Qualidade é afeto

Qualidade é afeto

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Cozinha Afetiva. Ilustração: Renato Andrade

Podemos dizer que afeto é aquele apego entre pessoas que se dão reciprocamente de modo recorrente, altruísta; e o altruísmo é esse se dar ao outro sem contar com nada em troca. A cozinha é um fundamento forte dos afetos entre pessoas próximas. Só minha mãe sabe, por exemplo, o ponto exato do ovo frito do qual gosto; sabe que detesto fígado de boi e jamais o fará para o meu almoço aquilo que, para ela, seria o bom e agradável, e assim por diante.

Cozinhar é uma das tantas atividades materiais que cria vínculos, esteja imersa numa relação amorosa ou numa relação meramente comercial. Se fazemos alguma coisa é porque essa coisa é útil para alguém. Diz-se, um “valor de uso”. Se esse valor de uso é feito numa sociedade mercantil, quem o faz vende no mercado e recebe uma quantidade de dinheiro que lhe permitirá adquirir outra coisa útil para si e, assim, o que foi produzido para o mercado será um “valor de troca” em confronto com outros que produzem a mesma coisa. Em família, essa igualdade é absolutamente dispensável porque não existem, internamente, relações mercantís.

As razões que nos movem em direção àqueles que fazem parte de um núcleo familiar não visam a troca ampla, onde sequer precisamos conhecer aquele que adquire uma mercadoria. Ao contrário, é a pessoalidade que determina a produção familiar. Há, ai, a partilha de uma mesma história, o conhecimento das idiossincrasias pessoais, o desejo de bem nutrir e de agradar, mostrando, em cada ato, em cada gesto, que compreendo perfeitamente o outro e suas preferências.  Quem sabe que você gosta, por exemplo, de comer pizza fria com café com leite no café da manhã, não é mesmo? Só os seus. A sociedade atual tende a apagar as fronteiras entre o que é público e o que é privado, mas  enquanto houver esse domínio do qual só as pessoas próximas participam, a separação estará garantida e essa experiência tão imediatamente gratificante que se dá em família continuará recriando um determinado sentido da vida.

Gostos, preferencias e, por que não, uma política de alianças com determinados produtores e não outros podem orientar todos os gestos culinários. Por exemplo, a família pode decidir que na casa não entram alimentos impregnados de agrotóxicos ou hormônios. Evidentemente pode implicar em mais trabalho ir atrás do que se quer. Mas não é essa busca já um trabalho feito por motivação afetiva?

Sobre o colunista

Qualidade é afeto
Doutor em Sociologia pela Unicamp e pesquisador-colaborador do Departamento de Sociologia dessa instituição. Em 2006, ganhou o prêmio Best Food Literature Book no Brasil, concedido pelo Gourmand World Cookbook Award, pelo livro Estrelas no céu da boca: escritos sobre culinária e gastronomia (Senac SP). Organizou a edição especial da Scientific American Brasil e publicou ainda A culinária materialista (Senac SP), Com unhas, dentes & cuca (Senac SP) (em parceria com Alex Atala) e A formação da culinária brasileira (Publifolha). Escreve em vários órgãos de imprensa e mantém o blog especializado e-BocaLivre. É diretor da Ong C5 - Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo.

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