Sobre pesquisar antes de viajar

Sobre pesquisar antes de viajar

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O mês que precede a partida para uma viagem longa costuma ser intenso. Não só porque tento organizar os trabalhos de modo que eu consiga ficar com a agenda livre durante o período, mas também porque é o momento de planejar o que posso fazer, visitar, comer durante as férias.

Comer é sempre grande parte da experiência. Gosto de provar sabores desconhecidos; sentir texturas novas; observar os costumes, as culturas e as crenças que se materializam sobre a mesa.
Há quem diga que a viagem raiz é a improvisada. Sou adepta e não me oponho, desde que tenhamos a malícia de fugir da infraestrutura do turismo globalizado, que nos aprisiona na homogeneidade dos “pratos internacionais”.

Quando viajo, a última coisa que quero é familiaridade. Ou restaurante com comida superficial, os famosos “pega-turistas”. Às vezes esse cenário é inevitável e está tudo bem – como quando chegamos de madrugada e a única opção aberta é uma franquia sem alma –, mas sempre que posso, fujo.

Vou do melhor restaurante a uma barraquinha de rua suspeita, porque sinto que a essência do destino está nessa contradição e é assim que consigo me conectar. Às vezes também me pego caminhando em direção aos achados mais descolados e lembro que já torci muito o nariz para elas, me perguntando se teria alguma chance de aquela cozinha servir algo autêntico, mas logo me lembro que o chef Anthony Bourdain alfinetava o universo hipster e, ainda assim, muitas vezes tinha de admitir que a comida naqueles lugares era, de fato, ótima. Então as ideias que costumam me guiar são: estar aberta e não carregar preconceitos.

O PROCESSO

Foto de Priscilla Du Preez | Unsplash

Meu processo para montar uma lista de lugares começa com uma apuração de quais amigos e conhecidos já foram ao destino. Confio no bom e velho boca a boca. Sempre encontro alguém que já fez mestrado em Cingapura, se aventurou num sabático em Bali, se apaixonou por uma canadense… Assim começam a chegar as dicas!

Para a minha próxima viagem, Nova York, contei com fontes muito especiais (alô Fê, Má, tia Isa!) que me trouxeram várias inspirações e acenderam desejos. Também tive a sorte grande de ter uma amiga que não apenas morou lá, como, junto com o marido americano, foi chef de cozinha de restaurantes maravilhosos (entre eles o Estela, o Cosmes e o Flora Bar, no desativado museu Met Breuer).

 

Essa amiga é a Bia Freitas, que, vale dizer, hoje comanda o Shihoma Pasta Fresca em São Paulo. Ela compartilhou comigo uma lista cheia de afeto, com nomes de restaurantes seguidos por comentários como “…de estrelados só esses, os demais achamos muita pompa para pouca entrega” ou “… para se entupir de massas, vinhos e bisteca fiorentina. É a minha casa, o melhor italiano
despretensioso da cidade.”

Conforme vou lendo, narrativas vão se criando na cabeça, lembranças impossíveis de serem reais vão ganhando forma, sinto o que a Bia sente ao resgatar os destinos na própria memória.

Loucura ou não, é nesse momento que começo a construir o gosto da comida que comerei em cada um desses lugares. Porque o paladar não é apenas fisiológico, mas também cultural. Como colocou o sociólogo David Le Breton em seu livro Antropologia dos Sentidos (Editora Vozes, 2016), “o paladar é uma apropriação bem-sucedida ou malfadada do mundo através da boca, ele é o mundo
inventado pela oralidade”. Tem a ver com linguagem, com história.

NÓS COMO PROTAGONISTAS DE ROMANCE

Foto de Ian Schneider | Unsplash

Depois das primeiras dicas coletadas, encaro a vastíssima internet. Sites de revistas locais, guias independentes e o próprio tripadvisor me ajudam a dar mais corpo às narrativas que comecei a incorporar às minhas. Também aproveito para adicionar coisas novas que me intrigaram.

Depois checo a localização geográfica de cada ponto. Preparo um mapa, pontilho trajetos, circulo destinos. E assim vou me abrindo para as possibilidades.

É como se eu fosse a protagonista de um romance entusiasmante prestes a ser escrito. Ao mesmo tempo em que o contexto do romance é uma jornada por lugares e sabores do mundo, é uma jornada pessoal e intrasferível pela vida.

Me parece ter algo a ver com o que Le Breton disse: “ao inverso de outros sentidos, o paladar requer a ingestão de uma parcela do mundo. A degustação de um alimento ou de uma bebida implica uma imersão em si mesmo”.

Nesse sentido, é fácil de compreender o porquê de a gastronomia ter um papel tão relevante durante as viagens. Não à toa é considerada uma arte. Não só por se tratar de uma necessidade humana básica, mas também por nos ajuda a existir. Enquanto digerimos comidas incríveis por aí, digerimos também as dores e os amores de sermos nós, de fazermos parte dessa humanidade tão diversa e complexa.

A minha tara por pesquisa me traz a tranquilidade de saber que se não encontrar espaço para as descobertas genuínas, vou ter uma lista de experiências a recorrer. Possibilidades de encaminhamentos para essa personagem que se transforma a cada nova cena. Tirando que é uma sensação gostosa flertar, criar expectativa, sentir o desejo de conhecer algo novo…

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