Textos matinais, de pratos não matinais, com monstrões: Diego Carrilho, Empório Pata Negra

Textos matinais, de pratos não matinais, com monstrões: Diego Carrilho, Empório Pata Negra

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Um dos objetivos dos textos matinais é conversar com a galera que não tem uma trajetória muito tradicional, como estamos acostumados a ver no mundo da gastronomia. Sim, tem muita gente que não foi fazer intercâmbio, trabalhar em cozinhas no exterior, ou até mesmo nem fez faculdade de gastronomia, diga-se de passagem, algo super recente. Mas a ideia é essa: conversar com pessoas que fazem um trabalho admirável, um baita rango bem feito e com consistência. 

O Digs é um desses caras. Eu conheço o Diego já tem um tempinho, desde 2019 talvez. Eu não tenho muita certeza de quando foi que a gente se esbarrou, e nem o evento que aconteceu – acho que foi o Fechado para Jantar – mas a questão é: o Diego é um cara que compra a ideia e faz acontecer. 

Eu lembro da primeira vez que fui ao Empório Pata Negra. Uma casa reformada para virar um empório, vendendo Jámon  como eu nunca tinha visto, muitas patas penduradas na parede, tipo em filme Espanhol mesmo, no meio do Ipiranga. 

Para quem não é de São Paulo é importante contextualizar: o polo gastronômico da cidade acontece principalmente em uma região chamada Pinheiros. Praticamente todas as novidades, restaurantes modernudos e com as indesejadas filas de espera do hype causado, estão por ali. “Ah mas São Paulo tem outras cenas em outros bairros ganhando força” – se você mora em SP provavelmente pensou isso – e eu concordo, é verdade. Tem muita coisa despontando em outros bairros, o que é incrível e que faz parte inclusive, da trajetória do Empório Pata Negra. 

Como eu já falei antes, o objetivo dessas entrevistas é falar com uma galera que vai em por um caminho diferente e não tradicional de trabalhar com comida. O Diego não trabalhou em grandes restaurantes de nome, não morava- e não mora – no hype dos bairros descolados. Ele e a sua família são do Ipiranga e por lá abriu o primeiro empório especializado em presunto cru do Brasil. Simples assim. Só que na vida real a gente sabe que não.

Vendendo um produto fora do óbvio, em um bairro fora do óbvio, não, sério, quem ia pensar em abrir um empório inteiro de presunto cru importado, que é considerado um produto de luxo, fora dos bairros esperados de São Paulo. Qual a chance de dar certo? Spoiler: até agora essa história tem uma cura bem feita. 

Juntando seus irmãos para trabalhar com ele, o Digs começou a fazer várias coisas legais no Empório, já teve curso para aprender a cortar Jámon, o gastronomia na calçada, que é um eventinho com cardápio diferenciado, jazz, muito vinho, e desde aquela casinha reformada na Rua Bom Pastor, número 1644, hoje o espaço cresceu, foi reformado, ganhou uma cozinha equipada, parceria com marcas legais e é endereço relevante no bairro. 

Assim como o Diego, um dos caras que eu mais admiro na cozinha é o Rodrigo de Oliveira, do Mocotó. Vou ser ousada na minha comparação, mas acho o Digs uma versão mais tatuada e de outro segmento de um Rodrigo mais jovem. “Você quer comer um jámon pata negra de qualidade acompanhado de um vinho monstro? Vem para o Ipiranga”, meio igual ao que o Rodrigo tem como a ideia do restaurante Mocotó, fazendo questão de manter os restaurantes fora da zona hype de São Paulo e levando para bairros que antes nunca tiveram um olhar voltado para a gastronomia. 

Embora o produto e os rangos do EPN sejam de altíssima qualidade, não tem toda a pomposidade dos restaurantes chiques – o que ao meu ver, vendendo o que ele vende, poderia ser super cheio dos conceitos, empratamentos e mesas com guardanapos de tecido – mas não. É de boa. Se você nunca comeu presunto cru, com toda certeza você não vai se sentir intimidado de provar, perguntar e até mesmo ter a opção de não gostar, diante do ambiente e entorno do espaço. 

Eu acho o Digs um monstrão por fazer algo que eu acredito muito: tornar um produto mais conhecido e até mesmo com oportunidade de consumo para pessoas que até então não sabiam o que era. Quase que um papel “gastronomicamente” educacional, de pela comida, mostrar coisas novas a quem se arrisca a entrar na casa reformada do Ipiranga e perguntar “mas o que vocês vendem aqui?”, e orgulhosamente eles podem dizer “Presunto cru”. 

 

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