“Saber beber” – mais reflexões sobre cultura cervejeira

“Saber beber” – mais reflexões sobre cultura cervejeira

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Um brinde com dois copos de cerveja de cores diferentes. Foto: Pexels

Quem nunca, apenas teve idade legal para beber beidas alcóolicas, tomou um porre, em casa ou no bar, daqueles de dar vexame? De dormir em cima da mesa ou vomitar no chão. Ou vice-versa. Geralmente, sob o olhar de reprovação de bebedores mais experientes que, imediatamente, emitiam o veredito acompanhado de um balançar lento de cabeça: “esse aí não sabe beber”. “Saber beber”, segundo o código de ética do botequim, seria beber respeitando os limtes do seu organismo, sem se embebedar e sem dar vexame. Uma sabedoria que só se adquire com o tempo e a experiência. Depois de muitos porres e de aprender os seus limites.

Fazendo uma ponte com o tema da minha coluna anterior, “Cultura Cervejeira, o que é?”, poderia parecer, então, que “saber beber” seria sinônimo de ter cultura cervejeira. Mas essa é uma interpretação errada do termo. 

Essa interpretação está ligada a uma concepção clássica da ideia de cultura. Onde cultura é entendida como o “cultivo de si”. Cultivar a si mesmo para ser um indivíduo e um cidadão melhor. Por meio do estudo e do acúmulo de uma “bagagem cultural”. A cultura seria, nessa concepção clássica, uma espécie de conhecimento que nós buscamos ativamente ao longo da vida.  Porém, como eu tentei explicar na minha coluna anterior, a cultura pode ser entendida também, principalmente a partir do século XX com os estudos antropológicos, como um conjunto de hábitos, comportamentos, crenças e valores que recebemos passivamente. Quando chegamos a esse mundo somos mergulhados em um contexto cultural que já estava aí antes de nascermos e que continuará aí depois de morrermos.

Como afirmei na minha coluna anterior, embebedar-se, beber além da conta, encher a cara, chame como quiser, faz parte da nossa cultura cervejeira. Um dos traços distintivos da cultura cervejeira brasileira é beber em grandes quantidades a cada sessão. Uma vez que o consumo de cerveja está intimamente ligado a momentos de lazer e de fuga da rotina. Assim, beber até fechar o bar (ou até cair) não se opõe a ter uma cultura cervejeira. Mas, como eu disse antes, faz parte da nossa cultura cervejeira. Nesse quadro cultural, beber moderadamente, respeitando os limites e apreciando a bebida é que iria contra essa cultura. 

Falei também que o lema da cerveja artesanal “beba menos, beba melhor” visa alterar esse traço cultural. Baseado na compreensão de que a produção de cerveja artesanal se beneficia se o consumidor aprender a apreciar diversos estilos de cerveja. Bebendo com a intenção de usufruir de uma boa bebida e não apenas com a intenção de se embriargar. Porém, uma cultura, entendida agora como um conjunto de hábitos e práticas, se forma e se consolida com o tempo. Não nasce de um dia para o outro. E, consequentemente, também leva tempo para se transformar. 

Algum tempo atrás, passou pela minha timeline um artigo que chamava a atenção para o fato de que esse lema, repetido quase que como um mantra no meio da cerveja artesanal, seria um discurso vazio. Uma vez que estaria totalmente afastado da realidade quando comparado com a forma como continuamos a consumir cerveja na prática. Quando eu digo “continuamos” não me refiro a eu ou você que me lê. Mas a “nós” enquanto sociedade. 

E de que a “comunidade da cerveja artesanal” teria, até mesmo, a sua parcela de culpa na manutenção desse traço nefasto da nossa cultura cervejeira. A começar pelo modelo adotado nos festivais de cerveja. Com uma oferta quase ilimatada de cerveja. Um convite à embriaguez. Que, muitas vezes, é aceito até mesmo por cervejeiros e profissionais do segmento. Que, na ânsia de experimentar o maior número possível de rótulos disponíveis, acabam por passar dos seus limites. E ninguém diria a um cervejeiro profissional que ele “não sabe beber”. Ou diria?  

A explicação para esse distanciamento entre o falar e o fazer é simplesmente o fato de que, apesar do lema tão repetido, alguns de nós continuamos reproduzindo inconscientemente a cultura na qual fomos criados enquanto bebedores de cerveja. A cultura do beber em excesso. Ainda que conscientemente a condene. Esse lema, “beba menos, beba melhor”, continua sendo mais um “horizonte de expectatva” do que um “espaço de experiência”, nos termos do historiador alemão Reinhart Koselleck. É uma bandeira de luta que visa alterar um traço cultural. Tarefa hercúlea, como afirmei antes. Cumpre identificar, no meio cervejeiro, quem está levando à sério essa luta e quem “só quer vender cerveja”. 

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