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Um bar nunca é silencioso

Por: Startup Brewing

26/02/2021
Um bar nunca é silencioso

Vazio e silêncio Foto: John Matychuk via Unsplash

Bia Amorim para Startup Brewing

Que saudades do bar. Dos barulhos que o bar tem. O movimento ofegante do garçom que dribla cadeiras, desvia de quinas e se esguia da clientela. O balcão de mármore que recebe os copos de vidro e tilintam entre si em um brinde vazio. O liquidificador batendo um suco de maracujá com muito gelo. A coqueteleira do barman que sacode cheia de gin. As panelas salteando entre o fogo e o ferro no fogão. A coxinha que borbulha na gordura quente de uma frigideira.

Um bar nunca é silencioso. Mesmo no fim da madrugada, quando a porta de metal barulhentamente é baixada, as geladeiras solitárias ficam ronronando como gatinhos felizes. O motor da refrigeração nunca pode parar.

Em épocas como a que vivemos, com saudades de ir a um boteco, única possibilidade é buscar um chope, ouvir lamúrias e o som digital do crédito ou débito na maquininha. Não tem batata fritando, não tem aquela campainha de inox da cozinha chamado desesperadamente o serviço do salão buscar o bife que esfria na boqueta. Só uma música de fundo, para trazer harmonia ao vazio e abandonado salão.

Nem mesmo podemos ouvir, sem querer, uma confissão secreta da mesa ao lado, quando alguém já ébrio demais desabafa e bate na mesa o copo vazio, apenas rendado com a espuma do chope, gritando, mais um.

Em dia de jogo, a Tv ligada compete com as histórias do escritório, as discussões sobre política são interrompidas pelo ambulante que vende DVD´s de filmes que ninguém mais tem aparelho para rodar, não há mais mar para piratear. Aos finais de semana, aquela música ao vivo com o cover de algum violão, que saudades das batidas desafinadas, isso me causa uma imensa dor.

O casal em clima de romance é dispersado quando o garçom com pressa lança a ruidosa travessa. Chegou o torresmo e com ele o crocante delicioso que quebra qualquer silêncio de novela, ou um dente. O barulho do bar tem vida, tem corpo, quase tem cheiro de tão sensorial que se torna, ao abraçar seus altos volumes.

Saudades da algazarra, de reclamar do barulho, de desviar o olhar a cada salto que o som dá. No silêncio da minha casa vou buscar dois copos para fazer o barulho de brindar, rezar para isso acabar e desejar saúde para sobreviver e voltar para o bar.



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