De milhos gigantes peruanos ao cremant da Borgonha: por que viajar para comer

De milhos gigantes peruanos ao cremant da Borgonha: por que viajar para comer

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O milho gigante peruano: as melhores experiências em viagens estão longe dos centros turísticos | Foto: arquivo pessoal

Você também é do time dos que amam viajar para comer? A nossa colunista Gaelle Artemis fala das suas experiências inesquecíveis longe dos grandes centros turísticos.

Comprei minha passagem para visitar minha família na França há 5 meses. Mas minha síndrome de deixar tudo para última hora fez com que ,só agora, há 5 dias da viagem, eu tenha parado para fazer meu roteiro.

Percebi então que só tinha restaurante, ou lugares para tomar vinho, chá, patisseria ou até mesmo café (para que alguém iria tomar café na frança? Eu também não sei) e um monte de lojas artesanais especializadas em algum alimento, vinagre ou mostarda, por exemplo.

Nessa minha lista dos afazeres: Museu? Só se for do pão ou do vinho? Castelo? Sim, de alguma vinícola. Monumento? Tem algum restaurante perto?

O que aconteceu comigo?, pensei… Como alguém sai da sua casa, gasta uma grana enorme e tudo isso para uma necessidade básica do corpo humano: comer.

O fruto que dá origem à cuia do chimarrão | Foto: arquivo pessoal

Viajar para comer: mas será que é só comida no fundo?

Comecei a lembrar das minhas viagens passadas, onde começou minha obsessão de viajar para comer.

A minha primeira lembrança foi uma viagem que fiz com meu pai na Normandia, região francesa litorânea. A Normandia não tem absolutamente nada a ver com a ideia de praia que temos no Brasil. Chove muito, é frio e parece que, de alguma forma, a paisagem é selvagem e hostil, com uma neblina persistente.

Meu pai comprou um par de botas amarelas de borracha, para proteger ao máximo os meus pés de criança brincalhona, e fomos “pescar” mexilhão. Eu, meu pai, minhas botas amarelas e uma bacia. Ficamos a manhã toda lá, meu pai comentando sobre a maresia, que tinha um horário certo, sobre o buraco na areia formado por outro bicho… Eu olhando para ele, escutando, comentando e perguntando absolutamente tudo. Óbvio que voltamos para o camping e fizemos os mexilhões que capturamos. Eu não tenho nenhuma memória do gosto que tinham esses mexilhões, mas eu me lembro dessa manhã com minhas botas amarelas.

Muito bem, essa memória não tem muito a ver com o ato de comer e sim sobre uma atividade.

Pensei mais um minuto e, de cara, me veio o Peru

O Peru, que pais incrível, cheio de histórias, às vezes lembradas, às vezes esquecidas. Existe uma atmosfera particular em Cuzco, uma energia. Você sente seu corpo diferente, que pode ser por causa da altitude. Mesmo assim, Cuzco é uma cidade fora do comum e uma coisa que me impactou lá é a diversidade das frutas. A gente reconhece a maioria, porque o peru é do nosso do lado, mas com cores, tamanhos e formatos diferente das nossas. No Brasil, eu tô acostumada com um tipo de maracujá, lá eram 4 ou 5 diferentes.

Quando penso no Peru lembro dos lugares incríveis que eu visitei, da trilha de 4 dias para ir em Machu Pichu e quase morri. Das galinhas na rua bloqueando o carro durante 15 minutos. Mas, o que eu lembro melhor mesmo é do milho!

O melhor e maior milho da minha vida. Comi um milho gigante. Existem mais de 35 variedades de milhos diferentes no peru. O que mais me chocou foi ter comido um milho gigante cozido na estrada. Faz sentido? Concordo que não. Até porque minha experiência com milho nesse incrível país não parou por aqui. Tomei suco de milho, milho frito, milho moído. Tem milho de todas as cores para fazer o que você quiser com ele. Até pendurá-lo na sua casa como decoração rola.

Tem mais um coisa que quase esqueci de mencionar sobre o milho e as frutas em geral peruanas. Eles têm tudo a ver com a preservação da cultura peruana. Os espanhóis não conseguiram tirar a cultura em comum dos povos nativos. Isso a gente sente na diversidade dos alimentos, dos pratos e dos preparos. Temos  dentro de vários pratos peruanos a lembrança dos povos que já habitaram essa terra.

Mas tem outro ponto, o mais importante para mim talvez. Quando eu viajo, busco ir em lugares menores, não me interessa conhecer o mais famoso do pedaço, eles não vão me contar a sua história. Vou ser atendida por um empregado que segue muitas vezes um roteiro e que vai contar o que ele contaria para mim e mais dezenas, centenas, milhares de turistas curiosos.

Mas, indo em pequenos produtores, pequenos restaurantes, pequenas indústrias, mostrar um pouco de interesse e muitas vezes muita cara de pau, você vai conhecer as pessoas que estão por trás daquele produto.

Além do milho gigante: chimarrão e espumante

Tomei chimarrão com um fabricante de cuia na garagem dele. Ele me mostrou na maior boa vontade todas etapas que passa o “legume” para se transformar em uma cuia.

Tomei um cremant (espumante da Borgonha) com um velho produtor que já tinha vivenciado muita coisa, muita abundância e falta. Contou sobre o melhor do seus vinhos que chegou ser milésime, com muitas medalhes e tal. Safra essa de um ano depois da morte de sua esposa. Ele deu o nome dela para esse vinho. Contou sua historia, o fim, talvez, do seu legado, porque daqui alguns anos não teria mais ninguém para tocar a fábrica. Obviamente, quando voltei para casa e tomei o vinho que tinha comprado desse senhor, a experiência foi outra que qualquer vinho comprado no supermercado. Esse vinho tinha um gosto a mais, um gosto de estória.

A foto da Polaroid guarda pra sempre um amigo feito pelo caminho | Foto: arquivo pessoal

Dormi no sofá de um chef em Santa Maria, apaixonado pela cidade dele e orgulhoso de mostrar o que o terroir tem de melhor. Insistiu para gente ficar e ainda por cima fez um baita de uma janta para mim e meu marido na mesma noite.

Passei uma noite conversando com o dono de uma pousada onde estava hospedada. Conversamos sobre conservas, utilizei o fogão a lenha dele para assar um pão. Dividimos o mesmo, abrimos um vinho, as conservas e fizemos uma janta improvisada incrível.

Poderia ainda escrever tantas e tantas histórias sobre as pessoas que encontrei nas estradas das minhas viagens. Pessoas com quem converso até hoje, outras que talvez nunca mais eu vou ver novamente. A única certeza é que elas serão para mim lembradas para sempre.

Ao final, viajo sim para comer, porque comida é cultura, experiência e, por fim, o mais importante: por trás de toda comida tem sempre uma pessoa.

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