Chopeduto em Ribeirão Preto? Teve sim.

Chopeduto em Ribeirão Preto? Teve sim.

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Na década de 1930 o chope era transportado em barris de madeira (créditos: AHRP)

No texto “Ribeirão Preto e a cerveja: não foi pela água…” (leia aqui) sobre a importância do insumo na consolidação de Ribeirão Preto (SP) como cidade cervejeira, citei um outro tema polêmico que causou certo espanto nos leitores. Por isso, me propus a explicar o cervejoduto (ou chopeduto) que existiu na cidade. 

Alguns dizem ser pura lenda urbana mas há quem tenha certeza da que a qualidade do famoso chope do Pinguim se devia ao chopeduto que ligava a fábrica da cervejaria Antárctica à choperia. De onde ficava o setor de embarrilamento da Antárctica (desativada em 2003), próximo à rua Castro Alves, até a unidade original da choperia, no edifício Diederichsen, nas esquinas das ruas General Osório e Álvares Cabral, são cerca de 900 metros. 

A distância poderia ser uma barreira para o chopeduto. Mas não seria um impedimento. Em Bruges, na Bélgica, a Cervejaria Halve Maan construiu em 2016 um cervejoduto (leia aqui) de 3 quilômetros que liga a fábrica, localizada no centro histórico da cidade, à uma nova unidade de engarrafamento, onde o acesso dos caminhões é mais simples e não prejudica a arquitetura medieval que atrai milhares de turistas.

Aqui em Ribeirão Preto, assim como existe hoje em Bruges, o cervejoduto foi construído por razões logísticas e industriais. Como se sabe, a cerveja (e o chope, que é a cerveja em barril não pasteurizada) precisa ser transportada com absoluto cuidado. Temperaturas altas interferem diretamente na qualidade da bebida, assim como contato com o oxigênio presente no ar. Com uma serpentina de 900 metros debaixo da terra é impossível manter temperatura a pressão estáveis o suficiente para servir um chope de forma ideal no balcão.

Mas como então o chope do Pinguim se tornou excelente e tão famoso?

A serpentina que existiu, ainda nos tempos da unidade do Edifício Diederichsen e depois no ponto atual, o não menos histórico edifício Meira Junior, no Quarteirão Paulista, ficava em contato direto com barras de gelo e se mantinha refrigerada desde a câmara fria até a chopeira, onde o gelo era trocado e compactado de tempos em tempos. 

Da torre da Cervejaria Paulista é possível enxergar o Theatro Pedro II, ao lado da choperia Pinguim.

Câmara fria? Sim. O chope nunca chegou ao Pinguim pelo chopeduto. O produto percorria os 900 metros eu separavam a fábrica do bar em barris. Primeiro de madeira, ainda nos anos de 1930, e depois em barris de inox. A fama internacional veio a partir de 1965, sob o comando do empresário Albano Celini, que investiu no sistema de serpentinas, no marketing, e tinha o cuidado de manter os barris sempre refrigerados, frescos e descansados.

Quem chegou até aqui pergunta: Mas e o chopeduto? Ele começou a ser planejado ainda em 1973, quando a Antarctica comprou a cervejaria Paulista para ligar as duas plantas industriais. Sua estrutura era subterrânea, cruzava por cima do ribeirão Preto, rio que dá nome à cidade, e por debaixo dos trilhos da ferrovia que ainda restavam por ali.

Sua função era levar mosto quente para ser fermentado na Paulista que devolvia cerveja para ser maturada nos tanques maiores e verticais da Antarctica. Essa história, verídica, quem contou foi o mestre cervejeiro Carlos Hauser, que trabalhava na Antárctica e acompanhou todo o processo de fusão, se aposentando em 1997. É dele o esboço da planta da cervejaria Paulista reproduzido aqui.

Esboço da planta da Cervejaria Paulista após fusão com a Antarctica, em 1973, com indicação do cervejoduto
Esboço da planta da Cervejaria Paulista após fusão com a Antarctica, em 1973, com indicação do cervejoduto

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