A cerveja artesanal saiu de moda?

A cerveja artesanal saiu de moda?

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Esta semana, entre um copo e outro, um amigo trouxe a seguinte afirmação: “A cerveja artesanal não é mais modinha”. Não foi uma pergunta, nem um desafio ou desabafo. Para ele foi uma constatação. Estava claro que a cerveja artesanal não tem mais o mesmo status, seja lá o que ele quis dizer com “modinha”. Dei um gole para pensar melhor.

E estou pensando até agora. É difícil saber quando algo saiu de moda se estamos envolvidos até o pescoço. Ou seria melhor dizer até a garganta? Desde 2009, quando participei do primeiro curso de produção de cerveja caseira de Ribeirão Preto, promovido pelo saudoso Empório Biergarten no não menos saudoso bar Cervejarium, estou de alguma forma participando do movimento de cerveja artesanal.

Curso do Botto – Smoked Oatmeal Stout, no dia 18 de abril de 2009. Foto: Marcelo Vesoloski – blog
(Bem no cantinho da foto, o Botto – Daniel Navarrol, Gustavo Danhone, Luís Teixeira, Marcelo Carneiro e Marcelo Vesoloski. Curso do Botto – Smoked Oatmeal Stout, no dia 18 de abril de 2009. Foto: Marcelo Vesoloski – blog

Já passei pelo período do “Ual! Você faz cerveja em casa? Como que coloca o álcool?” para o atual “Ah, então você é homebrewer? Meu primo/vizinho/cunhado também faz cerveja”. Profissionalmente, já colaborei na área de comunicação corporativa com cervejarias, eventos e associações, como Polo Cervejeiro de Ribeirão Preto e com a Abracerva. Enfim, estou dentro da bolha.

Tenho o privilégio de viver na mesma cidade de uma das cervejarias artesanais pioneiras no Brasil, a Colorado, de 1996. Uma pérola no interior paulista que, além de me aproximar deste mundo, também semeou a cultura cervejeira e impulsionou o surgimento de várias outras fábricas locais.

Até por isso, nunca senti que a cerveja artesanal fosse uma moda (ou modinha). Soma-se aí a histórica identidade do ribeirão-pretano com a cerveja. As fábricas da Companhia Paulista e da Antarctica e o famoso Pinguim, embora não representem o artesanal, são sim parte da essência da cultura local. Aproximaram a produção cervejeira da realidade das pessoas.

Dito isso e voltando à morte da “modinha”, o Google Trends geralmente é um termômetro utilizado para medir o interesse em uma tema. E se de fato as buscas na internet sobre o “cerveja artesanal” servem como parâmetro, então a moda estaria passando. O pico de buscas foi em janeiro de 2020, como reflexo do caso Backer, mas independente disso, tem caído ao longo dos últimos 5 anos, chegando hoje aos níveis de 2014. [figura 01]

Figura 01: Cerveja Artesanal – Busca Google Trends

Mas essa queda não é exclusividade do Brasil. O termo “craft beer” também tem sido menos buscado nos Estados Unidos. Lá, é bem provável que essa redução seja porque o consumidor já incorporou as cervejarias independentes como hábito.  [figura 02]

Figura 02: Craft Beer – Busca Google Trends

Por aqui, o fato da cerveja artesanal estar deixando de ser “modinha” – se é que isso de fato está acontecendo – não é necessariamente ruim. É bom que ela seja parte da vida das pessoas em definitivo e não algo de momento.

É ótimo que a cerveja possa ser apreciada, compreendida e valorizada pelo mercado como produto de consumo e pela sociedade como expressão cultural. 

Por que não olhar para a cerveja artesanal com a mesma visão que se tem da moda? Não a “modinha”, mas a Moda como elemento permanente da identidade cultural. Fica a ideia para um próximo texto. Ou para uma conversa de balcão. 

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