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Martyn Cornell e o dever do historiador cervejeiro

30/12/2020

por: Marcio Beck
Martyn Cornell e o dever do historiador cervejeiro
Amber, Gold & Black, livro do autor Martyn Cornell. Foto: Bia Amorim

Se você gosta de cerveja e sabe quem é Martyn Cornell, os próximos parágrafos de introdução provavelmente não vão trazer nenhuma novidade. Afinal, eles dizem mais sobre a minha admiração pelo trabalho dele, que me levou a contatá-lo para esta entrevista – generosamente concedida por escrito por meio de mensagens via Facebook – do que sobre o autor em si. Aviso: Não tenho objetividade nenhuma para falar dos escritos dele. Por favor, sinta-se livre para pulá-los.

Se você gosta de cerveja e não sabe quem é Martyn Cornell, talvez seja melhor ir ao blog dele, Zythophile (http://zythophile.co.uk/). Fundado em 2007, é uma das principais fontes (se não A Principal fonte) sobre a história da cerveja na Grã-Bretanha. Seus posts são longos, detalhados, com uma riqueza de informações extraídas de fontes históricas que são raras no meio cervejeiro.

O blog é a extensão digital de uma carreira de escrita sobre cerveja que se estende cerca de 40 anos, e que rendeu ainda numerosos artigos e alguns livros – “Beer: The Story of the Pint: The History Of Britain's Most Popular Drink”, “Strange Tales of Ale” e “Amber, Gold & Black: The History of Britain's Great Beers”.

Descobri o trabalho de Cornell quando começava a escrever sobre o tema, lá pelos idos de 2011, pesquisando sobre uma das minhas implicâncias favoritas: as lendas em torno da criação da India Pale Ale. Havia lido um artigo acadêmico um tanto tímido que mencionava uma “controvérsia” a respeito da versão amplamente aceita e citava o trabalho do jornalista inglês.

O escritor Martyn Cornell. Foto: Arquivo pessoal

Bastaram alguns cliques para ficar completamente mesmerizado pelo conteúdo do Zytophile. Datas exatas, citações em periódicos e publicações de séculos atrás devidamente contextualizadas e analisadas... tudo o que faltava no conteúdo cervejeiro escrito no Brasil – e mesmo em grande parte do conteúdo escrito em inglês – estava lá.

Eu já era, à época, devoto da obra de São Michael James Jackson, mas, devoção à parte, ele me parecia muitas vezes seguir a velha máxima “se a lenda é mais interessante que o fato, publique-se a lenda”, e o mau hábito parecia ter se espalhado pelos escritores de cerveja em geral; hoje, vejo isso mais como reflexo da necessidade que muitos sentiam de legitimar com um “storytelling” atraente, o renascimento cervejeiro a partir da década de 1970.

Os textos de Cornell são um antídoto contra tudo isso, para embaraço de muitos mercadores de “cultura cervejeira” que vendem por aí cursos baseados em contos de fadas. E parte de um pressuposto simples: as histórias que podemos comprovar sobre o passado às vezes podem não ser tão atraentes, ou pitorescas, ou heroicas, quanto a imaginação de alguns, mas reconstruí-las conforme os registros factuais permitem é certamente mais compensador, ao menos para quem assume esse compromisso ético com a verdade.

Saúde e feliz 2021!

Qual é a parte mais difícil de escrever sobre cerveja?

MARTYN CORNELL: Encontrar tempo! Muitos assuntos para escrever a respeito, muito pouco tempo para escrever...

Você tem ideias para posts do blog ou livros que você decidiu não seguir por serem exigirem muito tempo ou trabalho extensivo?

Montes... demais para listar.

Como você começou?

Sou jornalista por profissão, tendo começado em jornais locais, então sempre estive envolvido com palavras. Tentei não escrever sobre cerveja no começo, não queria misturar trabalho com algo que eu gostava de fazer fora do trabalho, beber novas cervejas e visitar pubs. Mas alguém que eu conhecia estava escrevendo um guia de pubs locais, e tinha algum espaço que precisava ser preenchido, e ele me pediu para escrever algumas centenas de palavras sobre a história das cervejarias da área. Descobri que gostei muito de fazer a pesquisa, e tudo partiu daí.

Sobre que tipos de assuntos você escrevia?

Mudei para a produção no por volta dos 30 anos – sub-editando, como chamamos na Grã-Bretanha, copy-editing, como diriam os americanos (Nota do Autor: no Brasil, a função equivaleria a de um redator ou sub-editor) – e então por volta dos 40 anos trabalhei para revistas especializadas cobrindo a indústria hoteleira, na maioria das vezes como editor, mas com alguma escrita, antes de voltar para produção jornalística em tempo integral. Então, como jornalista, a maior parte do meu tempo foi gasto na área de edição/produção.

Você sentiu alguma dificuldade nessa transição?

Não, escrever sempre foi bem natural para mim –gosto de copy-editing, prefiro escrever, mas a competição no lado da escrita é imensa, que foi o motivo de ter me tornado sub-editor, profissionalmente.

Alguma rotina específica de trabalho ou hábitos?

Sentar em frente ao computador, ficar tempo demais no Twitter e no Facebook, finalmente começar a escrever, entrar “na zona”, eventualmente olhar em volta e várias horas se passaram enquanto várias centenas de palavras foram escritas.

Você tem algum favorito entre os seus livros? Talvez um que tenha sido mais gratificante escrever, que tenha sido mais importante para sua carreira, mais inovador, mais recompensador... ou que você apenas tenha ficado particularmente feliz com o jeito que saiu?

Tenho mais orgulho de “Amber, Gold and Black”, a história dos estilos britânicos de cerveja: ninguém jamais tinha feito algo do tipo antes, e dez anos depois, ainda se sustenta muito bem. É certamente o livro que as pessoas parecem ter apreciado mais, e apareceu nas listas de “leitura obrigatória” de duas pessoas apenas este mês, o que é muito lisonjeiro. Está esgotado atualmente, em capa dura, e as cópías estão sendo vendidas por mais de £ 50 (cerca de R$ 330) – ainda está disponível na versão e-book, amigos! O engraçado é que é o meu único livro até agora a não ganhar um prêmio, o que confirma, receio, a ideia de que prêmios não são necessariamente um reflexo de quão bom um livro realmente é.

Você sente uma satisfação particular em desfazer mitos históricos sobre cerveja? Esse aspecto de “caçador de mitos” em algum momento dirigiu seu trabalho ou foi apenas uma consequência natural da extensa pesquisa?

Quando decidi escrever um livro sobre a história da fabricação de cerveja na Bretanha – porque não tinha havido nenhum, na época, nos 25 anos anteriores – eu disse a mim mesmo que não publicaria nenhuma história que eu não pudesse garantir, para a qual não houvesse boa evidência sólida. Então, uma vez que comecei a pesquisar, comecei a procurar pelos registros históricos, fiquei estupefato de descobrir que não havia evidência para algumas das histórias mais amplamente aceitas sobre a cerveja na Bretanha – que a porter foi inventada por um homem chamado Harwood para substituir uma bebida chamada three-threads (“três-fios”, em tradução livre deste escriba), que a IPA foi desenvoldida por um cervejeiro chamado Hogdson, que o Rei Henrique VIII baniu o lúpulo, e por aí vai. Estas histórias, que apareceram em dezenas de livros e artigos sobre cervejas e a história da cerveja, se revelaram de fato como não sendo verdadeiras. Penso que como jornalista, é preciso sempre tear a dedicação de contar a história “real”, então isso influenciou minha decisão de sempre ter boa evidência antes de escrever uma história. É claro, como jornalista, sempre aprecio ser capaz de dizer: “Ei, você acha que ISSO é verdade, mas quer saber a REAL história?” Mas é também a devoção do historiador por reunir os fatos verificáveis que me levou a tentar encontrar a evidência por trás destas antigas histórias, e quando ocorreu, de fato, de não haver evidência alguma para sustentar as antigas histórias, então como historiador você tem o dever de dizer isto. A “caça aos mitos” surgiu do desejo de nunca escrever algo para o qual eu não tivesse evidência, em vez de apenas um desejo por desfazer mitos.

Também há cenários em que a evidência disponível não é suficiente para confirmar ou negar uma hipótese. Ou em que descobertas subsequentes refutam ou confirmam certas histórias. Nos seus escritos sobre a IPA e porters/stouts, parece que você é bem ciente disto, e preocupado em não fazer declarações muito definitivas, concorda?

Sim, você aprende rapidamente que se fizer uma declaração definitiva sobre algo, a evidência aparecerá eventualmente para provar que você está errado...  

Como você navega pelas fontes históricas para os seus artigos e livros? Você desenvolve uma metologia pessoal para filtrar a informação de antigos jornais, relatórios de mercado, estudos, etc?
Eu apenas mergulho e começo a concatenar informação. Temos muita sorte hoje em dia de haver uma imensa, imensa quantidade de informação disponível na internet, não apenas de livros escaneados, mas jornais e revistas escaneados, em países ao redor do mundo, e o Google Translate, que ainda que não seja perfeito, dá uma chance de entender outros idiomas: o livro em que estou trabalhando atualmente, sobre a história da porter e da stout, terá citações de mais de 850 jornais em 52 países diferentes e 12 idiomas diferentes. Este tipo de pesquisa maciçamente ampla simplesmente não seria possível mesmo há dez anos. Por exemplo, posso dizer-lhe que graças a ser capaz de acessar edições antigas na internet de O Estado de São Paulo, em 1911 a cervejaria Brahma estava vendendo Brahma Porter como “Cerveja Preta Medicinal”, um dos muitos exemplos de cervejeiros reivindicando que porter (ou stout) é boa para a sua saúde.

Amber, Gold & Black, A história das cervejas inglesas escrita por Martyn Cornell. Foto: Bia Amorim

Como a sua relação pessoal com a cerveja se desenvolveu através da juventude até os dias de hoje?

Eu adorei cerveja desde o primeiro momento em que provei, aos 14 anos, e sempre reconheci que algumas cervejas eram boas e muitas eram ruins, mas não foi até o início dos meus 20 anos que comecei a aprender PORQUE uma cerveja era boa, e onde encontrá-la. Como, acredito, a maioria dos bebedores de cerveja “conscientes” da minha geração, os textos do escritor inglês Michael Jackson foram imensamente importantes para que eu me educasse a respeito de cerveja, e desde então tem sido uma jornada constante para descobrir mais. Tive muita sorte de ter podido beber cervejas empolgantes desde a Noruega até a Austrália, e tem sido tremendo ver o crescimento do interesse em grandes cervejas se desenvolver ao longo dos últimos 10 ou 15 anos – realmente, nunca houve época melhor para ser um bebedor de cerveja.

Cervejas favoritas?

A que está no meu copo! Sério, eu amo uma imensa gama de cervejas diferentes, e diferentes estilos de cervejas, e minhas favoritas a qualquer momento mudam dependendo de onde estou, com quem estou, o que estou fazendo, o que está disponível, e por aí vai.

Como você se sente a respeito de estilos da moda como New England/Hazy IPAs, Pastry IPAs e stouts... Você ativamente busca experimentá-las?

A cerveja está sempre se desenvolvendo – você pode encontrar comentários de meados do século 19 nos jornais sobre essa horrível nova cerveja amarga que todos os jovens estão bebendo. Eu não viajaria especialmente para provar uma nova pastry stout.  

Algum conselho para as pessoas que desejam escrever sobre cerveja (profissionalmente ou como hobby)?

Não pense que você vai ganhar dinheiro de verdade disso, porque você não vai. Escreva principalmente para si mesmo, não se preocupe com o que outras pessoas possam pensar a respeito disso, e leia os escritores de cerveja mais vendidos, os escritores de não-ficção mais vendidos, sejam eles de viagens, vinhos, restaurantes ou o que for, e tente entender o que faz a escrita deles funcionar.

Você acha que existe algo como uma experiência cervejeira perfeita? O que seria?

A experiência cervejeira perfeita é provavalmente beber uma grande cerveja em grande companhia e tendo uma grande conversa, mas há muitas outras experiências cervejeiras formidáveis, e algumas você pode ter por conta própria: uma das minhas foi em Março deste ano quando eu estava sentado do lado de fora de um bar-restaurante no Pão de Açúcar no pôr-do-sol, bebendo uma bela cerveja de trigo, comendo ceviche e olhando a praia de Copacabana à distância – aquilo foi bem bom...

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