Make Maize Great Again

Make Maize Great Again

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milhos ancestraisMilhos ancestrais. Foto: Vera Mexicana

Você, caro leitor, que conhece um pouco mais este autor, sabe que, por força do hábito, meus textos são muitas vezes ácidos. Pior, sabendo que não sou muito fã das expressões gringas, tem alguma coisa por trás deste título… Tais ligado, né? E sim, tem mesmo! Mas calma, explico!

Aquela frase “bonezistica” acima é o uso bem humorado da original que dá arrepios. Make America Great Again (M.A.G.A.) foi (ou é) lema do movimento conservador dos gringos da “Norte América”.  A ideia era resgatar aquele E.U.A. imperialista, grande potência mundial, onde os caucasianos tinham maior possibilidade de ter uma vida econômica superconfortável. Havia muito mais dinheiro rolando por lá, e é bom lembrar, o Apartheid garantia também que parte importante da população não competisse tanto pelas benesses que o “Estilo de Vida” de lá estava conseguindo ofertar. O Império está decadente, o “Way of Life” segue erodindo e isso pode até levar, dizem alguns analistas, a uma segunda Guerra Civil. 

Por sorte e com toda sagacidade a civilização humana tem, existe uma fase de reciclar a frase. Claro, na base de muito deboche, mas sempre com um fundinho de verdade também. Verdade no intuito de resgatar algo que, em sua realidade, possa ter perdido algum espaço. Outro dia, acabei vendo alguém de Sampa no Insta usando um boné verdinho com o “Make Coentro Great Again”, genial. Afinal, vale lembrar, grande parte dos sudestinos criou aversão ao coentro. Uma baita maldade. 

Me atribuindo a mesma liberdade, na sagacidade e sarcasmo, vou transformar o M.A.G.A. em M.A.Z.A., é! Isso! Em Make Maize Great Again. Ou melhor, Faça o Milho Grandioso Novamente. Frase longa né, nisso eu tiro o chapéu, o Inglês é uma língua boa para ilustrar bonés.

O ponto é, bora retornar o milho para seus dias de glória no universo da cerveja?

Neste momento você deve estar pensando que passei do ponto. Da onde esse maluco tá tirando que o milho já foi grande na cerveja? Milho é coisa de cerveja ruim, de quem não respeita a LEI DE PUREZA REINHEhegduygwegwrgfuikcwajropjkgkhbvaghadasghITSGEBOT!

Pô jovem… Chega aqui, vamos conversar. Eu também já cai nessa cilada. Imagina… Eu, pobre cidadão, usual consumidor de cerveja artesanal em Floripa, na saudosa Academia da Cerveja do Eli Júnior, lá pelos anos 2000 e lá vai pedrada, ouvindo as propagandas da Eisenbahn? Ou o discurso subsequente da indústria de cerveja artesanal muitas vezes embarcando nessa fase nebulosa? Quem não tem esse esqueleto no armário? Poucos…

Ilustração da evolução do milho da direita para a esquerda. Imagem: Vera Mexicana

Haz que el maíz vuelva a ser grandioso

Gente, o milho tá na cerveja, como malte, faz mais de 5 mil anos se bobear. Até hoje, a cerveja ancestral mais antiga DO MOTHER FUCKER WORLD INTEIRO que continua a ser feita, leva malte de milho entre seus ingredientes. Sim, estou falando da Chicha, mais especificamente da Chicha de Jora.

Essa cerveja existe desde os tempos pré-Incas. Prosperou no Império Inca e sobreviveu a invasão Espanhola. Até hoje é produzida e consumida, principalmente na região andina do Chile, Argentina, Equador, Peru e Bolívia. Possivelmente foi produzida também em todos os outros países da América do Sul, mas o extermínio massivo dos povos originais após a conquista e genocídio por europeus, levou a perda desta cultura.

Para nossa sorte, existe um movimento sul-americano de fortalecimento do uso de milho no ambiente contemporâneo da cerveja. Hermanos do Peru, Equador, Colômbia, Costa Rica e até latinos radicados nos E.U.A. discutiram em um webinar o “Despertar da Chicha na América”. Participei como ouvinte, e está claro como estamos atrasados (aqui no Brasil) nessa discussão de retorno. 

E não se resume ao uso de malte de milho para produção da Chicha, vai além disso. O malte de milho vem sendo testado por hermanos na releitura de estilos clássicos, mas usando o malte de milho.

As opções são gigantescas. Desde retorno a ancestralidade e produção deste estilo de cerveja espontânea (Chicha), a modernização do estilo, que vem sendo feito por cervejeiros que participaram do webinar citado acima ou mesmo, das releituras. E pode ir além, afinal, existem diferentes milhos locais que poderiam, por si só, dar origem a novas cervejas. E não são poucas as variedades.

Faça o Milho Grande Novamente

Falei isso no Congresso “Cerveja é Gastronomia” (da ABRACERVA e SINDICERV) em junho e repito: a gente deveria gastar mais nosso tempo (e dinheiro) buscando usar diferentes maltes de milho (locais e nativos) para produzir cerveja, do que gastar rios de dinheiro com produção de lúpulo. A última é uma planta que precisa ser totalmente adaptada ao clima local, tudo a um custo ambiental e econômico alto. Muitos produtores implantando irrigação, uso intensivo de agrotóxicos e por aí vai. Não é fácil.

Não, não sou contra o desenvolvimento do lúpulo nacional. Não me batam lupolomaníacos! Bem pelo contrário, em uma de minhas marcas, a Cozalinda, vamos para o segundo ano de uso de lúpulo nacional em nossas receitas e pretendemos que 100% do lúpulo usado seja nacional, isso ali por 2023 ou 2024. Isso que estamos falando de lúpulo de Santa Catarina, o mais próximo possível. Resumindo, sou favorável e patrocinador dessa nacionalização como mais um ingrediente nacionalizado.

Questão é, estrategicamente falando, milho é muito mais importante. Seja como forma de se ver independente da importação de cevada, seja como ponto de estabelecer a criação de um malte genuinamente brasileiro tá aí batendo a nossa porta, chamando a gente pra festa, pra balada… Isso desencadearia em cervejas originais e inéditas, algo que os mercados para os quais podemos exportar, é uma boa. Milho, pra variar, agronomicamente falando, é mais simples, muitas vezes já está adaptado ao clima local, demanda menor investimento econômico e ambiental, sem falar que viabiliza até, malte orgânico. Sem falar que é propício para ser produzido por pequenos produtores, o que inclusive gera maior distribuição de renda e menor êxodo rural.

Mudanças no milho diversidade e adaptação. Fonte: Genetic Literacy Project

E vale dizer, o Brasil é a milênios, centro de desenvolvimento de variedades de milho. Na mesma época que se estabeleceu a domesticação do milho na América Central, ali pelo Acre e Rondônia, houve ao mesmo tempo outra onda de domesticação deste cereal. Tanto que a Expansão do Povo Aruaque (e sua língua) podem ter ocorrido pelas Américas do Sul e Central, através do domínio da domesticação do milho (e outros vegetais)

Estudos genéticos apontam que vários milhos endêmicos do Brasil, os quais se originaram desta ação antropocêntrica desencadeada pelos povos originários. São milênios adaptando milhos aos mais diversos climas encontrados na América. Seja andina, seja central, seja do sul e até mesmo, do norte! Pois é, até povos originários da América do Norte usufruíram da domesticação dos milhos ali no Acre.

Por essas e outras que a gente deveria encomendar uma leva de bonés com o M.A.Z.A.. Não como um movimento apenas sul-americano, mas americano, como um todo. Vai dar até escala na produção de boné e de cervejas originais. Tá na hora da gente olhar para o passado para chegar no futuro com algo realmente inovador. Bora?

 

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