Como o chá me ajudou a controlar a ansiedade

Como o chá me ajudou a controlar a ansiedade

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Minha ansiedade é uma sombra. Ora tá maior, à esquerda, ora menor, à direita, ora desaparece, ora retorna imensa babando pelos cantos da boca. Ela tá sempre ali, sem anunciar quando ou como vai dar as caras. Quem tem ansiedade sabe como é apavorante tentar controlar algo que é independente da racionalidade. O chá me ajudou muito nessa questão e, não, não foi “chá” de mulungu ou valeriana. Foi o chá de verdade, o de Camellia Sinensis.

Tomo chá há bastante tempo. No começo, sempre aquela coisa, comprava no supermercado, chochava o saquinho na água quente e tá ótimo, fazia misturas de ervas em casa como distração. Foi só em 2019, quando comecei a estudar o chá formalmente e a compreender o complexo universo da Camellia Sinensis, que o trem degringolou de vez e, por sorte, entrou nos eixos.

Tive uma crise de burn out. Muito trabalho, pressão, auto cobrança, chicoteamento mental diário e a criatividade que me abandonou dizendo: chega, mano, qq c tá fazendo da vida, eu hein, tô vazando.

O ato de preparar o chá diariamente passou a ser um momento de reflexão.

Me ensinaram tudo errado sobre meditação

Eu tinha a ideia de que meditação era restrita à posição de lótus, com incenso torando e silêncio em casa. Roupas confortáveis de algodão orgânico colhido pelas lhamas virgens do Himalaya e óleos essenciais de 300 golpes também entravam ocasionalmente nesse pacote do entendimento aí. Só que descobri que meditar é ser livre, inclusive de suposições sobre a própria liberdade da meditação.

Passei a ter um momento à noite em que eu preparava um chá para tomar com meu marido. Escolho o chá, analiso as folhas secas, pego o bule, observo a água chegar à temperatura ideal, contemplo as folhas dançando enquanto infusionam, controlo o tempo, sinto alegria com o tilintar das xícaras, me entrego à leve tontura que o aroma causa ao chegar primeiro ao nariz.

Fazer a bebida se tornou, de fato, minha meditação.

Uma viagem diária de volta pra casa

Com a pandemia, o ritual de fazer chá foi tomando um lugar cada vez maior e se comportou como qualquer vício: quanto mais você usa, mais você quer. Com um interesse crescente, percebo que não sei nada sobre a bebida. Além da percepção sensorial extremamente prazerosa, o chá passou a ser minha viagem de fim de dia de volta pra casa. Pra minha casa interior. A sensação de chegar em casa e matar a saudade da própria cama, arrancando os sapatos apertados e chutando-os para longe.

É um momento de respiro, de quietude e reconhecimento.

Difícil dizer em palavras sensações que parecem ainda não ter nome, mas preparando e tomando o chá, é como se eu fosse, apenas por aquele momento, quem eu sempre deveria ser. Inteira, com a atenção toda voltada para um som, um cheiro, um sabor, um objeto, uma pessoa. Fazendo uma coisa só e entregando todas as expectativas ao presente do aqui e agora.

Segurando o tchan, com respeito

Posso dizer que a ansiedade ainda tá aí. Vez ou outra ela berra no meu ouvido, mas, aprendi a não retrucar. Deixo ela fazer o escarcéu típico e espero ir embora. Ao melhor estilo “Já acabou, Jéssica?”. E, sem platéia, se vai resmungando e desaparecendo por completo até o próximo show.

Difícil também falar de chá e ansiedade sem mencionar os efeitos da L-Theanina, que é assunto pra outro artigo. Mas quero mostrar algo além do trabalho bioquímico do chá no nosso corpo: ele tem o dom de nos trazer de volta para quem nós somos e devemos ser, seja através do seu potencial como alimento ou como hábito.

Sendo assim, é quase impossível dissociar o chá da filosofia. Não à toa o chá era utilizado pelos monges tibetanos para ajudar a induzir estados mentais alterados na meditação. É intimamente ligado ao Taoísmo, Budismo, Zen Budismo e até aos princípios filosóficos-políticos que deram origem ao comunismo, tão modelado aos interesses humanos ao longo dos séculos.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, está uma frase atribuída a Jesus: “Há muitas moradas na casa do meu pai”. Gosto muito dela porque nos lembra que é possível trilhar muitos caminhos em direção ao divino, ao eu-divino.

Tem gente que se encontra nas artes, na música, no esporte, no serviço voluntário, na meditação. Acho que peguei o caminho do chá para encontrar com esse Deus aí, que, suspeito às vezes, mora mais próximo do que eu imagino. E, se Ele sou Eu, e vice-versa, o caminho até o destino final pode ter a paisagem mais propícia a encantar meus olhos. Ou meu olfato e paladar. 🙂

No mundo do chá é super comum encontrar pessoas que chegaram até a bebida trazidas pela ansiedade, pela depressão, pela síndrome do pânico, por um trauma. As famosas molas do fundo do poço. Muita gente tem uma história parecida com a minha.

E que bom que tivemos uma segunda chance. A prova de que uma simples xícara de chá carrega séculos de história e vários salva-vidas incansavelmente saborosos.

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