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O dono do pedaço: entrevistamos o fotógrafo por trás da abertura da novela

31/10/2019

por: Fran Micheli
O dono do pedaço: entrevistamos o fotógrafo por trás da abertura da novela
Jason Lowe vive no Brasil desde 2015 | Foto: www.2amfilmw.co.uk / Nuchaku

Você pode até não gostar de novela. Mas é provável que em algum momento tenha parado em frente a televisão meio embasbacado com as belas imagens da abertura de “A Dona do Pedaço”. A novela global das 21h, que conta a história de uma boleira que superou muitos desafios, termina em novembro desse ano. Porém, a abertura fica na nossa memória afetiva com as açucarados e apetitosos closes durante o preparo de um bolo.

O responsável por este belo trabalho foi o fotógrafo e diretor britânico, Jason Lowe. Vivendo no Brasil desde 2015, ele e a esposa, a chef Paolla Carosella, dividem a paixão pelo universo da gastronomia de forma única em trabalhos autorais.  

Nessa entrevista, Jason conta sobre a produção com a Globo, a carreira de quase 30 anos como fotógrafo de comida ao redor do mundo e como é a sua relação com o Instagram. 


FM - Você trabalhou intensamente com os diretores de arte da Globo na abertura da novela "A Dona do Pedaço". Quão difícil foi esse trabalho e quais eram suas peculiaridades?
JL - O desafio era explorar todas as oportunidades abstratas no processo de fabricação do famoso bolo, observar a textura e a forma, a viscosidade e as reações entre os diferentes ingredientes. A equipe criativa da globo costuma fazer todas as aberturas 'internamente' para que sejam sempre muito criativas e extremamente instrutivas. Foi uma alegria colaborar com eles.

FM - Quanto tempo levou para o filme ficar pronto?

JL - A produção em si foi muito rápida, tivemos duas filmagens de dois dias com um prazo de entrega curto e a equipe da Globo fez toda a pós-produção internamente. Tive um enorme apoio da produtora Hungryman e, em particular, do grande diretor de produção com quem trabalhei, Pedro Cardillo e o gênio dos efeitos Miranda Gibin, sem o qual o trabalho nunca teria sido tão maravilhoso.

Foto: Jason Lowe


FM – Você faz fotografia de comida há vários anos, em muitos contextos. Qual a sua opinião sobre o Instagram para profissionais e amadores? Acha que nós nos envolvemos de uma outra forma com a comida após o Instagram? 

JL - Quando comecei como fotógrafo especializado em comida havia apenas 5 ou 6 de nós em Londres. Fazer isso há 30 anos era algo muito especializado e, é claro, tudo analógico. Eu poderia viajar por exemplo para a Índia por 3 semanas sem ver nenhum resultado do meu trabalho até voltar para casa e levar tudo para o laboratório. Mas adoro evolução e o progresso, inovação e novas formas de ver, por isso sou um grande fã do Instagram e de outras plataformas de mídia social. 

Eles também estão mudando a publicidade, os períodos de atenção estão mais curtos, os algoritmos e as formas de venda estão em constante movimento. O instagram é uma ótima maneira de compartilhar experiências. Adoramos ficar surfando sentados na poltrona verificando o que todo mundo está fazendo, mostrando. A realidade é que agora sabemos que há mais conexões em todo o mundo, agora todos com telefone são fotógrafos de alimentos.

Foto: Jason Lowe

FM – Hoje, muita gente se autodeclara “fotógrafo de comida”. Com tantos anos de mercado, como você analisa essa situação?

JL - Tirar uma foto em seu telefone em um restaurante e criar uma imagem bonita é uma coisa, e ser um fotógrafo profissional com anos de experiência é outra coisa.

Como todos os ofícios da criatividade, é impossível aprender tudo em um curto espaço de tempo. Não é sobre o equipamento ou a tecnologia. É claro que essas coisas todas são essenciais, mas é sobre a profunda compreensão do seu assunto. Você não pode se tornar um mestre em madeira apenas porque possui os melhores cinzéis japoneses, e o mesmo acontece com a fotografia comercial. Ser comissionado para criar uma imagem ou um filme para um cliente é uma responsabilidade enorme que exige um conhecimento profundo do aspecto de cada produção.

Foto: Jason Lowe

FM – Na sua opinião, um bom senso estético nas redes sociais pode dar um up nos negócios de gastronomia? 

JL - As pequenas empresas agora usam o Instagram com grande efeito e os 'influenciadores' estão ganhando a vida com a promoção de produtos e lugares. Isso nem sempre acontece de uma maneira bonita, mas dá um empurrãozinho frente à concorrência.

FM – O que representa pra você ser um fotógrafo de comida?

JL - Ser fotógrafo ou diretor de comida é minha felicidade incansável. Quando conheço grandes produtores, agricultores, pescadores ou chefs que se preocupam tanto com seu trabalho, sua paixão e integridade, isso alimenta meu desejo de representar visualmente o que eles fazem. Não é sobre mim, eu sou o meio pelo qual o trabalho deles se torna visual, cada colaboração é diferente, é um relacionamento único com uma pessoa ou um lugar.

Todos os trabalhos são um desafio e todos têm um momento decisivo em que a conexão é estabelecida, onde a ideia se torna coesa e evolui de se transformar de uma ideia para uma imagem ou um filme.

Foto: Jason Lowe

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