Por uma cerveja brasileira protagonista

Por uma cerveja brasileira protagonista

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O que é uma cerveja brasileira? É apenas aquela produzida nas fábricas do país? Quando digo brasileira, refiro-me a uma identidade, uma formação de paladar que reflete nossa cultura mais contemporânea. É sobre criar as conexões inéditas, valorizando a diversidade do paladar, interpretando a natureza ao nosso redor, como ato cultural e gastronômico. O gosto autêntico do que hoje entendemos como uma expressão nossa no mundo.

Um tanto quanto romântico, mas esse discurso não é novo. Essa vontade de mostrar ao mundo nossas qualidades por meio da gastronomia sempre esteve rondando as civilizações, desde que somos coletores.

Para sermos protagonista, como cerveja brasileira, é necessário refletir sobre quem somos, quem fomos e quem queremos ser. Precisamos de um novo movimento que traga mudanças, com pensamentos mais maduros e consistentes, mais profissionais, mais especializados, maturados. Devemos explorar novos caminhos e nos adaptar a novas influências, sem temer os riscos de mudanças que são significativas.

Estamos falando de cerveja aqui. E ganhar espaço em um mercado que beira o que parece saturado não é fácil, mas queremos ser protagonistas, pois ainda é possível sonhar grande. Como cerveja, bebida. Como sabor, Brasil. Mas quem vai criar essa identidade? E por que devemos seguir esse caminho? Quais são as transformações são necessárias, quais já forma feitas? Eu tenho mais perguntas do que opiniões. Mas já juntei um bocado de pensamento sobre o assunto, estou sempre ruminando essas questões.

 

Massimo Montanari disse que “Comida é um ato cultural”. Então reforço que bebida é um ato cultural também!

 

Olhar pela fechadura: cerveja belga

Eu amo as cervejas belgas. Amei desde o primeiro gole. Mas foram inúmeras as garrafas até conhecer tudo que podia, até agora. E a lista do que falta conhecer ainda é grande! Pretendo voltar lá mais vezes, conhecer mais lugares, mais cervejarias e provar todas suas fermentações inusitadas, saber das histórias que são armazenadas em garrafas.

Aliás, já faz algum tempo que muitos rótulos belgas não chegam mais ao mercado brasileiro (ainda tem alguns clássicos que são fáceis de encontrar). Algum tempo atrás o mercado mudou, a cotação do dólar mudou, as coisas mudaram e começamos a beber mais cerveja nacional do que importadas. Segundo o Anuário do Mapa 2023, a importação brasileira de cerveja segue em queda desde 2019. E foi no ano de 2018 que bateu seu recorde de volume trazido de cerca de 27 diferentes países.

Para os belgas, a cerveja é motivo de orgulho, é parte da sua gastronomia, símbolo histórico e cultural. Orgulho inclusive religioso, com monges produzindo cervejas que hoje são icônicas em um pequeno “clube trapista”.

A questão aqui nessa pequena fechadura e recorte, é olhar para isso com a beleza e sinergia que queremos por aqui. Lá se foram séculos e séculos e idas e vindas de diferentes acontecimentos, suas três línguas oficiais, as regiões de Flandres, Bruxelas e Valônia e todo o seu clima oceânico e suas temperaturas amenas.

Como é que só de beber uma cerveja belga eu me levei a conhecer um pouco de geografia e parte da história de seu país? O interesse líquido e verdadeiro por mergulhar em um copo tão interessante de absorver, sabores e sabores belgas. Um dos motivos para falarmos mais, filosofarmos, pesquisarmos, produzimos, provarmos mais. E sobre isso narrar as histórias, vendermos nossos sabores, brindarmos a cerveja brasileira.

 

Um recorte na história

O famoso Movimento Modernista na década de 1920 trouxe um olhar novo para o que seria a cozinha brasileira, e foi ganhando visibilidade com os artistas que, em seus encontros e festas, colocaram também a gastronomia no debate que faziam. Estudou-se a formação dos hábitos alimentares do brasileiro, e nesta época, também havia o debate sobre o que era ser brasileiro. Alguns dos tópicos que esses pensadores discutiam e que têm intersecção com os temas da gastronomia são os seguintes:

 

– Valorização da cultura popular e regional;

– Descobrimento e uso de ingredientes locais;

– Resgate e reinterpretação de receitas tradicionais;

– Influência de personalidades;

– Promoção da identidade nacional;

– Impacto na educação e na pesquisa culinária;

– Ajuda a projetar essa identidade no cenário internacional.

 

Buscando um pouco mais sobre o assunto, encontrei críticas de pensadores ao longo da história e é interessante perceber como, a cada época, fomos olhando para o Movimento de formas diferentes. Vale lembrar que o contexto da ocasião era de outro, e o centenário que viviam, foi da Independência do Brasil de Portugal. Existia a necessidade latente de pensar no que o país havia se tornado.

Recortei algumas falas que achei importantes trazer aqui, de um artigo do site Amazônia Latitude, mesmo que de forma mais solta e sem tecer tese alguma!

> “O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligentsia nacional.” — Mario de Andrade (1942)

> “A Semana de Arte Moderna não criou uma escola com regras, não impôs uma técnica, não formulou um código. Mas formou uma consciência, um movimento libertador a integrar nosso pensamento e nossa arte em nossa paisagem, no espírito de nossa autêntica brasilidade.” — Menotti del Picchia (1977)

Atualmente temos novos estudiosos falando sobre um Brasil mais múltiplo e diverso.

> “O consenso hoje entre os especialistas é que existia uma pluralidade de modernismos. Diversos movimentos, ocorridos em épocas e lugares distintos, que juntos constituem o grande panorama de modernização cultural. A ideia do modernismo como movimento unificado é ultrapassada. A ideia de que a Semana de 22 foi o marco inicial do modernismo não se sustenta mais. Isso é uma historinha para ludibriar leitor de enciclopédia.” — Rafael Cardoso, historiador e crítico da arte

> “Isso só é possível se superarmos a busca da brasilidade como meta em si. Esse negócio de provar que o Brasil é maior e melhor em tudo não passa de ressentimento e complexo. O grande erro da facção vitoriosa do modernismo foi de se aliar ao Estado Novo e à afirmação do Brasil unificado e normativo. A riqueza da cultura brasileira está nas diferenças.” — Rafael Cardoso

> “O debate sobre identidade nacional é o grande fardo brasileiro.” — Aldrin Figueiredo, antropólogo e professor de História da Universidade Federal do Pará (UFPA)

> “Conhecimento pode nos empoderar, pode ser o começo de ruptura com esse ciclo de exploração ancestral.” (aqui) — Itamar Viera Junior

Nossas bebidas evoluíram com o tempo; e nenhum produto é imune às mudanças tecnológicas, culturais ou legislativas. Se resistimos às mudanças, perderemos nossa liberdade, ficando presos ao passado e somente lá.

 

Repertório nacional

A construção da cerveja contemporânea deve considerar as histórias de todos os Brasis. Devemos ampliar nosso repertório com estudos, pesquisa, inovação, fermentação e degustação. Adicionar camadas de diversidade e autenticidade, e valorizar nosso produto. Sem ufanismos, mas com um pouco de otimismo.

Interpretação da natureza em um ato cultural.

Não precisamos nos limitar a questões geopolíticas, mas por exemplo considerar os biomas para entender a natureza e suas necessidades, pode ser um ponto de partida. Podemos adotar perspectivas regionais e reconhecer como cada povo aqui nos representa. Devemos valorizar as várias expressões e sotaques que nos compõem. Um Brasil bebível em toda sua complexidade: território, dialetos, tradições, religiões e culinárias.

E haja história de fermentados por aqui. Dos povos nativos aos que foram chegando junto com a colonização e toda essa miscigenação de povos que o território passou e passa.

 

Cervejarias com diferentes dialetos nacionais

Comecei pensando em colocar uma dúzia de cervejarias que eu conhecia e que já fez algo com algum gosto de Brasil, e conforme eu ia pensando em estilos brasileiros, frutas endêmicas, madeiras nacionais, levedura manezinhas, lúpulos plantados aqui e a criatividade incrível dos cervejeiros e cervejeiras brasileiras, a lista cresceu um bocado mais. E podia ser maior, já que temos muitas fábricas fazendo cerveja artesanal hoje em dia, entre pequenas e grandes são 1847. Conhece todas essas 53 da lista abaixo?

      • Ade – Castro (PR)
      • Água do Monge – Guarapuava (PR)
      • Alforria – Vitória da Conquista (BA)
      • Amazon Beer – Belém (PA)
      • Armada – Florianópolis (SC)
      • Avós – São Paulo (SP)
      • Blumenau – Blumenau (SC)
      • Bragantina – Bragança Paulista (SP)
      • Caatinga Rocks – Maceió (AL)
      • Cathedral – Maringá (PR)
      • Colombina – Aparecida de Goiânia (GO)
      • Colorado – Ribeirão Preto (SP)
      • Cozalinda – Florianópolis (SC)
      • Cruls – Distrito Federal (DF)
      • Dádiva – Várzea Paulista (SP)
      • Dado Bier
      • Devaneio do Velhaco – Porto Alegre (RS)
      • Dogma – São Paulo (SP)
      • Dude Brewing – Caxias do Sul (RS)
      • Escafandrista – Piracicaba (SP)
      • Ewan – São Paulo (SP)
      • Falke Bier – Nova Lima (MG)
      • Fermentaria Local – Jarinu (SP)
      • Fermí – Florianópolis (SC)
      • Funky Folks – Ribeirão Preto (SP)
      • Hill Beer – Belo Horizonte (MG)
      • Lohn – Lauro Muller (SC)
      • Louvada – Campo Grande (MS)
      • HopMundi – Natal (RN)
      • Quatro Graus – Rio de Janeiro (RJ)
      • Marek – Charqueadas (RS)
      • Morada Cia Etílica – Curitiba (PR)
      • Nacional – São Paulo (SP)
      • Pestana – São Paulo (SP)
      • Piwo – Venda Nova do Imigrante (ES)
      • Prisma – Campo Limpo Paulista (SP)
      • Prússia – São Gonçalo do Rio Abaixo (MG)
      • Quinta do Belasca – São José (SC)
      • Ruradélica – Porto Alegre (RS)
      • Salvador Brewing – Caxias do Sul (RS)
      • Schornstein – Pomerode (SC)
      • Suricato – Porto Alegre (RS)
      • Tarantino – São Paulo (SP)
      • Tarin – Nova Lima (MG)
      • Tábuas – Campinas (SP)
      • Trilha – São Paulo (SP)
      • Tupiniquim – Porto Alegre (RS)
      • Uçá – Aracaju (SE)
      • Xamã – Curitiba (PR)
      • Way Beer – Pinhais (PR)
      • Zalaz – Paraisópolis (MG)
      • Zapata – Viamão (RS)
      • 5 Elementos – Fortaleza (CE)
      • 3 Orelhas – Gonçalves (MG)
      • Yarum Fermentados – Cassia dos Coqueiros (SP)

 

Sabor de destaque

Não há conclusão aqui, e não deve ter pois esse é um debate que deve se manter quente, em banho maria, discutido sem pressa e sem entraves. Fluindo com o tempo. Você não gostaria de sentir orgulho quando alguém disser que bebeu uma deliciosa cerveja brasileira? “Feita aqui mesmo”.

Dá para descobrir o sabor de um produto que é fruto da natureza, do tempo e da cultura? A valorização de nossa identidade através da cerveja é um caminho sem fim, uma jornada contínua para celebrarmos nossa diversidade e autenticidade, brindarmos nossos rituais e passarmos um novo conhecimento à frente. Falamos de contexto cultural e contextualização histórica para pensarmos novos estilos brasileiros de cerveja, trazendo ainda mais formas de falarmos sobre a cerveja nacional e quem sabe trazer mais tijolos para essa construção do protagonismo que traz o título deste artigo.

Vale lembrar que não precisamos parar de beber estilos deliciosos de outras escolas do mundo. As prateleiras estão cheias de oportunidades e diferentes olhares. Dos mais tradicionais rótulos de Alemanha, Inglaterra e Bélgica, e os já enraizados Estados Unidos, aos novos inovadores sabores de Brasil, Japão, Argentina, Nigéria, Austrália, Chile, Peru, México, Itália, África do Sul, e países que estão procurando se definir como bebida fermentada, cabe tudo em uma geladeira brasileira.

 

Tudo isso porque estou estudando para o curso Sommelieria Pindorama, que acontece em agosto: https://www.sympla.com.br/sommelieria-pindorama__2488900 

#apreciecommoderação

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