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Toma a cerveja mais fresca

Por: Bia Amorim

12/11/2019
Toma a cerveja mais fresca

Antiga fábrica em Ribeirão Preto. Foto: Rafael Almeida

É uma frase de ação, sugestão e indicação. Tome a cerveja mais fresca, tome a cerveja mais fresca, tome a cerveja mais fresca. Tinha o chocolate que repetia sem parar e de maneira a nos hipnotizar, você lembra? Se for da casa dos 30 com certeza pensou aí o nome da marca. Pena que hoje em dia, com meu paladar tão treinado, eu só sinta a gordura hidrogenada dessa açucarada sobremesa com nome de maquiagem ;)

Escrevendo sobre azeites brasileiros dias atrás, descobri que o líquido esverdeado e límpido (mas também provei não filtrados deliciosos) também são do lema “quanto mais fresco melhor”. E fiquei aqui pensando que grande parte de outras comidas e bebidas também. Tem sim coisas que ficam melhor com o tempo, maturando e matutando complexidades que depois nos trazem notas profundas do tempo. Mas pensando bem, talvez a maioria das coisas sejam realmente fugaz. A tabela dos extremos é algo interessante dentro do mundo gastronômico.

A cerveja mais fresca tem menos chances de estar com oxidação, por exemplo. Esta é uma reação química, acontece com o oxigênio e componentes da receita. Eles formam novos compostos, que vão nos contar que isso aconteceu. Neste caso uma nota de “papelão” e chamamos de off-flavors. Em geral, indesejáveis para o sabor final. Existem muitas formas de saber qual a qualidade da cerveja no copo e entender cada uma delas nos faz um detetive, buscando resolver alguns mistérios. Dá para saber que algo está velho, pois o tempo constrói sabores. Qualidade constrói notas deliciosas que nos dão prazer. Coisas mal feitas também constroem sabores que nos fazem caretas.

Com o café também podemos olhar sob essa perspectiva. Comprar o grão do café ao invés do café já moído faz com que você tenha menos sinais do tempo. As notas de chocolate, caramelo, entre centenas de outras que temos, intensidades de acidez e outros detalhes que compõe um café final com mais qualidade são  parte dos resultados de ter uma torra feita a menos tempo.

Não acho que todo mundo precise sentir cada uma das sensações e gostos e aromas que as bebidas têm, mas o fato é que a qualidade lá na frente, a “bebabilidade”, o conforto do equilíbrio, ele é construído tijolo por tijolo. Como especialista, treinada para resolver os mistérios, eu entendo quais são as ações necessárias para que isso se tenha um processo melhor. Como primeira sugestão, digo as pessoas para buscarem mais próximo de casa os produtos que querem consumir. Além de frescor, a economia local também agradece.

Vivemos um período que ainda olhamos as coisas com a visão que a industrialização nos deu. Mas se ver com mais cuidado, existem portinhas perto de casa. Pessoas que fazem um pão incrível, torram o café, brassam cerveja, maturam um bom queijo, colhem frescas verduras, legumes e frutas entre muitos outros exemplos. O azeite português cada vez mais fica longínquo, as cervejas que chegam depois de meses e meses nos navios, os queijos franceses mais frescos, já temos produção aqui. Descobrimos que também somos capazes de nos especializar em querer fazer coisas boas. Então não é na verdade só ser artesanal ou com cara de caseiro. Precisa mesmo, no prato ou no copo fazer jus à fama.

O conceito de mais fresco está ligado a qualidade pois toma menos tempo entre ir e vir e estoque, caminhão, estoque, prateleira, comprar, desembalar, consumir. Qualidade menos devastada. Mas é preciso ter qualidade desde o começo para que isso funcione. Sabores mais elegantes, refrescantes, naturais, aromáticos e leves, são na maior parte das vezes, fruto dessa emoção de consumir as coisas, enquanto elas existem. Aquele verão que passa rápido, mas nos marca para sempre. Foi bom enquanto durou.

Um brinde as chaminés próximas.



Bia Amorim
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