Água é sempre foi assunto entre os amantes de cerveja. Foto: acervo pessoalÁgua sempre foi assunto entre os amantes de cerveja. Foto: acervo pessoal
[Alerta de opinião]

Seja no boteco da esquina, onde sempre se pode encontrar um fã da Brahma de Agudos, ou entre os connoisseurs que valorizam o terroir de uma típica ale de Burton upon Trent, o bebedor está sempre pronto para apontar a influência da água na produção de uma boa cerveja.

Aqui em Ribeirão Preto é unânime que a qualidade da água – somada a um lendário chopeduto – merece os créditos pela fama e pela longa história cervejeira da cidade, hoje considerada pelos brasileiros a melhor do mundo para se degustar uma gelada (link: https://news.booking.com/pt-br/para-o-dia-internacional-da-cerveja-bookingcom-apresenta-os-destinos-mais-recomendados-pelos-brasileiros-para-degustar-uma-gelada/).

E embora tenha existido de fato um cervejoduto por aqui (aguardem um próximo texto sobre isso), afirmar que a “qualidade da água” foi determinante para a identidade da cidade com a cerveja é uma daquelas lendas que, repetidas tantas vezes, acabaram sendo tomadas por verdade.

Fato é que, se existe um único recurso natural responsável pela história cervejeira do município não é água mas a terra roxa. Foi essa riqueza agronômica, extremamente fértil, que, no final da década de 1870, fez os cafeicultores olharem para a remota região de Ribeirão Preto, que até então fazia parte do chamado Sertão Desconhecido.

mapa ferroviário da região de Ribeirão Preto em 1909, com a E.F. Mogiana já chegando em Uberaba
Mapa ferroviário da região de Ribeirão Preto em 1909, com a E.F. Mogiana já chegando em Uberaba

Entra aí um segundo fator que determinou o futuro cervejeiro da cidade. E, mais uma vez, ele foi mais importante que a qualidade água. No processo de se tornar o centro de uma importante região produtora de café, a cidade recebeu, em 1883, os trilhos da Estrada de Ferro Mogiana que serviria para escoar a produção e transportar mão de obra imigrante tanto para as fazendas quanto para uma acelerada colonização urbana.

Ou seja, a ferrovia, reflexo da alta produtividade da terra roxa, impulsionou uma rápida urbanização multicultural, tornando Ribeirão Preto um rico e importante mercado consumidor para a cerveja. O censo de 1900 já apontava a cidade com uma população superior a 59 mil habitantes. Isso fazia do município o terceiro maior da província, atrás apenas da capital paulista, com 239 mil pessoas, e de Campinas, com 67 mil.

Em 1910, Ribeirão Preto já era uma cidade urbanizada para os padrões da época
Em 1910, Ribeirão Preto já era uma cidade urbanizada para os padrões da época

Para se ter uma ideia da efervescência cervejeira da cidade, 24 fábricas funcionaram por aqui entre 1891 e 1910, conforme identificou o historiador Leandro Maia Marques. É fato que essas cervejarias eram bastante artesanais, produziam pouco e sobreviviam, em média, menos que 5 anos. Mas o empreendedorismo e a presença de mão de obra qualificada são um início importante da relação da cidade com a bebida.

Foi em 1911, com a inauguração da primeira filial da Companhia Cervejaria Antárctica, uma grande indústria para a época, foi interrompido o abre e fecha de pequenas cervejarias. Aí sim a cidade ganhou relevância, definitivamente, na história cervejeira do Brasil. E se você chegou até aqui, já deve suspeitar que os motivos que levaram os acionistas da Antarctica a escolherem a cidade não foi a qualidade da água.

Obras da Companhia Antarctica Paulista em 1911. Fotógrafo: Ernesto Kühn. Acervo APHRP
Obras da Companhia Antarctica Paulista em 1911. Fotógrafo: Ernesto Kühn. Acervo APHRP

A movimentada Estrada de Ferro Mogiana, além de conectar Ribeirão Preto com Campinas (e São Paulo) tinha um alcance ainda maior. Desde 1896 os trens que saíam ou passavam por Ribeirão Preto estavam chegando em Araguari, na divisa com Goiás, onde uma nova estrada de ferro em construção iria ligar Minas Gerais à Goiás.

Foi certamente o promissor mercado da capital do café somado à possibilidade de levar sua produção para além das fronteiras paulistas que pesaram na escolha da Antárctica montar sua fábrica. Logo, em 1913, capitalistas locais também enxergaram a boa oportunidade e a cidade ganhou sua segunda grande fábrica, a Companhia Cervejaria Paulista.

Mas, e a água? Como todo bom bebedor sabe, ela é sim muito importante na produção cervejeira. Era determinante no início do século passado, quando não havia a bioquímica desenvolvida e a tecnologia industrial não era capaz de ajustes na água cervejeira como faz hoje.

Porém, assim como Ribeirão Preto, outras cidades cafeeiras do interior paulista como São Carlos, Araraquara, Jaú e Rio Claro, que nos anos de 1910 já eram centros regionais urbanos, também estão situadas em área de afloramento do Aquífero Guarani, onde com poços não tão profundos era possível captar água propícia para a produção de cervejas leves que já estavam na moda nos anos de 1900.

A faixa em azul, na porção central do estado de São Paulo, a região de afloramento do Aquífero Guarani
A faixa em azul, na porção central do estado de São Paulo, a região de afloramento do Aquífero Guarani

Por isso, quando a conversa sobre a tradição cervejeira de Ribeirão Preto chegar na importância da água, saiba que ela teria sido sim uma barreira se não fosse adequada o suficiente para produção de lagers. Mas, certamente não foi esse o fator determinante para que, 135 anos depois da primeira cervejaria artesanal, ainda estarmos por aqui bebendo e conversando sobre água, história e cerveja.

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