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Um copo todo seu

Por: Bia Amorim

01/02/2021
Um copo todo seu

Fábrica antiga em Ribeirão, Torre da Cia Paulista. Foto Rafael Almeida

Quando eu comecei estava tão animada com o novo trabalho, tinham tantas pessoas legais ao meu redor, os sabores eram tão novos, vívidos e diferentes que eu nem percebi. Não me perguntei. De maneira política, como era o setor cervejeiro?

Ao longo de 10 anos eu respondi a fatídica pergunta “como é ser mulher e trabalhar no mercado cervejeiro?”

Nos primeiros anos era divertido. Eu tinha muito colágeno para gastar, fígado para desgastar. Mas em determinado momento já não queria mais falar sobre aquilo. Eu havia descoberto outras coisas interessantes e não me interessava mais falar sobre a mulher no mercado cervejeiro. Quando alguém fala A MULHER será que está falando de mim? Somos tantas, as mulheres. Como é ser mulher no mercado cervejeiro? Que pergunta triste. Me sinto só, a mulher. Somos plurais.

Que a Bélgica é conhecida por suas cervejas todo mundo sabe. A gente fica achando que eles entendem tudo de cerveja, respeita a história, os estilos, os sabores. Eu estava por lá em um inverno de 2015, não fui a trabalho. Estava a passeio com meu marido por alguns dias apenas antes de seguir para nossa rota romântica, que tinha a gastronomia como foco principal da viagem. Em Bruxelas entramos em um desses bares que parecem cena de filme. Um clima escuro, pessoas no balcão, os casacos pesados pendurados tranquilos em um canto, copinhos pequenos, copinhos grandes. A madeira era gasta por todo lado. Fiquei fantasiando sobre todas as coisas importantes que ali aconteceram, as conversas, reuniões, decisões.

Tinha meia dúzia de gente, aquele som incompreensível de uma língua nova, excitante. Olhei para a lousa velha com a carta escrita em giz, meu coração foi de 70 até 120 bpm em uma salivada. Eu estava em um autêntico bar belga que tanto havia lido e ouvido falar nas aulas sobre escola cervejeira. Eu estava feliz. Pedi para começar uma lambic, pois era aquilo que eu havia sonhado por tanto tempo. Meu marido foi até o balcão e com as moedas em mãos fez o pedido de duas cervejas, uma witbier e uma lambic. Eu ainda olhava para as paredes meio boquiaberta e tonta, sentindo o cheiro do ambiente. Registrando tudo em minha mente para um dia contar esse momento histórico que vivi.

Aquele copão grande, o Tumbler, cheio da cerveja branca e turva (que não era uma NEIPA, pois ainda não tinha sido inventada, rs) chegou em minha direção. Não sei se vocês já sacaram qualé da história, mas o serviço foi trocado. Assim que trocamos os copos, a mulher vira para o meu marido e diz “essa lambic é azeda para ela”. Eu sorri, olhei para ela e disse o quanto eu gostava. Bedankt.

Dentro de mim a pergunta: O quão atrasados ainda estamos aqui moça? Só faltava fazer como no Brasil, que em pleno século XXI, ainda tem homem produzindo cerveja rosa, para mulher. Eu esperava mais de um país cervejeiro. Na verdade, eu não esperava nada. Ali apenas me decepcionou demais ser tratada como um paladar tão delicado que não aguentaria o azedume do líquido. Mas isso é o normal, pois foi normalizado.

Na rotina da vida, as mulheres que bebem cervejas muitas vezes são servidas com o copo de caipifruta do parceiro. As mulheres que escolhem os vinhos não raras vezes são servidas depois que o homem (em alguns lugares o serviço faz um prova que para quem fez o pedido). Uma água e um chope IPA, ....bom estamos falando disso, ficou óbvio que não podemos escolher a cerveja ou o vinho, um drink ou mesmo o café.

Em 2016 acordamos. Será que na Revolução Industrial, pleno século XVIII subimos até o último andar da torre da fábrica e ao olhar o trigo seco espetamos nosso dedo em uma maldição? Tudo seria tirado de nós. Os caldeirões de ferver o mosto. Os ingredientes de amargar a bebida. O fermento que trazia uma vida inexplicável, saborosa e atraente. O dinheiro para comprar a bebida. A ciência que o mito trazia. A maldição que duraria séculos adormeceu as cervejeiras, Wife Ale, devotas de Ninkasi, alunas de Hildegard Von Bingen. Nos deixaram apenas os gatos, para fazer companhia.

Em 2016 fui eu que acordei na verdade. Tem muita gente já desperta. Toc-toc. Como isso não se trata de um conto de princesa, não tinha príncipe não. Estamos falando de comunidade, suporte. Um lugar onde a cerveja e a mulher não são esteticamente como acreditam que ela precisa ser. A cerveja E.L.A foi esse projeto que eu tanto falei em outros textos. Foi quando descobri outras de mim, livres, soltas e quem queriam ser, ou pelo menos descobrindo. Pudemos nos perguntar; como somos nós no mercado cervejeiro? Quem somos nós aqui? Qual nosso papel? Que efeito tem na vida de outra mulher, ver mulheres fazendo o que querem? Bebendo o que lhes agrada? Brassando o que quiser? Empreendendo como puder.

O título desse texto não foi escolhido à toa. É apenas agora em 2021 que estou lendo Virginia Woolf e seu livro Um teto todo seu. Que escrita, que fluidez. Diria drinkability se fosse uma cerveja. Ácida, claro. Complexa, com certeza. Fácil? Não, para que? Virginia tem me ensinado tanto que resolvi falar sobre aquilo que já falava, mas muitas vezes sem registrar. Ela diz “somos detidos pela escassez dos fatos.” E eu pensei, certamente! Como é difícil achar registros históricos com fatos ligados as mulheres. Tem, mas tá faltando!

Uma conversa entre mulheres empreendedoras, Soul Botequim, 2019, organizado por Eisenbahn. Foto: Mariana Smania

A manchete atual dizia “A cerveja foi inventada pela mulher!”, em outra matéria “O papel da mulher no mercado”, em outra a dúvida “Cerveja é coisa de mulher?”. Uau! Como a gente tem destaque na mídia. Meu ego berra de alegria e saltitante curte essa luz dicroica de 50W que estoura minhas pupilas de coleópteros. "Parece que o jogo virou não é mesmo?" Essa frase de lacração pode até parecer bem usada para este momento. Mas agora eu vejo diferente porque não vejo textos com as manchetes “A cerveja foi bebida pelo homem!” e nem “Qual o papel do homem na cerveja” ou até “Cerveja é coisa de homem?”. Entendeu meu ponto aqui? Acha que é exagero? Pois se você é mulher, talvez sinta exatamente igual ao que eu sinto, ou apenas ainda não percebeu. Se você é homem e tá resmungando, abre uma cerveja e apenas entenda. Se possível, apoie. Brinde e beba. Mas entenda.

Aqui, especificamente neste texto, não quero trazer o complexo e triste fato que, em geral, não se sabe beber. O álcool continua a intensificar preconceitos, levar aos extremos e sabemos que na mão de muita gente é uma arma, principalmente contra as mulheres. Os fatos, eles estão todos aí (e aqui).

Quando a Virginia Woolf escreveu seu livro em 1928 as coisas estavam diferentes. Ela mesmo fala sobre as mulheres de antes de sua época, fazendo recortes e contextualizando o tema. Aqui, com sua inspiração, a ideia é a mesma. Questionar a cultura imposta, desconstruir estéticas plastificadas em narrativas que não nos pertencem. Te muita gente nova chegando, organizar a casa para receber as pessoas é algo que a hospitalidade nos ensina. Que as pessoas possam se sentir confortáveis, amadas, aceitas, queridas e esperadas naquele lugar.

Digo isso porque acredito que passamos como mulheres por muitas coisas. Olhamos nossa história como um mesmo fio, tecido pouco a pouco por cada uma das pessoas que estão a mudar o mundo, mesmo que não vejam o resultado disso. Eu tenho orgulho de ser mulher e estar neste mercado das leveduras, da fermentação do grão, da potência do lúpulo, da subjetividade dos adjuntos, da natureza em plena ação e reação. Esse é um mercado de gente.

Como já disse um amigo, a cerveja pertence a todos. E por isso precisamos entender que a cultura é fundamental para passarmos por esta época. Deixarmos os legados para que, no futuro, as mulheres sejam parte integrante e fundamental da cerveja como sempre foram, e ainda mais conscientes do papel que temos, em conjunto, e em comunidade, para trazer os consumidores para esse mercado. Precisamos debater sobre a inclusão em si.

Espero que as mulheres do mercado cervejeiro possam um dia beberem serenas, sem precisar dar explicação, sem terem medo, sem traumas, sozinhas ou com quem quiserem, com a roupa que se sentirem à vontade, com a mesma tranquilidade que bebe um homem. Que falem sobre o que elas fazem e não apenas o que são.

Nosso papel é continuar o processo evolutivo que a vida nos impõe. Mais do que falar sobre gênero, é preciso falar sobre as responsabilidades do que fazemos. Educar o consumo. Entreter o paladar. Estudar a sustentabilidade. O consumo político. Tem muita coisa a ser feita. Vamos todos erguer essas mangas e trabalhar em harmonia.



Bia Amorim
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