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Tomando partido na cerveja

Por: Bia Amorim

03/11/2019
Tomando partido na cerveja

Foto: Marina Zaharkina via Unsplash 

Em épocas como a que vivemos, estamos sempre de um lado ou de outro. No oito ou no oitenta. Andei pensando muito sobre isso. No fim será que todo mundo só quer IPA? Sou sommelière formada no primeiro ano em que o curso chegou ao Brasil. Um punhado de gente se formou naquele ano, foi bem no finalzinho de 2010. Nasciam os primeiros profissionais do serviço e do gosto cervejeiro no país.

Muita gente já batalhava ou brassava no mercado, já existiam as ditas fábricas artesanais e tudo caminhava como o destino queria. A cerveja trigo parecia que era o partido da época. Todo mundo citava as alemãs e as conversas de boteco incluíam algo assim: “Fulano trouxe da Bélgica uma cerveja muito exótica, vocês não acreditam na cerveja como ela é azeda”o outro respondia “que loucura, ouvi dizer que tem até com fruta”. Parecia apenas um sonho distante.

Tomei muita cerveja de trigo e tive a sorte de passar uma noite em uma pequena cervejaria de bairro em uma vez quando fui pra Alemanha. Aquele sabor equilibrado que mistura trigo, malte, lúpulo e fermento. O resultado desse casamento tão único é uma identidade forte. Parecia que seríamos do mesmo lado para sempre. Estava encantada no discurso com palavras de difícil pronúncia. Mas foi um algo mais que marcou. O joelho de porco realmente combina com doppelbock, brindava gritando prost!. Gostava da mistura de salsichões com uma belíssima helles. Tomei o partido da Helles em diversos momentos da vida. E você?

Com algum tempo de mercado e estudando história, me vi no dilema de mudar os rumos sensoriais para ampliar meus horizontes e acabei nas bordas da boa e velha, honesta e sem firulas, sem carbonatações e azedumes, cerveja inglesa. Com uma certa rigidez na economia de lúpulos, mas sempre inteligente cerveja britânica. Me encanta muito como a construção dos maltes e castelos por ali é bem-feita. Para estômagos judiados, a cerveja ser “flat” ou quase, agrada. Capricha no álcool, pois já não ia ter muita coisa de espuma com esse ABV mesmo. Respeito demais pelo surgimento dos ícones cervejeiros, amados, idolatrados, seguidos e reverenciados estilos IPA, Stout, Porter e alguns menos conhecidos, mas verdadeiras joias como Brown Ale e ESB.

Metida a besta que fiquei com um leve conhecimento cervejeiro, quanto mais eu estudava, mais acabava caindo em assuntos sobre fermentação, cerveja viva, cerveja com alma, artesanal, exclusivas. Complexas mudanças, transformações mágicas, aromas indescritíveis, intensidades fenomenais. Loucura e liberdade são algo muito conectados com o resultado que uma cerveja causa na gente. Buscamos isso, não é mesmo? Pois assim tomei partido dos belgas e suas belas cidades, gastronomia e cervejas. Que Deus abençoe o rolê e os monges que trabalham em lindos monastérios em ruas calmas e paisagens medievais. Com ícones como Red Flanders, potências como Dubbel, Dark Strong Golden Ale entre outras, me traz esse pedaço de queijo. Sivouplait.

Achando que achava, fiquei me achando. Caí no conto do story telling e achei que já manjava alguma coisa das nomenclaturas cervejeiras, achei que estava tudo OK e me iludi buscando novas frutas tropicais além do meu jardim, nas Américas. Descobri que copiamos o homem que copiava. Tomei o partido dos americanos, que estavam desdobrando receitas antigas e estudando paleologias gourmets. Revolucionaram tudo, eletrizaram o mercado, enlataram os gostos e adaptaram todo o necessário. Simpatizei com eles e como não amar? Receitas bem desenhadas, equipamentos bem limpos, criatividade à flor da pele e sem regra para brilhar. Quantos copos partidos. Tomei as clássicas, mas com lactose. Solvi as límpidas, mas centrifugadas. Bebi as azedas, mas “umburanadas”.

Depois que passei por tantos copos, percebi que não tinha tomado o de casa. Tomava no copo americano, que era brasileiro. Confuso. Mas acabei pesquisando e buscando e agora reciclando tudo que aprendi. Tomando as cervejas de perto, percebi que a elegância está na delicadeza que só a proximidade tem. Aquela coisa de sermos íntimos, bem próximos e entender os valores da cadeia toda. É assim com praticamente tudo. A economia local melhora, meus amigos também conseguem provar. Tomei o partido do perto. Olhei o cervejeiro caseiro e sua criatividade. O hobby como descanso, na produção a diversão e o troféu no resultado. Uma disputa própria lote a lote.

Uma sommelière sem partidos me tornei. Melhor assim, cabem as cervejas da promoção, cabem as cervejas com histórias peculiares, as criatividades muitas vezes “over” mas excêntricas e divertidas. Sempre vai ter um clássico a ser respeitado, uma especial para determinadas ocasiões. E assim meu voto vai para as cervejas que melhor se encaixma no ambiente, no bolso, no momento, na música, na comida ou nas companhias. Um brinde a liberdade.



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