Eu quero é cerveja IPA

Eu quero é cerveja IPA

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Vários copos com diferentes categorias de cerveja IPA.Vários copos com diferentes categorias (e cores) de cerveja IPA. Foto montagem via Canva

Lembro exatamente do primeiro momento que eu encontrei com aquele sabor. Parecia inédito e de uma forma interessante. Sempre esteve lá, mas nunca com uma receita forte o suficiente para perceber sua presença. Com sua potência colocada nesse elástico de IBU´s, com seu nome dito em alto e bom som, com seu gosto celebrado, seus aromas exaltados. Todo mundo quer beber uma IPA.

 

Já faz 12 anos

Eu e a IPA tivemos um encontro especial. Lá estava ela, toda fresca, toda nova, com adição de rapadura e sua alta fermentação. Eu tinha acabado de chegar nesse universo artesanal e talvez não tinha feito ainda nem 10 dias que tinha começado no trabalho. Foi um ótimo happy hour e a memória de um dia seguinte sem ressacas. Arrotando lúpulo.

Uma potência de amargor que era equilibrado, justo, e em harmonia, pois também entregava tudo com aquela base de maltes em uma receita de tradições inglesas. A graduação alcóolica era maior do que eu estava acostumada, era a combinação do amargor com uma certa doçura, uma nota de caramelo versus um intenso aroma de maracujá. Não congelada, mas ainda sim gelada. Inesquecível. Você lembra da sua primeira IPA?

Cervejaria Colorado, 2010. Foto: Arquivo Pessoal

O estilo IPA

Nas histórias que me contaram sobre a origem deste estilo, era uma cerveja que viaja pelos mares. Como quase todos os mitos que são “telefones sem fio”, mal sabia eu que tinha muita lenda para desenterrar. Acho até que demorou até eu realmente me interessar por essas verdades, eu queria mesmo era entender sobre aquele monte de gostos e sabores. Depois entender o desenrolar de tudo. Presente e depois o passado.

Sinceramente, uma década atrás, as cervejas deste estilo ainda não eram muito produzidas no Brasil. O estiloso e versátil líquido lupulado foi sendo desdobrado, refinado, intensificado, alterado e modificado, ao longo dos séculos, dos anos, dos meses, dos impostos, das nomenclaturas e inovações. Atualmente a IPA é uma das receitas mais fabricadas, brindadas e reclamadas pelo mundo afora. E tem sub categorias em todas as vertentes que poderia abrir.

É preciso uma tese sobre a filogenética das IPAs ao longo dos tempos. Da fugaz e seca Brut, a texturizada e aromática Juicy, passando pela torrada e intensa Black, Session e sua sutileza e moderação, versões com centeio, com diferentes leveduras, dos maltes dos mais leves aos intensos, de cada pequeno detalhe sobre o lúpulo e como ele vem trazendo complexidade com suas diferentes varietais. Enfim. Poderia ficar aqui detalhando em minúcias só sobre o lúpulo, mas o Scott Janish faz isso muito bem em seu livro “A Nova IPA: um guia científico sobre o aroma e sabor de lúpulo.”, da editora Krater, para além das crenças populares.

Caneca de cerveja IPA, cereais secos dando um tchan na foto e uma cesta cheia com cones da planta. Foto: Canva

IPA tá fora de moda?

“É tudo IPA” proclama o barbudo, querendo fazer amizade no balcão do bar. “Amarga demais” digita o recém formado influencer cervejeiro em suas redes sociais.

O bebedor de cerveja artesanal é antes de tudo, um insatisfeito. E isso é bom! Se olharmos para esses comportamentos, ao longo do tempo e como efeito comum, as curvas de aprendizado. Mas haja saco para as pessoas recém ingressadas, reclamando de amargor, ou das muitas opções do estilo nas tábuas das cervejarias.

As cervejas que tem uma maior percepção de amargor, com os altos IBU´s, provavelmente são as que sofrem mais no começo, com a galera arrotando, as vezes literalmente, reclamações sensoriais. Passado um tempo e as coisas darem aquela esfriada, nos acostumamos com aquele gosto, e bebemos tanto, que enjoamos de nossas próprias escolhas. Não tá fora de moda, mas tá na moda falar mal. E essa onda também vai passar.

Leia o artigo de Daniel Navarro “A cerveja artesanal saiu de Moda?

 

 

A história, rapidinha

Traga isso, disse Zeus” (Cornell, 2022)

– Século XIX

– A 1º marca que se tem conhecimento, por conta de um anúncio em jornal da época, é de um nome Hodgson (mas tem várias histórias que contestam essa questão, dizendo que é outra marca quem fez primeiro. Nenhuma novidades sobre primeirices né?);

– Foi anunciada na Inglaterra, pela primeira vez em 1835, no Liverpool Mercury, jornal inglês;

– Foi considerada a cerveja dos outonos por décadas;

– Usa uma maior carga de lúpulo do que outras cervejas;

– A cidade de Burton, na Inglaterra, é quem ficou mais conhecida por essas cervejas;

– A água dura é considerada a melhor para se produzir este estilo – atualmente as aguas são facilmente modificadas, antigamente chamavam de “burtonizar” a água;

– Refrigeração chegou algum tempo depois e ajudou o estilo a ganhar produção;

– Com a Primeira Guerra Mundial e as questões seguintes, as receitas foram adaptadas à época de recessão da economia;

– Entre 1980 e 1990 as IPA´s praticamente desapareceram e retornaram ao cenário, por conta da revolução norte-americana Craft Beer que trouxe uma roupagem mais moderna e novidades no consumo e cultura.

– Vem melhorando muito com novos equipamentos e técnicas de adição do lúpulo, que cada vez tem ganhado mais espaço na ciência e pesquisa, além da agronomia.

Plantação de Lúpulo. Foto: Canva

Olhando nos números

Quando vamos pensar em decisão de compra, cultura e tantas outras coisas, é impressionante como a gente precisa entender o nicho, e essas redes que são pequenas bolhas, com características próprias. A pergunta é: Quem bebe IPA, hoje em dia, no Brasil?

Atualmente eu vou na Pesquisa Retratos dos Consumidores, do Surra de Lúpulo, recém lançada fazendo um olhar para o mercado, em 2022 (e tem 2020 e 2021 também).

Convenhamos que ainda vivemos quase sem informação sobre o consumo de cervejas artesanais por aqui. E no fundo, na maioria das vezes não sabemos o que quer o consumidor, sabemos o que quer o nosso próprio paladar. Quando sabemos.

Eu digo que alguns consumidores se tornaram cervochatos. Muita gente que começou a tomar cerveja faz cerca de 5 anos está reclamando sobre variedades de cerveja. De repente “é tudo IPA”, arrotando o tom mal educado por aí. A questão é que a demanda é quem manda.

Ao olhar a Pesquisa Retratos dos Consumidores (2022), hoje a IPA é a cerveja com maior participação em “consumo recorrente” com 71,79% , da Pesquisa e segundo lugar em “ primeiro estilo” que o paladar encontra fora do mundo mainstream, com 20,17%, somente atrás de Weiss, como cerveja mais consumida na porta de entrada no mercado artesanal.

 

“Uma conta simples pode provar o domínio da IPA no aspecto global. A produção desse estilo de cerveja nos Estados Unidos em 2016 chegou a cerca de 28% do mercado de cervejas artesanais, que por sua vez representava 12,1% do market share do segundo maior produtor de cervejas do mundo (22,135 bilhões litros no mesmo ano). Ou seja, foram 750 milhões de litros só de IPA, ou quase 3,39% de toda a cerveja produzida no país, segundo os números da Brewers Association, que representa as microcervejarias norte-americanas.” diz a reportagem da Gazeta do Povo, 2022.

É uma perdição, uma forma de se apaixonar. Os dados, os detalhes, as variações. Esse mundo das receitas de cervejas como a IPA são uma diversão para as pessoas curiosas, que curtem saber os detalhes.

“É tudo IPA”, pro paladar mimimi

IPA e suas sub categorias

Poderia ser só 1 cerveja, inglesa, com aquele perfil sensorial único. Mas o nome ficou famoso, tem melodia, ganhou os mares, os litorais e tudo mais. É o Enzo das cervejas. Então, tudo que tem o lúpulo como protagonista, ganha esse nome IPA, um sobrenome ou prefixo.

Os países produtores desta planta maravilhosa, que tem mais de 140 diferentes variedades, vem aquecendo o mercado, falando sobre os benefícios da planta, trazendo inovação e no Brasil, cada vez as plantações estão mostrando que realmente tem muito mosto pra fermentar e lupular.

Cones, também chamados de flores Foto: Canva

Aquelas primeiras IPA´s em um pint

Um dia chegou uma história sobre dry hopping, no outro dia foi sobre uma tal de cerveja double IPA, depois sobre enzimas, turbidez da levedura e muito mais veio chegando e assim será. É fascinante ouvir sobre a história do lúpulo e todas as suas vertentes.

É intenso encontrar com a história de Hildegard Von Bingen, e ver o lúpulo em uma transversal com tantas questões atuais.

Semanas atrás estive na FICC em Belo Horizonte. Fiquei impressionada com as pesquisas, viveiros, plantações, colheitas, resultados e sorrisos, com tudo que tá acontecendo com o lúpulo no Brasil, com a IPA e a chance de novos territórios lupulados que a APROLÚPULO apresentou.

Anos atrás, com aqueles primeiros copos de IPA importadas, nunca pensaríamos em plantar nada por aqui.

Outra coisa é olhar o esforço enorme que foi feito para chegarmos em um consumo de cerveja IPA por tanta gente, a ponto das pessoas até estarem enjoadas e querendo beber outros estilos. Confesso que super entendo e sou do time diversidade no paladar, sempre quero algo mais ácido ou mais maltado ou esterificado ou qualquer outra coisa que não o protagonismo do lúpulo. Mas vejo com bons olhos toda a reclamação, significa que chegamos longe e vamos continuar caminhantes, com as IPA´s que estão por aí a séculos, ganhando fãs.

Para além das historietas de navios, o amargor, depois de um tempo, também fica para a história. Mas aqueles que beberam da IPA, transbordaram e naufragaram de amor.

 

Obras Citadas

Cornell, M. (2022). A história das cervejas Britânicas: Amber, Gold and Black (1 ed.). (A. Sigolo, Trad.) Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil: Editora Krater.

Janish, S. (2021). A nova IPA: um guia científico sobre o aroma e o sabor do lúpulo. (P. Paranhos, Ed., & G. A. Lando, Trad.) Porto Alegre: Editora Krater.

 

Fontes

https://www.ipacondriaca.com.br/

https://www.ipacondriaca.com.br/pesquisa-retrato-dos-consumidores-de-cerveja

https://drive.google.com/file/d/1yU1fBMY_39tI_teQcgI6NW9K8xAMah_k/view

https://www.editorakrater.com.br/loja/a-nova-ipa/

https://punchdrink.com/articles/ipa-craft-beer-history/

https://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/bebidas/ipa-principal-estilo-de-cerveja-artesanal-do-brasil/ 

 

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