Chá pode matar? Depois de um caso trágico, uma análise sobre compostos milagrosos e bobagens de “autoridades” que não sabem o que é chá. 

Recentemente, a mídia divulgou uma notícia triste, mas que também trouxe a urgência no debate sobre o que, de fato, é “chá”. No início de fevereiro, a enfermeira Mara Abreu, de 42 anos, deu entrada no Hospital das Clínicas de São Paulo após quadro de hepatite fulminante. Depois de ter passado por um transplante de fígado de emergência, ela teve rejeição ao novo órgão, não resistiu às complicações e morreu. 

Os médicos, então, disseram que ela estaria tomando um composto para emagrecer com o rótulo “emagrecedor 50 ervas” –  sim, 50 ervas que supostamente estariam socadas dentro de cápsulas de 2cm. Essa afirmação chegou à mídia que, não compreendendo o que é “chá”, passou a difundir notícias que mais atrapalham na compreensão do que ajudam. O resultado foi uma catástrofe comunicacional em cadeia.

OS PASSOS DE UMA COMUNICAÇÃO FALHA

1º) Os médicos SUSPEITARAM que a morte teria ocorrido pela ingestão de um composto em cápsulas de 50 ervas. Mas, até o momento, não se sabe por quanto tempo a paciente tomou esse troço, nem a quantidade, nem fizeram uma análise clínica para saber a composição real deste produto.

2º) Descobriu-se que o produto não tem sequer registro na ANVISA, mas em seu rótulo dizia “Emagrecedor 50 ervas”. Teoricamente, seria um alimento vendido como remédio e essa é uma outra conversa que precisamos ter sobre o mercado.

3º) Logo, ficou estabelecido que a paciente morreu porque “tomou chá”. 

4º) Outros médicos que não entendem nada sobre chá vieram a público “alertar” a população sobre os “perigos” e a “toxicidade” dos mesmos. 

5º) Ninguém, nem médicos, nem jornalistas, nem o fabricante do produto milagroso sabem o que é chá. 

6º) Qual a mensagem que tudo isso passou ao público? MUITO CUIDADO, CHÁ MATA.

E A LÓGICA, TÁ BOA?

Entendo este caso como legítimas falácias dos tipos:

  • Falácia do apelo à autoridade (ou argumentum ad verecundiam): onde uma profissional, no caso uma médica aleatória ao caso da paciente, vem a público dizer para as pessoas não tomarem chás – dando exemplo de chá verde – alegando que “vários estudos apontam toxicidade”. Ela se valeu de um título para afirmar uma ideia errada, sobre um tema obscuro para ela, mas que sabe que será validada pelo público. Afinal, ela é médica. 

Miga, sua louca, primeiro: chá é a bebida mais consumida do mundo depois da água e foi inserida na sociedade chinesa há mais de 5 mil anos. Nessa época, não tinha Jesus, não tinha América, não tinha Brasil, não tinha nem seus antepassados, não tinha ciência como a conhecemos hoje. E, que coisa, essa bebida se espalhou pela Ásia toda, depois pela Europa e pelas Américas devido a que mesmo? Aos seus benefícios comprovados empiricamente e, mais recentemente na história, apoiados em inúmeros estudos científicos qualificados. Fora todo universo cultural, sensorial, econômico e gastronômico onde o chá se insere.

  • Falácia da causa falsa: Os médicos da paciente morta divulgaram que “o quadro de hepatite fulminante PODE ter sido causado por ingestão de um chá emagrecedor de 50 ervas”. Logo, os jornalistas passam a divulgar que “chá emagrecedor pode matar”, sem explicar que o tal “chá emagrecedor” não é “chá” e sequer tinha “chá” em seu rótulo. 

Encontramos essa mesma lógica cagada na frase: “Ela tomou 15 litros de água contaminada e morreu, logo, água mata”. Aí o jornalista busca um médico como fonte enviesada para reforçar a ideia de que realmente, água contaminada é perigoso para a saúde. Porém, jornalista e médico esqueceram de avisar o público que a água que a vítima morta ingeriu era do esgoto. 

PRIMEIRAMENTE, O QUE É CHÁ?

E o que está errado nessa história toda do chá assassino? Primeiramente, o que a moça tomou não é chá. É um “suplemento” clandestino que sabe Deus lá o que tem dentro. No rótulo, diz que tem chá verde, mas que chá verde é esse? É aquele falsificado vendido nos mercadões no saco transparente propenso à contaminação? Aquele que chamam de chá verde, mas, na verdade, é refugo velho de fábrica de mate? Aquele que custa R$9,90 o quilo? Fica aí o questionamento.

Lembro um conceito básico importante: a denominação CHÁ é apenas referente à bebida originária da planta Camellia Sinensis. Todo o resto, como cavalinha, sene, hortelã, cidreira, mulungu e tantas outras, são infusões, ok? O problema na comunicação deste caso, portanto, começa na conceituação do que é CHÁ.

Portanto, eu, como jornalista, vejo urgência em termos um preparo maior da classe em questões científicas. Vimos, por exemplo, muitos casos falaciosos como este nas notícias sobre a vacina contra Covid e em pautas sobre nutrição. Quem já não leu títulos do tipo “Manteiga é a vilã da sua dieta” ou “Dieta do abacaxi promete eliminar 10 kg em 15 dias”, ou “Suco detox para perder barriga”? E ainda: “Adolescente de 15 anos morre duas semanas após tomar vacina”. Isso sem nem mencionar os desinchás da vida a R$100 a caixa que engana trouxas de todas as classes sociais. Mesmo com tanto conceito errado e, por que não, mentiras, essas coisas estão sempre na mídia e sendo consumidas por gente sem o mínimo de discernimento. 

As lições que ficam então são: cuidado com os chás que você consome. Procure procedência em casas especializadas. Mercadão não é casa especializada. A lei da física não permite que 50 ervas caibam em uma cápsula de 2 cm. Nenhum chá vai te fazer emagrecer. Médicos e nutricionistas precisam se atualizar urgente sobre chá de verdade e suas conceituações. Tem jornalista que não honra o diploma que pendura na parede. Tem gente morrendo por desinformação e não é de hoje.

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