão todos juntos, sem dar chance de ninguém se explicar, 140 caracteres é pouco espaço para o que eu quero dizer. Mas me deixa mais criativa, reflexiva e posso provar. É o boteco possível.

“Depois do fiscal de máscara e o sommelier de vacina, vem aí o detetive de comorbidade.” Tuitou @ibrandao .

Talvez a única dúvida que nos resta em conjunto e sem rivalidade é a de sempre: “Depois de vacinar, já pode beber?

No jornal The New York Times (AQUI), a jornalista Anahad O’Connor entrevistou especialistas na área de saúde que dizem o que nós já sabemos (pelo menos um profissional de [verdade] sommelieria deveria obrigatoriamente saber), que o consumo exagerado de álcool não é bom e reprime o sistema imunológico. Na Rússia, país onde os números de consumo e alcoolismo são bem alarmantes, os avisos eram bem mais severos na questão "vacina + vodka" (AQUI).  A questão é que precisamos entender que o consumo precisa ser moderado, para poder ser um benefício. 

Como uma cidadã comum, vou esperar minha vez da vacina “tomando” a que estiver disponível, pois é assim que cumpro com a minha obrigação cívica, protegendo a mim e aos que estão ao meu redor com o que for possível. Como uma sommelier comum, desejo a todos aqui SAÚDE, seja na vacina, seja no brinde e sempre na vida e que venha junto com democracia.



Bia Amorim
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